Elenco da tragédia da covid espanta com suspeitas e amadorismo

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Luiz Paulo Dominguetti, the representative of Davati Medical Supply, attends a meeting of the Parliamentary Inquiry Committee (CPI) to investigate government actions and management during the coronavirus disease (COVID-19) pandemic, at the Federal Senate in Brasilia, Brazil July 1, 2021. REUTERS/Adriano Machado
Luiz Paulo Dominguetti, cabo da PM e vendedor de vacinas nas horas vagas . Foto: Adriano Machado/Reuters

O roteiro da história recente do Brasil parece filme dos Trapalhões com pitadas de terror B. O elenco tem até agora:

Um publicitário, chefe da Secretaria de Comunicação do governo, que negociou a compra da vacina americana e deixou o posto chamando de incompetentes os colegas que levaram meses para responder à proposta;

Um marqueteiro responsável por mudar o mindset do Ministério da Saúde que acusa o ex-chefe da Secom de proibir o ministro de dar entrevista para a TV inimiga do presidente;

Um general que assumiu a bomba da Saúde porque o chefe discordava das orientações médicas dos antecessores médicos;

O fundador de uma escola de inglês de poucas palavras que dizia, numa espécie de aconselhamento paralelo, como o governo deveria agir na maior crise sanitária de sua história;

Um vereador do Rio suspeito de participar das reuniões do conselho paralelo. Em Brasília;

Um youtuber dublê de empresário eleito deputado deputado fazendo campanha em Miami e processado por inúmeros ex-sócios e investigado por supostos golpes em ofertas de cursos online que acusa o presidente de acobertar um esquema de corrupção na Saúde;

Um cabo da PM em Alfenas que se apresentava como vendedor e representante da empresa responsável por oferecer 400 milhões de doses de vacina ao governo suspeito de cobrar US$ 1 de propina por cada dose vendida.

Último personagem a integrar o grande elenco desse tragédia anunciada, o cabo Dominguetti Pereira, em seu depoimento à CPI da Pandemia, reafirmou que recebeu pedido de propina do ex-diretor de logística do Ministério da Saúde e tentou complicar a vida do deputado Luis Miranda (DEM-DF), o ex-empresário youtuber que agora acusa o presidente de acobertar um suposto esquema de corrupção.

Ele mostrou aos senadores, entre eles dois ex-delegados da Polícia Civil, um áudio do parlamentar explicando como funcionariam os atalhos e luvas para a venda ao cliente, embora não esteja claro, na mensagem, o que quem era o cliente e o que ele estava oferecendo. O PM teve o celular apreendido e levado para perícia pela Polícia do Senado.

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Nas redes, muita gente atenta à TV Senado compartilhava a dificuldade de entender o que estava acontecendo.

Fazia sentido pensar que o novo personagem fora “plantado” na CPI para desacreditar o deputado acusador? Se assim fosse, por que ele faria isso colocando no ventilador a suspeita de que recebera pedido de propina ao negociar com o governo?

Chega a ser irônico que a tese de testemunha “plantada” seja levantada assim em público pelos próprios integrantes da comissão. Poucos duvidam de que o governo fosse capaz de algo do tipo, e isso é só um dos muitos sinais de deterioração institucional promovida pela turma de incompetentes —palavra de seu ex-chefe da Secom —que embarcou em Brasília prometendo soluções fáceis para problemas complexos. 

Vai ver é por isso que, com 15 meses de pandemia, não haja um infectologista para ajudar o governo a lidar com uma doença...infecto-contagiosa. Mas gente sem a qualificação para o posto abundam. Não tinha a menor chance de dar certo.

Aparentemente, duas alas do Ministério da Saúde, ambas aninhadas no bolsonarismo, estão se digladiando em público numa troca de tiros que ninguém sabe aonde vai dar nem por que começou. A cada bala uma nova caixa de pandora é alvejada. Cada uma tem sua história para contar.

Entender como um cabo da polícia, no intervalo entre um plantão e outro, conseguiu chegar ao coração do Planalto para negociar milhões de vacinas em meio à maior crise sanitária da história é entender como chegamos, todos, até aqui.

Já são 520 mil mortos.

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