Depois de cinco anos, ConeCrew volta ao estúdio e prepara novo álbum: 'Quebramos a barreira do underground'

A ConeCrewDiretoria está de volta. Depois de cinco anos de hiato, longe de estúdios mas não dos palcos, o grupo de rap — formado pelo produtor e beatmaker Papatinho e os MCs Ari, Batoré, Maomé, Rany Money e Cert — anuncia o lançamento de dois singles, “Bug do milênio” e “Hino”. As músicas, garantem eles, são as primeiras de um álbum a caminho.

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—Com esses lançamentos, queremos mostrar o que a ConeCrew sempre foi e o que pode ser. “Bug do milênio” é um tipo de som que já tem uma sonoridade nossa, a galera conhece. Mas “Hino” tem uma levada um pouco mais moderna — explica Papatinho.

Uma das bandas mais populares das primeiras décadas dos anos 2000, a ConeCrew rodou o Brasil fazendo shows, marcou uma geração de fãs que andava por aí com bonés e camisas do grupo, e foi fundamental para influenciar os artistas da nova geração do gênero. Em entrevistas, é constantemente citada como referência pelos mais novos.

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Raízes

Quando, em fevereiro do ano passado, a ConeCrewDiretoria se apresentou no Rep Festival, os fãs se entusiasmaram com um retorno. Meses depois, em setembro, ocuparam o Palco Supernova, do Rock in Rio, e ali ficou clara a volta do grupo.

— A gente demorava a lançar música quando estava na ativa, e os fãs aguardavam ansiosos. É impressionante ver que, depois de anos, eles ainda estão esperando — avalia Papatinho.

Maomé completa:

— O fato de a gente se resguardar valoriza a nossa volta não só comercialmente, mas também internamente, para resgatar nossas raízes. A gente é muito mais sério individual do que quando tá junto... As piadas começam a sair, sem querer.

De fato, o clima de brincadeira era constante durante a entrevista ao GLOBO, num estúdio na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio.

— A gente se conhece há mais de 20 anos — justifica Maomé.

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Foi na pista de skate do condomínio Novo Leblon, na Barra da Tijuca, que eles foram apresentados, e as noites na Batalha do Conhecimento os uniu em torno do rap.

Sem investimento externo ou gravadora, o sexteto apareceu entre a turma dos artistas independentes e acabou criando seu público na internet.

— Quebramos a barreira e virou um mainstream mesmo com a estrutura e a música underground — diz Papatinho.

Desde as primeiras aparições, a banda foi comparada ao Planet Hemp, principalmente pelas letras falarem sobre maconha. O grupo, porém, não fazia militância pró-legalização. A maconha está ali assim como outros elementos (festas, mulheres) do cotidiano dos integrantes. Mas isso não impediu que a polícia interrompesse várias apresentações da ConeCrew. Numa dessas vezes, Cert (que não participou desta entrevista) acabou detido por apologia a drogas.

—Há 15 anos, a Cone cantava sobre maconha e horrorizava algumas pessoas, e hoje falar que fuma um baseado não espanta ninguém. Não sei se evoluímos como sociedade ou se tacamos um dane-se. Mas a gente não fala para banalizar, era o rolé que a gente vivia, que vive — explica Maomé.

Cada um com sua personalidade, e todos confiantes no trabalho que fizeram até aqui, a nova fase da ConeCrew promete mesclar o que já é conhecido do público com influências de novas vertentes do rap, como o trap. Além disso, eles contam que pretendem fazer parcerias com artistas da nova geração para, de certa forma, apadrinhá-los — assim como os precursores Marcelo D2, Gabriel, o Pensador e Mr. Catra fizeram com eles.

— Hoje em dia tudo é muito descartável, né? Viemos de uma geração que parava para escutar os álbuns das bandas, ver os encartes... Hoje é muita coisa saindo o tempo todo. Nossa ideia então é focar nas músicas boas porque elas são eternas — opina Ari.

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Imprimir uma personalidade própria e não se entregar ao mainstream são uma preocupação da banda, que deixa isso explícito na letra de “Hino”. “Mais uma que vai virar hino porque o que eu faço é genuíno”, cantam.

— Quando você tenta fazer algo que já está tocando por aí, faz mais do mesmo papo. Não tem identidade, vira blá-blá-blá, com as mesmas gírias, mesmo “Lacoste” ou mesmo “glock” — conclui Maomé.