Dentista mineira é eleita Miss Trans Star Internacional: ‘A gente pode ser o que quiser’

Carol Marques
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Dentista mineira é eleita Miss Trans Star Internacional: ‘A gente pode ser o que quiser’

O Brasil não chegou à final do Miss Universo, mas uma brasileira venceu o Miss Trans Star Internacional, no último fim de semana em Barcelona. Aos 42 anos, a dentista Ava Simões foi eleita a transexual mais bonita do mundo.

A mineira de Recreio, uma cidadezinha de pouco mais de 10 mil habitantes, no entanto, concorreu por Angola, na África. “O concurso funciona por meio de convites ou inscrições. Me convidaram novamente este ano, mas já havia uma representante do Brasil e perguntaram se eu gostaria de entrar por Angola, já que lá se fala português e a cultura é tão próxima à nossa. Topei na hora”, justifica ela, que tem muitos pacientes angolanos em seu consultório no Rio de Janeiro.

Este não é o primeiro concurso de Ava. Há dez anos, ela recebeu sua primeira faixa de miss. Em 2009, a dentista concorreu e venceu o Miss Brasil Gay. “É um concurso totalmente diferente. O Miss Brasil Gay são meninos que se travestem de miss. No Miss Trans a gente obedece a uma série de regras, entre elas ter próteses de silicone nos seios e já ter feito a transição”, conta.

Ava só finalizou sua transição no ano passado quando fez a cirurgia nos seios com 375 ml de silicone em cada mama. Já à redesignação de sexo ela não pensa em se submeter. “Fiz o que eu queria e precisava para me sentir a mulher que sempre soube que eu era”, conclui.

Confusão no consultório

Ava nasceu Charles. E foi com o nome de batismo que começou a trabalhar na área de odontologia. “Eu levei um tempo para fazer a transição também pensando nos meus clientes mais antigos, que precisavam se acostumar com o doutor virando doutora”, observa: “Quem já trata comigo há muito tempo me chama pelo nome masculino. Quem chega agora, encontra a Ava”.

Às vezes, esse encontro provoca saias-justas, diz ela. “Um paciente disse que ia ao banheiro quando entrou no consultório e me viu. Passados alguns minutos, minha secretária disse que ele não queria ser atendido por mim. Meu mundo desabou naquele dia”, recorda.

Lugar de fala

Filha de um engraxate que morava nos EUA e de uma professora primária, Ava diz que não foi fácil chegar onde chegou. “Eles lutaram como puderam para me ajudar. Sou o primeiro filho formado da família”, diz a dentista, no masculino mesmo, orgulhosa: “Não vou brigar com alguém porque me chama de ‘ele’. A briga não é a saída”.

Ela já sabe, por exemplo, que quando chegar a Recreio, no Natal, vai ser recebida com uma faixa. “Mas sei que estará escrito ‘filho da cidade’. Não tem problema. Vou usar mesmo assim”, garante ela, que quer dar voz a outras trans como ela: “Quero que minha história sirva de exemplo. A gente pode ser o que quiser. Dentista, atriz, astronauta... Basta querer e lutar. Não foi fácil para mim nem digo que será para as outras. Mas é possível”.

O concurso no mundo

Ava diz que ficou impressionada com o nivel das concorrentes no concurso. “Histórias impressionantes, mulheres que tiveram que fugir de seus países pelas leis severas, mulheres com uma ótima formação profissional, mulheres que lutam por um ideal. Sim, somos mulheres. Apesar de o mundo ainda ter uma imensa dificuldade em aceitar isso”, analisa.

Além do título, Ava ganhou como prêmios uma coroa de diamantes avaliada em R$ 68 mil e mais R$ 22 mil em dinheiro. Um pouco menos do que a própria Ava gastou para concorrer: “Desembolsei quase R$ 100 mil. Mas valeu a pena. Além disso, posso mostrar que uma mulher acima dos 40 pode ser uma rainha da beleza”.

Miss Brasil foi eleita vice

A candidata do Brasil ao Miss Trans Star Internacional, Victoria Fernandes, também de Minas Gerais ficou com o segundo lugar no concurso.