Democratas veem 'semelhança' entre Trump e Bolsonaro na pandemia, mas é improvável que façam 'CPI da Covid' nos EUA

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Trump e Bolsonaro
Bolsonaro sempre se considerou um apoiador de Donald Trump

Um grupo de congressistas americanos da ala mais progressista do partido Democrata divulgou na manhã desta sexta-feira (5/11) um comunicado no qual elogia os trabalhos da CPI da Covid - que sugeriu o indiciamento de Jair Bolsonaro por nove delitos, entre os quais crime contra a humanidade e charlatanismo.

O texto também insta o procurador-geral da República, Augusto Aras, a seguir com as investigações e afirma que a atuação dos parlamentares brasileiros os fez resolver seguir caminho semelhante nos Estados Unidos em relação às fakes news contra vacinas - que têm levado relevante percentual da população americana a hesitar diante da imunização.

"Os comentários recentes de Bolsonaro de que pessoas totalmente vacinadas estavam desenvolvendo a AIDS mostram que ele mantém sua oposição contínua e perigosa às vacinas e continua a usar as redes sociais para espalhar desinformação", dizem os congressistas na declaração pública, citando o caso em que uma live recente do presidente brasileiro foi derrubada das redes sociais depois que ele fez falsa associação entre vacinas e aids.

"Como legisladores dos EUA, estamos plenamente cientes dos impactos negativos que a desinformação pode ter na saúde pública e na democracia. Somos solidários às autoridades brasileiras que estão lutando para impedir a disseminação em massa da desinformação no Brasil e resolvemos fazer o mesmo aqui nos Estados Unidos", continua o texto.

A declaração, que não tem impacto direto no Congresso ou no Judiciário do Brasil ou dos EUA, ilumina a contradição vivida por parte dos democratas e expressada por comentaristas políticos do país.

"Se os políticos brasileiros podem tentar responsabilizar Bolsonaro pelas centenas de milhares de mortes evitáveis de covid, porque ninguém aqui nos EUA, nenhum democrata, está tentando responsabilizar Trump por centenas de milhares de mortes evitáveis de covid sob seus olhos?", questionou o âncora político Mehdi Hasan, da MSNBC.

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Diversos presidentes tomaram vacinas e compartilharam as imagens (Créditos: Reuters, Governo do Reino Unido, Reprodução)

'Semelhança incrível entre Trump e Bolsonaro'

O Brasil é o segundo país em número absoluto de vítimas da pandemia, atrás apenas dos próprios Estados Unidos. Para os parlamentares democratas, a alta letalidade em ambos os países não é uma coincidência.

"O que aconteceu no Brasil e nos Estados Unidos em relação às mortes de COVID poderia ter sido evitado ou mitigado se o então Presidente Trump e o Presidente Bolsonaro tivessem ouvido as autoridades de saúde pública e a comunidade científica e implementado protocolos de segurança. Isso não aconteceu com a rapidez necessária ou com protocolos de segurança suficientes em vigor e, como resultado, você tem mais de 600.000 mortes no Brasil e mais de 750.000 apenas nos Estados Unidos", afirmou à BBC News Brasil, o congressista Raúl Grijalva, autor da declaração endossada por outros cinco colegas da Câmara dos EUA.

Durante o primeiro ano da pandemia, o então presidente americano Donald Trump e Bolsonaro seguiram vias semelhantes em relação ao desafio da covid-19.

Ambos minimizaram o tamanho do problema (a que chamaram de "gripe"), brigaram com seus auxiliares médicos, agiram contra a orientação de paralisar a economia para impedir o espalhamento do vírus, entraram em disputa de poder com os governadores estaduais, questionaram orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS), como o uso de máscaras e promoveram a hidroxicloroquina como cura para a doença, mesmo quando já estava clara a ineficácia do medicamento no combate à infecção viral.

E embora Trump tenha investido alto no desenvolvimento de vacinas - o que levou, por exemplo, à criação do imunizante de mRNA da Moderna - ele se recusou a receber as doses publicamente junto com os demais ex-presidentes e com o atual mandatário, Biden.

Já Bolsonaro nega que tenha se vacinado e já deu inúmeras declarações questionando a necessidade de imunização. Seu governo também foi considerado responsável por atrasar o início da vacinação dos brasileiros pela CPI da Covid.

Nos EUA, argumentam os Democratas, apesar da disponibilidade da vacina, o resultado não foi muito diferente: até a posse de Biden, no fim de janeiro, apenas 1% dos americanos estavam imunizados. O percentual saltou para mais de 70% com ao menos uma dose atualmente.

"Infelizmente, a semelhança entre Bolsonaro e Trump é incrível. Ambos lidaram com a pandemia de maneira semelhante, renegando a ciência e permitindo que informações incorretas sobre saúde se propagassem. De muitas maneiras, as ações de Trump encorajaram Bolsonaro não apenas em relação à pandemia", afirmou Grijalva.

Esse é um raciocínio que o ex-ministro da Saúde de Bolsonaro, Luiz Henrique Mandetta, fez em entrevista ao jornal americano The New York Times. Mandetta relembrou uma visita de Bolsonaro a Trump na Flórida, em março de 2020, quando a pandemia recém se espalhava pelo mundo ocidental.

"Ele disse que a viagem foi maravilhosa, que se divertiram muito, que a vida em Mar-a-Lago estava normal, e que a hidroxicloroquina era o remédio que deveria ser usado. Daquele momento em diante, foi muito difícil fazer com que ele levasse a ciência a sério", disse Mandetta.

