Depois de convencer a família a se mudar para o Rio, cearense conquista título de campeã brasileira de surfe

O Globo
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RIO — Algumas pessoas avançam pela vida adulta sem descobrir sua vocação profissional. Com a surfista Yanca Costa, cujo nome os pais viram numa novela, foi diferente. A cearense começou a competir aos 9 anos, mas sua primeira memória relacionada ao surfe data de cinco anos antes, na praia Icaraí, no município de Caucaia, em seu estado natal. O pai, Arquimedes Neto, surfava por diversão, e ela começou a pedir que ele a colocasse sobre a prancha.

Desde então, a paixão pelo esporte cresceu e a levou a enfrentar diversos desafios. Um deles foi a vinda para o Rio de Janeiro, em 2016, em busca de oportunidades para despontar na modalidade. Hoje com 21 anos e moradora do Recreio dos Bandeirantes, ela vem conquistando pouco a pouco seu espaço. Em dezembro, sagrou-se campeã nacional ao conquistar o título do Circuito Brasileiro de Surfe Profissional.

— Já tinha batido na trave três vezes, mas, quando começou 2020, eu falei: “Agora vai, vou ser campeã”. Dei uma desanimada com a pandemia, mas meu treinador me incentivou. Consegui me preparar, obtive ótimos resultados e, no final, conquistei o título — vibra a atleta.

Antes de se mudar definitivamente para o Rio, Yanca já havia visitado a cidade e se encantado com ela. Em 2014, pediu ao pai para vir para cá, sem sucesso. Só dois anos depois, quando já era tricampeã cearense, conseguiu convencê-lo a largar a vida em Caucaia e acompanhá-la rumo ao seu sonho de construir uma carreira como surfista aqui. Os poucos contatos que tinha na cidade ajudaram-na a dar os primeiros passos:

— A primeira pessoa que se aproximou da gente e nos mostrou o Rio de Janeiro foi o Benjamin Athayde, do projeto social Viva Surf, que dá auxílio, incluindo treinos, orientações e ajuda de custo, a atletas que vêm do Nordeste. Ele foi meu primeiro treinador no Rio.

Com Yanca e o pai, vieram seus irmãos Laiz e Cauã, ambos também atletas, ainda amadores, de surfe. A maior angústia ao deixar o Ceará, conta Yanca, foi deixar para trás parte da família — incluindo a mãe, que veio depois, o avô e uma tia, com quem foi criada — e amigos de infância, que ela visita esporadicamente para matar a saudade.

— Viemos sem conhecer nada. Quando chegamos, fiquei uns três meses chorando porque não tinha minha mãe aqui, não estava muito confiante. Eu era um bicho do mato, tinha dificuldade para me comunciar, foi difícil fazer amizade. Depois que minha mãe chegou e eu comecei a conhecer pessoas, as coisas ficaram mais fáceis. No início, alugamos um quarto no Recreio, que pagávamos com o dinheiro de um patrocínio que eu havia conseguido no Ceará, mas perdi após um ano. Meses depois, meu pai começou a dar aula de surfe, minha mãe arranjou um emprego e nos mudamos para uma casa — relata.

A rotina em terras cariocas é intensa. Ela costuma sair para surfar duas vezes ao dia, cerca de quatro horas em uma sessão e duas horas em outra. Entre um treino e outro, faz musculação. Terças e quintas são dias de ioga. Uma vez por semana, ela tem fisioterapia e sessão on-line com uma psicóloga:

— Nas horas vagas, gosto de assistir a séries e filmes, principalmente para aprimorar meu inglês. E, como viajo muito, gosto de encontrar os amigos quando estou no Rio.

Apesar da dedicação e das conquistas, Yanca está sem patrocínio e ainda não consegue se manter com o surfe. O que ganha nas competições, explica, serve para ajudar em casa e bancar custos como passagem, inscrição, alimentação, hospedagem e transporte para outros compeonatos. A alternativa tem sido completar a renda com trabalhos de modelo para marcas de biquínis e protetores solares. Seu principal objetivo atualmente é participar de competições internacionais:

— Meu maior sonho profissional é entrar na World Surf League Championship Tour, que é tipo a série A do futebol. Os mais tops do surfe mundial estão nessa competição. Chegando lá, vou poder ajudar melhor minha família — sonha Yanca.

Planos para garantir a aposentadoria

A atleta conta que, quando terminou o ensino médio, disse para a mãe que tiraria um ano para se dedicar apenas ao surfe e, depois, começaria a fazer uma faculdade, já que existia, e ainda existe, essa pressão por parte da família. Três anos já se passaram desde então, e ela ainda não voltou a estudar. Yanca admite, no entanto, que precisa de uma alternativa, já que o esporte não é para a vida toda, e tem seus projetos.

— Existem corpos e corpos. O Kelly Slater, por exemplo, tem 48 anos, é o mais velho do surfe mundial e ainda está muito competitivo, mas é advogado, tem um segundo plano. Um dos meus projetos é criar uma marca de biquínis — revela.

Outros planos são cumprir a promessa feita à família e dar seguimento a um campeonato on-line de surfe feminino que ela e uma sócia realizaram no começo da quarentena. Surfistas do Brasil inteiro mandaram imagens para a conta do instagram @shakagirlsbr, com mais de 4.700 seguidores, que foram postadas nos stories da rede social e submetidas a votação popular.

— Nas fases finais, conseguimos jurados do mundo inteiro para participar conosco. No começo não haveria premiação, mas depois o campeonato tomou uma proporção muito grande e começamos a receber doações de coisas essenciais para o surfe, como pranchas, parafina e biquínis, para premiar a galera. A competição superbombou, muita gente compartilhou — conta. — Minha faculdade vai ser algo para agregar a esse plano B, como Administração ou Marketing.

Para se tornar uma profissional cada vez mais competitiva, Yanca revela que tem duas grandes inspirações: a longboarder Chloé Calmon, com quem costuma pegar onda como lazer, e a surfista Coco Ho:

— A Coco Ho, uma havaiana que participava da Championship Tour, é uma das mais tops do surfe mundial. E a Chloé é uma referência de longboard, foi campeã brasileira em 2020, está sempre nas cabeças. É muito bom tê-la por perto, dividindo sua experiência comigo.

As ondas preferidas de Yanca são as do Recreio, porque quebram para a direita, explica, mas a atleta não surfa todos os dias no mesmo lugar. Também frequenta Prainha, Grumari, Reserva e a Praia da Barra.

Além dos desafios impostos naturalmente pelo esporte, Yanca conta que, vez por outra, ainda enfrenta preconceito pelo simples fato de ser uma mulher praticante de surfe:

— Teve um dia em que todo mundo já tinha surfado e a próxima onda era a minha. Eu estava remando, a onda era muito boa, mas um cara passou na minha frente e disse que achou que eu não fosse, duvidando da minha capacidade. Tem coisas que parecem banais, mas incomodam. Eu fico meio triste, mas, quando algum cara vem de piada, não dou moral. Tento não levar para o coração.

Diante do cenário complicado para as mulheres surfistas, sobretudo as negras, a ex-surfista profissional e jornalista esportiva Érica Prado criou, no ano passado, o perfil no Instagram @surfistasnegras, hoje com mais de sete mil seguidores. A ideia e dar visibilidade a atletas como Yanca e, quem sabe, atrair pessoas interessadas em investir nelas.

— Esse perfil é superimportante para mostrar todas as surfistas negras que o Brasil tem. A Érica nos ajuda bastante na divulgação, mas é bem difícil conseguir investimento.

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