Vigilância de congressistas democratas por Trump gera protestos por abuso de poder

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O legislador Adam Schiff fala na sede do Congresso dos Estados Unidos, em 25 de setembro de 2019, em Washington

Os democratas reagiram com indignação nesta sexta-feira (11) quando foi revelado que, durante o governo de Donald Trump, o Departamento de Justiça monitorava secretamente legisladores que investigavam um possível conluio do então presidente com a Rússia, um abuso de poder sem precedentes, denunciaram.

Os democratas Adam Schiff e Eric Swalwell disseram que foram informados recentemente pela Apple que, entre 2017 e 2021, a empresa foi obrigada a entregar registros de suas comunicações telefônicas, assim como de membros de suas família, incluindo uma criança, enquanto Trump investigava vazamentos sobre os vínculos de sua campanha eleitoral de 2016 com a Rússia.

Nenhuma prova foi encontrada de que esses legisladores estivessem por trás dos vazamentos, mas a investigação foi mantida ativa enquanto Trump esteve no cargo, até janeiro de 2021.

"A politização do Departamento e os ataques ao Estado de Direito estão entre os ataques mais perigosos à nossa democracia perpetrados pelo ex-presidente", declarou Schiff em um comunicado.

Os principais líderes democratas no Senado ameaçaram intimar dois procuradores-gerais de Trump, Jeff Sessions e Bill Barr, que supervisionaram a vigilância, para dar depoimento sobre a questão.

"Este é um flagrante abuso de poder e uma violação da separação de poderes", afirmou o líder da maioria democrata na Câmara Alta, Chuck Schumer.

O Departamento de Justiça, agora dirigido pelo procurador-geral Merrick Garland, nomeado pelo presidente democrata Joe Biden, disse nesta sexta que seu inspetor-geral investigará o monitoramento de legisladores e jornalistas na era Trump.

- Ecos de Watergate -

Os analistas consideram a coleta de dados telefônicos dos congressistas um dos abusos mais brutais cometidos por um presidente desde o escândalo de Watergate no início dos anos 1970, no governo do republicano Richard Nixon.

A vigilância secreta ocorreu em um momento em que Trump teve que enfrentar investigações do procurador especial Robert Mueller e do Comitê de Inteligência da Câmara, onde Schiff era a principal referência democrata, sobre se sua campanha de 2016 teve contatos com a Rússia e se o magnata tentou obstruir essas investigações.

Com a intensificação da ameaça de impeachment, Trump acusou Schiff e outros democratas de vazar dados confidenciais para a imprensa.

Não se sabia se Trump ordenou explicitamente ao Departamento de Justiça que investigasse Schiff e Swalwell.

Mas entre 2017 e 2020 ele acusou repetidamente Schiff por vazamentos, publicando cerca de 350 tuítes sobre o democrata, que se tornou presidente do Comitê de Inteligência em 2019 e liderou o primeiro julgamento de impeachment de Trump em janeiro de 2020, do qual o então presidente acabou saindo ileso.

Segundo Swalwell, a investigação parece ter começado em 2017, quando o Departamento de Justiça instruiu a Apple a divulgar registros de metadados de chamadas e mensagens de texto. Trata-se essencialmente dos números de telefone daqueles que estavam em contato com os alvos da investigação, mas não o conteúdo dessas comunicações.

Swalwell e Schiff só souberam da vigilância a que foram submetidos em maio, depois que a última das três ordens para que a Apple mantivesse tudo em segredo expirou.

A coleta de registros telefônicos de um legislador é absolutamente incomum, exceto em casos de investigações por corrupção. E mesmo assim o Departamento de Justiça lida com os casos com cautela.

Vigiar membros do Congresso, especialmente os rivais do Partido Republicano, que estava no poder, é um caso extremo que exigiria uma justificativa clara e a aprovação do departamento no mais alto nível.

A revelação veio depois que o Departamento de Justiça admitiu que, sob Trump, coletou os registros telefônicos de vários jornalistas de destaque em investigações de vazamentos.

O monitoramento ocorreu, de acordo com Swalwell, porque a investigação do Comitê de Inteligência da Câmara revelou informações "que o presidente não gostou".

“Mostramos que o presidente buscou ajuda da Rússia, se beneficiou da ajuda da Rússia” nas eleições de 2016, frisou.

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