Denúncia tenta atingir a imprensa livre, afirma Glenn

MÔNICA BERGAMO E REYNALDO TUROLLO JR.
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 11.07.2019 - Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) recebe o jornalista Glenn Greenwald, responsável pelo site The Intercept Brasil, para falar sobre os vazamentos de supostas conversas entre o ex-juiz e atual ministro da Justiça, Sergio Moro, e o procurador da República Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Operação Lava-Jato. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP, E BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O jornalista Glenn Greenwald, alvo de uma denúncia do Ministério Público Federal que o acusa de envolvimento no hackeamento de contas de Telegram de autoridades, afirmou nesta terça-feira (21) que a peça "é uma tentativa óbvia de atacar a imprensa livre em retaliação pelas revelações que relatamos sobre o ministro Moro e o governo Bolsonaro".

Em nota enviada ao jornal Folha de S.Paulo depois de procurado para comentar a denúncia, o fundador do site The Intercept Brasil disse que "o governo Bolsonaro e o movimento que o apoia deixaram repetidamente claro que não acreditam em liberdades de imprensa".

Glenn cita como exemplos "as ameaças de Bolsonaro à Folha, os ataques aos jornalistas incitando violência, as insinuações de Sergio Moro desde o início das nossas reportagens para nos classificar como 'aliados dos hackers' por revelar sua corrupção em vez de 'jornalistas'".

Glenn diz que a Polícia Federal, examinando todas as mesmas evidências citadas pelo Ministério Público, declarou explicitamente que ele não cometeu nenhum crime e exerceu "extrema cautela" como jornalista.

Na conclusão da nota, ele jornalista afirma: "Não seremos intimidados por essas tentativas tirânicas de silenciar jornalistas. Estou trabalhando agora com novos relatórios e continuarei a fazer meu trabalho jornalístico. Muitos brasileiros corajosos sacrificaram sua liberdade e até a sua vida pela democracia brasileira, e sinto a obrigação de continuar esse nobre trabalho."

Os advogados Rafael Borges e Rafael Fagundes, que representam Glenn, afirmaram que receberam com perplexidade a informação de que o jornalista foi denunciado.

"Trata-se de um expediente tosco que visa desrespeitar a autoridade da medida cautelar concedida na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) nº 601, do Supremo Tribunal Federal, para além de ferir a liberdade de imprensa e servir como instrumento de disputa política", disseram.

"Seu objetivo é depreciar o trabalho jornalístico de divulgação de mensagens realizado pela equipe do The Intercept Brasil em parceria com outros veículos da mídia nacional e estrangeira. Os advogados de Glenn Greenwald preparam a medida judicial cabível e pedirão que a Associação Brasileira de Imprensa, por sua importância e representatividade, cerre fileiras em defesa do jornalista agredido."

O site The Intercept Brasil afirmou, também em nota, que a conclusão da PF foi a de que "não é possível identificar a participação moral e material do jornalista Glenn Greenwald nos crimes investigados". "Causa perplexidade que o Ministério Público Federal se preste a um papel claramente político, na contramão do inquérito da própria Polícia Federal. Nós do Intercept vemos nessa ação uma tentativa de criminalizar não somente o nosso trabalho, mas de todo o jornalismo brasileiro."