No mesmo dia em que a CPI da Covid enviou ao procurador geral da República Augusto Aras o pedido de indiciamento criminal de Bolsonaro, o ex-presidente Donald Trump divulgou declaração pública de apoio ao presidente brasileiro.

Na declaração, disse que ambos são amigos e que o Brasil tem sorte de ter Bolsonaro no comando. "Ele ama e luta pelo povo do Brasil - exatamente como eu faço pelo povo dos EUA", escreveu Trump.

Bolsonaro nega todas as acusações feitas pelo relatório da CPI da Covid, e acusa o relatório de ser uma peça para feri-lo política e eleitoralmente.

Resposta a Trump nas urnas

Questionado pela BBC News Brasil se o Congresso americano falhou ao não tomar medidas de investigação sobre a conduta de Trump durante a pandemia, Grijalva afirmou que os legisladores americanos criaram um grupo de supervisão sobre covid-19, mas sem poderes de investigação criminal, e que a resposta pela condução da pandemia por Trump veio em nas urnas em novembro de 2020.

Imagem do comunicado do congresso americano
Comunicado do Congresso Americano pede responsabilização de Bolsonaro

"Embora Trump não tenha enfrentado uma investigação criminal, a Câmara dos Representantes dos EUA usou seu poder para estabelecer um comitê sobre a crise do coronavírus e fornecer supervisão sobre o manejo da pandemia pelo governo Trump. Esse comitê continua seu trabalho até hoje. Em última análise, a eleição de 2020 foi um referendo sobre Trump e suas políticas e um reconhecimento do povo americano de que sua forma de lidar com a pandemia foi inadequada e inapropriada", disse Grijalva à BBC.

Para o colunista do jornal Washington Post Ishaam Tharoor, a aparente falta de apetite do partido democrata no assunto decorre de uma somatória de fatores.

Por um lado, democratas focaram em tentar criminalizar Trump pela invasão do Capitólio por seus apoiadores em 6 de janeiro, algo com resultados incertos até agora. De outro, o partido tem tido que lidar com suas próprias fragilidades políticas.

A popularidade de Biden tem derretido rapidamente na esteira da paralisia decisória de sua base diante de propostas econômicas e sociais da Casa Branca, que dependem de aprovação legislativa.

Além disso, a pandemia e seus efeitos estão longe de ser uma página virada para os americanos. Com a dificuldade de acelerar a cobertura vacinal no país, Biden vê um repique no número de casos e tem determinado que empresas privadas ameacem funcionários não vacinados com demissão.

Assim, acusar criminalmente Trump por mortes de covid poderia abrir um precedente perigoso contra ele mesmo no futuro.

"Há pouco ímpeto no Congresso dos Estados Unidos agora para o tipo de inquérito organizado pelos rivais de Bolsonaro em Brasília. Isso porque o número de mortos americanos quase dobrou desde que Trump deixou o cargo e os legisladores do Congresso estão focados em outros supostos crimes, principalmente no papel de Trump em fomentar a insurreição de 6 de janeiro", escreveu Tharoor ao Washington Post.

Além disso, ele nota que ter sofrido dois processos de impeachment na Câmara fez pouco para dilapidar o capital político de Trump, "e o ex-presidente mantém um controle dominante sobre a base republicana".

Nesta semana, Trump e seus aliados impuseram uma derrota importante aos democratas, ao retomar o controle do governo do Estado da Virgínia após 10 anos.

Perguntado sobre qual seria a importância para o povo americano de que Bolsonaro fosse eventualmente punido por má conduta na pandemia - o que ele nega - Grijalva afirmou que "como membros do Congresso, acreditamos que nenhum líder deve ser capaz de sabotar unilateralmente e implementar propositadamente políticas de saúde pública com consequências graves e reais".

Grijalva e seus colegas que assinam a declaração - Hank Johnson, Chuy Garcia, Rashida Tlaib, Susan Wild e Karen Bass - têm sido autores ou apoiadores de ações corriqueiras de questionamento e críticas ao governo Bolsonaro. A última delas, de iniciativa de Hank Johnson, foi um pedido para que Biden revogue a oferta de que o Brasil se torne parceiro global da Otan (Organização do Atlântico Norte).

Em resposta ao pedido, endossado por mais de 60 parlamentares, a Embaixada do Brasil nos EUA afirmou que os congressistas democratas se baseavam em "informações equivocadas, distorções e falsidades".

"É lamentável que, sob pretexto de proteção da democracia e dos direitos humanos, objetivo plenamente compartilhado pelo Governo Brasileiro, a carta (dos legisladores americanos) proponha uma visão de mundo que tem dificuldade de lidar com diferenças políticas e com os fatos", escreveu o Embaixador brasileiro nos EUA Nestor Forster.

Perguntado pela BBC sobre o fato de apoiadores de Bolsonaro verem na declaração uma tentativa de atingi-lo politicamente e de favorecer seus opositores nas urnas em 2022, Grijalva rechaçou a interpretação.

"Os democratas não favorecem um candidato em detrimento de outro. Escolher quem deve governar o Brasil fica a critério do povo brasileiro, e os EUA não têm absolutamente nada a dizer sobre isso. Como parlamentares preocupados com a preservação dos direitos humanos e da democracia em todo o mundo, acompanhamos de perto a trajetória de deterioração no Brasil. Manter a integridade do processo democrático no Brasil é fundamental. Tanto o presidente Trump quanto o Bolsonaro utilizaram táticas tiradas diretamente do manual de um ditador", afirmou o congressista.

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