Denunciante da Uber diz que modelo de negócios da empresa é 'absolutamente' insustentável

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Por Sergio Goncalves

LISBOA (Reuters) - Mark MacGann, o denunciante por trás dos chamados Uber Files, disse na quarta-feira que a empresa de transporte parece estar tomando medidas para melhorar sua cultura de trabalho, mas que seu modelo de negócios ainda é "absolutamente" insustentável.

Os jornais The Guardian e Le Monde noticiaram em julho que a Uber infringiu leis e pressionou secretamente políticos como parte de um esforço agressivo para expandir para novos mercados entre 2013 e 2017.

MacGann, que liderou os esforços de lobby da Uber junto aos governos, identificou-se como a fonte que vazou os mais de 124 mil arquivos da companhia.

MacGann disse que decidiu falar, porque acredita que a Uber conscientemente desrespeitou as leis e enganou as pessoas sobre os benefícios do modelo de negócio da empresa para os motoristas.

A Uber disse em julho, em resposta às reportagens do Guardian e do Le Monde: "Não temos e não daremos desculpas para comportamentos passados ​​que claramente não estão alinhados com nossos valores atuais".

MacGann disse que o atual presidente-executivo da Uber, Dara Khosrowshahi, e sua equipe executiva "fizeram muitas coisas boas, mas ainda falta muito".

Procurado, um porta-voz da Uber encaminhou na quarta-feira à Reuters um artigo de opinião de Khosrowshahi publicado em 2020 no New York Times, no qual ele disse que "nosso sistema de emprego atual está desatualizado e injusto".

No artigo, Khosrowshahi afirmou que os trabalhadores temporários perderiam a flexibilidade que têm hoje caso se tornassem funcionários e que as corridas por aplicativo ficariam mais caras. Ele escreveu que os trabalhadores querem flexibilidade e benefícios e acrescentou que novas leis são necessárias para ajudá-los.

"Minha mensagem para o Uber é: 'você fez bem, (mas) você pode fazer muito melhor (porque) o modelo atual não é absolutamente sustentável'", disse MacGann em entrevista coletiva durante a maior conferência de tecnologia da Europa, a Web Cimeira, em Lisboa.

Ele disse que a Uber recentemente reiterou que "o principal de seu modelo de negócios são contratados independentes, já que todo mundo quer ser autônomo, todo mundo quer flexibilidade".

Ele afirmou que os fatos, no entanto, contradizem essa visão, pois há motoristas da Uber processando a empresa em vários países para "ter um mínimo básico de proteção social, como auxílio-doença".

"A Uber está injetando dezenas de milhões de dólares na Europa, EUA e outras partes do mundo, confrontando a lei", disse ele.

(Reportagem adicional de Nivedita Balu e Ann Maria Shibu, em Bengaluru)