Depois de colocar robôs para ensino, Laureate demite 120 professores

ISABELA PALHARES

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Após passar a utilizar um software de inteligência artificial para a correção de atividades dos alunos, a rede educacional Laureate demitiu nesta quarta-feira (13) cerca de 120 professores dos cursos de graduação na modalidade de educação a distância.

Um dos maiores grupos educacionais com atuação no ensino superior do país, a Laureate tem mais de 200 mil alunos em 11 instituições, entre elas FMU, Fiam-Faam e Anhembi Morumbi. Em seu site, a rede diz ter a "visão de tornar a educação de qualidade mais acessível".

Nos últimos anos, o principal investimento da rede para ampliar o número de estudantes tem sido a expansão de cursos EAD , que têm mensalidades mais baratas que os cursos presenciais, com um valor médio de R$ 150.

Os professores foram informados nesta quarta sobre as demissões, com a justificativa de que o grupo está reestruturando o formato dos cursos a distância.

"Fui acessar o sistema pela manhã para começar a atender os alunos, mas minha senha estava bloqueada. Enquanto tentava resolver, entraram em contato e me avisaram da demissão", contou uma professora, que pediu para não ser identificada.

Segundo a docente, eles foram comunicados de que não haverá mais o cargo de professor para cursos a distância. Para essas graduações serão contratados tutores, ou será aproveitado o quadro dos cursos presenciais.

Celso Napolitano, presidente da Fepesp (Federação dos Professores do Estado de São Paulo), disse que a rede também informou ao sindicato que as demissões fazem parte de um plano de reorganização da modalidade a distância.

"Como eles já estão usando esses robôs para a correção, eles precisam de menos profissionais. Podem usar os professores dos cursos presenciais para isso, já que as novas regras do Ministério da Educação permitem essa simbiose".

Uma portaria publicada pelo MEC, em dezembro do ano passado, permitiu às instituições de ensino ofertar até 40% da carga horária de cursos presenciais na modalidade a distância --antes o limite era de 20%. "Com essa mudança, é difícil distinguir o que é EAD, semipresencial ou presencial", disse Napolitano.

Em nota, a Laureate informou que está "fazendo um movimento importante para unificar a área acadêmica de educação a distância com a área presencial de suas instituições, desfazendo, assim, a separação que havia".

Informou que os cursos EAD passarão a ter a atuação dos professores presenciais para "aproximar ainda mais o presencial do virtual". Segundo a rede, os docentes foram demitidos por só atuarem em disciplinas online. "O que não impactará de maneira alguma a qualidade acadêmica oferecida", diz a nota.

A rede informou ainda que cumprirá todos os compromissos legais e estabelecidos em convenção coletiva de trabalho com os profissionais demitidos. Questionada sobre novos cortes de professores, a Laureate respondeu que "não há como precisar se existirá a necessidade de fazer outras movimentações no futuro".

Os professores demitidos disseram que, além de a rede os ter substituído pelo software, também deu início à contratação de tutores para tirar dúvidas dos alunos. Eles contaram que um docente do grupo recebe, em média, R$ 5.000. Os tutores estão sendo contratados com salários de R$ 1.200.

"Nós já tínhamos pouca autonomia, já que não produzimos as aulas e os conteúdos ministrados. Depois tiraram de nós as correções das atividades, e ficamos apenas para tirar dúvidas dos alunos. Agora seremos substituídos por tutores", contou um professor que dava aula em 52 disciplinas na área de direito para mais de 4.000 estudantes.

Sobre a substituição dos docentes por robôs para a correção das atividades acadêmica, a Laureate disse que a medida foi adotada para "oferecer aos professores a oportunidade de dedicar mais tempo na relação direta com seus alunos, liberando agenda e energia para gerar mais proximidade com as suas turmas".

A rede concluiu dizendo que o "objetivo é sempre humanizar ainda mais a relação de ensino e aprendizagem.