'Dependemos de coordenação e planejamento. É o que gostaríamos de ter', diz Luciano Huck sobre o Brasil e a Covid-19

Natália Boere
A menina Ana Júlia Costa Sabino, de 9 anos, que oferecia máscaras em troca de alimento em um semáforo no Recreio e foi ajudada por Huck

RIO - Que tal um pouco de esperança e boas notícias? É assim, de forma despretensiosa, que o empresário e apresentador Luciano Huck vem desafiando a maré de tristeza e incertezas diante do novo coronavírus com um telejornal 100% caseiro: com cenário desenhado por sua filha mais nova, Eva, de 7 anos, e trilha sonora composta pelo seu filho do meio, Benício, de 12. Ao mais velho, Joaquim, de 15, coube o “apoio moral”. Sua mulher, Angélica, dá expediente como “correspondente interna”: contando, por exemplo, que as crianças já fizeram o dever de casa e jantaram.

Entre os assuntos de destaque no “noticiário”, que estreou no dia 22 de abril e vai ao ar, mais ou menos, a cada dez dias nas redes sociais do apresentador, um taxista que estava levando pacientes de graça para hospitais na Espanha. E ainda um bebê tailandês de um mês que foi o mais jovem curado da doença.

— A chuva de realidade que a grande mídia tem por obrigação noticiar gera medo e angústia na população. A tela vira uma janela para um mundo lá fora que não está amigável. Já que tenho uma potência importante nas redes sociais, resolvi fazer esse jornalzinho, um retiro de boas notícias —afirma Huck.

Isolado com a família desde o início da quarentena, em meados de março, ele conta que a rotina mudou, mas a agenda se manteve: continua gravando seu programa na TV Globo, “Caldeirão do Huck”, agora sozinho, de casa, no Joá, e entrando e saindo de reuniões — adaptadas aos novos tempos e feitas pelo aplicativo Zoom. Em meio aos compromissos, Huck vai encontrando tempo para dar suporte a quem precisa.

Na última quarta-feira, entrou em contato com a mãe da menina Ana Julia Sabino, de 9 anos, cuja foto segurando um papelão com a frase “troco uma máscara por um alimento” comoveu e viralizou. Huck se comprometeu a ajudar a família, que vendia doces em um sinal no Recreio. Mas pediu, como contrapartida, que as crianças não voltassem a trabalhar na rua.

— Desde o começo da pandemia entendi que o meu melhor papel era ficar ancorado na boa informação e na solidariedade e não entrar nos debates e discussões políticas neste momento; somar forças para combater o que temos de mais grave, que é uma crise sanitária.

Huck está envolvido no União Rio, movimento da sociedade civil que vem arrecadando doações para minimizar os impactos do coronavírus no estado. O foco são profissionais que estão linha de frente da luta contra a Covid-19 e pessoas em situação de vulnerabilidade social. Até agora, foram arrecadados mais de R$ 40 milhões, destinados, entre outras ações, à compra e doação de 1,4 toneladas de alimentos para famílias de comunidades e à reativação de 60 leitos de UTI no Hospital do Fundão.

Está à frente ainda do Exemplo Arrasta, um fundo solidário que atua junto a pequenos empreendedores sociais dentro das favelas e na causa indígena. E faz parte do Estímulo 2020, um grupo de quase 30 empresários que já se comprometeu a doar R$ 20 milhões para emprestar dinheiro a micro e pequenos empresários a juros quase zero (4% ao ano), carência de três meses e prazo de até 18 meses para pagar.

— Também estou envolvido no Zap do Bem, ferramenta que um grupo de empresários criou para transferência de recursos para a população de baixa renda via chip de celular. Como experiência piloto, transferimos R$ 200 para duas mil famílias em Vergel do Lago (bairro pobre de Maceió) — conta Huck sobre a carteira digital, cuja verba pode ser usada para pagar boletos, recarregar celular ou ser sacada em caixas eletrônicos, mediante a solicitação de um cartão de débito.

Sempre citado como possível candidato à Presidência da República, o apresentador é cuidadoso ao avaliar o posicionamento do governo federal diante da pandemia. Mas diz que, para ele, “há uma disfuncionalidade entre governo, estados e municípios”.

— O que não contribui em nada. Eu gostaria que o Brasil estivesse lidando com essa crise sanitária da maneira mais coordenada possível, que as três instâncias de poder estivessem caminhando do mesmo lado, o que não está acontecendo — lamenta.

Huck vem compartilhando em sua página no Facebook notícias sobre conquistas de outros países no combate à Covid-19. Como o Paraguai, onde já não há pacientes na UTI por coronavírus, pouco mais de um mês depois da confirmação do primeiro caso. E a Nova Zelândia, onde, segundo a primeira ministra, Jacinda Ardern, já não há registros de contágios locais. Ele diz que mais importante do que saber quando o Brasil vai chegar a esse estágio, é saber como:

— O “quando” é a ciência que vai dizer. O “como” é o que temos que estar pensando. Dependemos de coordenação e planejamento. É o que gostaríamos de ter.

E ele, tão sintonizado em boas notícias, recebeu uma ótima recentemente:

— Meu pai (o jurista Hermes Marcelo Huck, de 80 anos) teve coronavírus, o que me deixou muito apreensivo, mas já está bem, graças a Deus.

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