Democracia americana está capenga

Em meio ao ambiente que precede as eleições parlamentares e para governador nos Estados Unidos que acontecerão em novembro, desponta com nitidez a qualidade deplorável do contexto político-partidário americano. Tanto o Partido Republicano quanto o Democrata estão imersos nos padrões de desempenho mais medíocres já verificados na história do país.

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O Republicano, no passado um respeitável partido conservador de direita, tornou-se mero porta-voz de ideias retrógradas e antidemocráticas. A maioria de seus integrantes desrespeita o processo eleitoral, alardeia teorias conspiratórias infundadas e estimula a direita extremista. Como que hipnotizado pelo vigarista Donald Trump, ídolo da família Bolsonaro, o partido não demonstra pudor em divulgar um discurso mentiroso, em agir de forma antiética e em prestigiar atos de violência de seus seguidores.

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Por exemplo:

a) grande parte dos republicanos endossa a farsa de que Biden não venceu as eleições;

b) o partido recusou-se a participar oficialmente da comissão parlamentar que investiga a invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021;

c) vários governadores republicanos estão propondo às assembleias estaduais mudanças nas regras eleitorais que descaradamente favorecem o próprio partido;

d) os parlamentares republicanos votam contra ou distorcem todas as propostas dos democratas que visam a progressos em diversificadas áreas da sociedade americana, inclusive as que beneficiam as classes de menor renda, protegem o meio ambiente e regulamentam o porte de armas.

Quanto ao Partido Democrata, é surpreendente a maneira insatisfatória como vem atuando em termos de estratégia e combatividade. É notória sua incapacidade de lutar por seus objetivos e de propagar as realizações dos governos que detém. Apesar do momento político crítico vivido pelo país, até com ameaças ao direito de voto, os democratas agem como se imperasse tranquilidade. Em consequência dessa postura, vêm desiludindo seus adeptos e perdendo a confiança dos eleitores independentes.

Há quem atribua essa inércia à idade avançada da maioria dos ocupantes de cargos relevantes pertencentes ao partido. A presidência da Câmara e a liderança dos democratas na Casa são ocupadas por representantes com mais de 80 anos. A nova geração de políticos do partido se sente abafada sob o peso da velha guarda, além de exibir elevado índice de contrastes ideológicos, o que conduz à desunião.

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Torna-se injustificável exaltar as virtudes da democracia reinante nos Estados Unidos diante do quadro partidário e, também, dos inúmeros anacronismos da arquitetura político-institucional do país — entre eles, o obsoleto Colégio Eleitoral, a inexistência de uma Justiça Eleitoral e o fato de Washington DC não ter o direito de eleger deputados federais nem senadores.

*Marcello Averbug é economista aposentado do BNDES e consultor

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