O que explica a demora do governo para compra das vacinas?

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Brazil's President Jair Bolsonaro tries to put his mask on during a ceremony to announce investments for the Aguas Brasileiras Program (program brazilian water) at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil, March 22, 2021. REUTERS/Ueslei Marcelino     TPX IMAGES OF THE DAY
Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da Saúde e autor de “Um paciente chamado Brasil”, compara a postura de Jair Bolsonaro diante da pandemia do coronavírus ao escape de um enfermo quando recebe uma notícia ruim. Primeiro, nega-se a gravidade da doença. Depois, fica com raiva do médico. Em seguida, busca a cura milagrosa.

Como mostrou o depoimento à CPI da Pandemia do médico e pesquisador Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan, o governo estava na etapa da negação, em direção à aposta no milagre, quando rejeitou as ofertas para ampliar a produção de vacinas no país.

O presidente dava de ombros para a imunização de uma doença que levou muito tempo para reconhecer a gravidade. Por que se vacinar contra algo que nem existe?

O medo, desde o princípio, era com as consequências da “histeria” na vida econômica do país. Consequências que o mundo inteiro enfrentava, mas que Bolsonaro levou para o lado pessoal. “Se a economia afundar, acaba meu governo”, lembra?

Acaba também os planos da reeleição.

A postura intransigente do presidente fez com que o problema não fosse encarado de frente quando deveria. Antes das recomendações médicas, Bolsonaro desdenhou uma lição básica que separa numa linha reta os adultos dos meninos: não falar do problema não faz com que o problema desapareça.

E, quanto mais tempo se leva para reconhecer a existência do problema, mais chances ele tem de se agigantar.

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Foi essa postura de menino que não quer tomar banho que levou ao atraso de um programa de vacinação que poderia ter começado muito antes e evitado milhares de mortes no país.

Na capa da revista Veja da semana passada, o Brasil era retratado como um foguete sem autorização para decolagem, enquanto outros países, os que lideram com a pandemia como adultos, se preparavam para a retomada da normalidade após meses de testagem e vacinação em massa.

Foi só porque evitamos enfrentar o problema de frente lá atrás que ele ainda nos apavora um ano depois, como um ciclo repetitivo digno de Dia da Marmota.

A duras penas, Bolsonaro e equipe ainda não perceberam que esconder a lição de casa debaixo da cama não preenche automaticamente as respostas certas nos campos vazios.

Nas linhas dos campos vazios, sobram evasivas negacionistas, fake news e insistência em soluções mágicas. Enquanto isso o país soma 460 mil mortes por covid-19. Muitas delas, e isso está mais do que documentado pela CPI da Pandemia, poderiam ser evitadas.

Não foram.

Por fugir dos problemas, Bolsonaro, em vez de um, tem dois grandes problemas fundamentais em seu encalço. Um deles é o resultado do fiasco de seu negacionismo no campo sanitário. O outro é o estrago no campo econômico, que tem no desemprego de 14,8 milhões de pessoas o seu melhor (aliás, pior) retrato.

Países que não tardaram a reconhecer a pandemia e enfrentá-la como adultos, agindo firme e rapidamente, hoje estão décadas à nossa frente. No Brasil, a negação e a frouxidão das medidas a conta gotas cobram seu preço. Em vidas e ampliação da miséria.

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