Democratas vencem disputas na Geórgia e recuperam controle do Senado nos EUA

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Com as vitórias de Raphael Warnock e Jon Ossof nesta quarta-feira (6) nas disputas no estado da Geórgia pelas duas últimas vagas ao Senado americano, o Partido Democrata, do presidente eleito Joe Biden, recuperou o controle do Congresso. Com 98% das urnas apuradas, Warnock tem 50,7% dos votos, superando a republicana Kelly Loeffler, com 49,3%. Diversos veículos de imprensa, como a agência Associated Press e o canal CNN, projetaram a vitória do democrata durante a madrugada, ainda que Loeffler se recusasse a reconhecer a derrota. Já o democrata Jon Ossoff aparece com 50,28%, pouco à frente do republicano David Perdue, com 49,72%. A maioria dos votos que ainda falta ser contada vem de regiões democratas do estado, de modo que as vantagens de Warnock e Ossoff devem crescer até o fim da apuração. Ossoff declarou vitória na manhã desta quarta (6), e os prinicipais meios de comunicação dos EUA, que fazem projeções com base na apuração, consideraram a disputa decidida por volta das 18h20. Warnock, um pastor batista, torna-se não apenas o primeiro senador negro da história da Geórgia, mas também o primeiro democrata afro-americano eleito para a Casa por um estado do Sul dos EUA. O único outro negro eleito por voto popular para o Senado na região é o republicano Tim Scott, que desde 2013 representa a Carolina do Sul. A Geórgia tem peso simbólico nesse caso, já que é o estado de dois dos mais importantes nomes da luta contra a segregação racial na história americana: o reverendo Martin Luther King Jr. (1929-1968) e o ativista e deputado democrata John Lewis, morto no ano passado. “Irei ao Senado para trabalhar pela Geórgia inteira, não importa em quem você votou nesta eleição”, disse Warnock em uma transmissão ao vivo nas redes sociais. “Hoje nós provamos que, com esperança, com trabalho e com o povo ao nosso lado, tudo é possível.” Diante do mau desempenho de seus candidatos na Geórgia, Donald Trump voltou a fazer alegações infundadas sobre fraude na eleição, assim como fez após sua derrota nas eleições de 3 de novembro. “Parece que eles estão organizando um ‘despejo de votos’ contra os candidatos republicanos. Esperando para ver quantos votos vão precisar?”, escreveu o atual presidente americano em uma rede social. Agora, com a confirmação das vitórias dos dois democratas na Geórgia, Biden terá maioria nas duas Casas do Legislativo, o que facilitará a vida do novo governo nos dois primeiros anos da gestão. Como a Casa tem 100 senadores (dois por estado), sendo que atualmente 50 são republicanos e, 50, democratas (incluindo dois independentes que votam com o partido), em caso de empate quem tem o voto de minerva é o vice-presidente do país (que também é o presidente do Senado) —ou seja, a partir de 20 de janeiro, a democrata Kamala Harris, companheira de chapa de Biden. Com recorde de votos antecipados, não foram registrados tumultos nem esperas prolongadas para votar. O número recorde de eleitores que votaram antes desta terça, por correio ou presencialmente, ajudou a evitar aglomerações, refletindo uma tendência provocada pela Covid-19 e já observada em 3 de novembro. Quase 3,1 milhões de pessoas votaram antes do dia da eleição, cerca de 40% de todos os eleitores registrados no estado, segundo dados do US Elections Project, da Universidade da Flórida. Os democratas foram encorajados por candidatos a optar pela votação antecipada —em novembro, muitos republicanos, estimulados por Trump, preferiram o voto presencial, com base em falsas acusações de fraude nas cédulas enviadas pelo correio. Após a eleição de novembro, a junta eleitoral da Geórgia promulgou uma regra exigindo que, para evitar atrasos, os condados comecem a processar as cédulas entregues antecipadamente uma semana antes do dia final do pleito. Assim, a expectativa era a de que o resultado fosse conhecido entre a noite de terça e a manhã de quarta (6), o que não aconteceu no caso da disputa entre Perdue e Ossof. As duas vagas ao Senado estavam em jogo agora porque, na eleição de 3 de novembro, nenhum dos candidatos conseguiu superar os 50% dos votos no primeiro turno.​ As disputas ocorreram de maneira separada —quem concorria em uma, não concorria na outra. Na hora de se inscreverem no pleito, os próprios candidatos decidiram qual das vagas eles tentariam. Os valores investidos pelos dois partidos evidenciam a importância dessa campanha: US$ 404 milhões (R$ 2,13 bilhões) foram gastos na corrida entre Ossoff e Perdue, a disputa ao Senado mais cara da história dos EUA. Warnock e Loeffler ficaram com o segundo lugar: US$ 300 milhões (R$1,58 bilhão). Biden foi o primeiro candidato democrata a vencer na Geórgia desde 1992. Ele derrotou Trump ao receber 2.473.633 votos, equivalentes a 49,5% do total. O republicano ficou com 2.461.854 (49,3%), marcando uma diferença de exatos 11.779 votos. Uma das principais razões para a virada democrata no Estado foi o trabalho para estimular eleitores a votar, coordenado por lideranças como Stacey Abrams, que foi representante estadual (equivalente a deputado estadual no Brasil) por dez anos e candidata derrotada ao governo da Geórgia, em 2018. A democrata tomou como prioridade a militância contra a supressão de voto —maneiras pelas quais o próprio sistema eleitoral impede as pessoas de votar, como dificuldades no acesso a locais de votação ou no registro de eleitores, aspectos que afetam com mais força populações não brancas e pobres. Abrams fundou, após sua derrota eleitoral, uma organização voltada a essa causa, a Fair Fight Action (ação pela luta justa), que também estimula a participação política das comunidades negras no estado. Nas últimas semanas, Trump fez publicações sobre o pleito na Geórgia, mas para denunciar supostas fraudes em massa que, segundo ele, roubaram sua vitória neste estado tradicionalmente republicano —ele não apresentou provas que sustentassem as acusações. Os dois republicanos na disputa pelo Senado, inclusive, deram declarações em apoio às acusações falsas de fraudes eleitorais. Nesta terça, logo após o início da apuração, a campanha de Trump espalhou desinformação em mensagem de texto a apoiadores: "É verdade que as máquinas eleitorais 'pararam de funcionar' mais cedo na Geórgia hoje? Os democratas estão tentando ROUBAR esta eleição?". Na tarde desta quarta, Biden divulgou um comunicado em que parabeniza Warnock pela eleição e afirma estar esperançoso sobre a vitória de Ossoff e a conquista da maioria no Congresso. "Parece que sairemos da eleição de ontem [terça, 5] com a liderança democrata na Câmara e no Senado", disse o presidente, acrescentando que os eleitores da Geórgia "transmitiram uma mensagem retumbante" na votação. Biden afirmou ainda que está satisfeito por poder trabalhar com Nancy Pelosi, escolhida como líder da maioria na Câmara, e com Chuck Schumer, então líder da minoria no Senado, ambos do Partido Democrata. Disse também, no entanto, estar determinado a trabalhar com membros das duas maiores legendas do país "para que grandes coisas sejam feitas pela nação". "Após os últimos quatro anos, após a eleição e após os procedimentos de certificação eleitoral de hoje no Capitólio, é hora de virar a página. O povo americano exige ação e quer unidade. Estou mais otimista do que nunca de que podemos oferecer os dois", disse Biden.