Depois da Covid-19: relatos de quem se curou da doença

Karina Maia
1 / 5

Jamille Neves Bernardo de Souza 1.jpeg

A obstetra Jamille Neves Bernardo de Souza se recuperou da Covid-19

RIO — De repente, um novo coronavírus mudou a rotina do planeta. A pandemia de Covid-19 tem forçado a população brasileira a alterar sua rotina para manter a saúde. Mas há quem tenha sido infectado pela doença antes do isolamento dos que podem ficar em casa, ou simplesmente não tenha podido aderir à quarentena.

O GLOBO-Barra colheu depoimentos de profissionais de diferentes áreas, moradores da Barra — bairro com o maior número de casos da doença na cidade até a última quinta-feira, data de edição desta reportagem — e do Recreio, que tiveram Covid-19 e estão curados.

Os depoimentos de Vitor Queiroz, de 47 anos, baixista do grupo LS Jack, e da jornalista Monique Arruda, de 34, ambos moradores da Barra, e do anestesista Adriano Câmara Gomes, de 37, e da médica Jamille Neves Bernardo de Souza, de 32, residentes do Recreio, têm vários pontos em comum. A começar pelo medo, causado pela imprevisibilidade do desfecho para a situação e pela preocupação de contaminar a família. Felizmente, todos se sentem plenamente recuperados. Confira os relatos a seguir.

‘Só depois de uma tragédia próxima alguns levarão a sério’

Jamille Neves Bernardo de Souza, obstetra, 32 anos:

"Tive uma amiga de plantão que pegou Covid-19. Então, acho que eu e o meu marido pegamos assim. Na primeira semana, foi tranquilo, não sentimos nada. Mas uma outra colega de plantão se sentiu mal, fez o teste e deu positivo. Como tive contato com as duas, fiquei tensa. Comecei a sentir calafrios, anosmia e diarreia. Fui para a emergência e fiz o teste, que veio positivo. Tive que cancelar tudo e fazer quarentena. Fiquei em casa, sem sair para nada. Os vizinhos foram muito legais. Eles traziam comida para a gente. Eu passava o cartão por baixo da porta e eles compravam o que precisássemos e deixavam em frente à nossa casa. Então, em resumo, foi mais ou menos uma semana para a doença se manifestar, quando sentimos muito cansaço e fadiga, e mais uma semana para nos curarmos.

Foi muito complicado. Fiquei preocupada de passar a doença para as pessoas, principalmente para as minhas gestantes. Fora o estresse de resolver de casa todos os problemas de pacientes e o medo de algum outro sintoma mais grave evoluir.

Acho que a informação jogada sobre a doença, não aprofundada, causa muita especulação. Eu mesma vi o comportamento da minha família mudar. Depois que eu peguei a doença, eles passaram a se preocupar e perceberam que a coisa realmente existe. Perdemos um amigo anestesista de Covid-19. Infelizmente, só quando acontecer uma tragédia próxima algumas pessoas vão reconhecer que a doença precisa ser levada a sério."

‘As pessoas precisam ficar atentas ao lado psicológico’

Vitor queiroz, músico, 47 anos:

"Acredito que contraí o vírus em uma viagem aos Estados Unidos. Voltei de lá no dia 16 de março e tive que cumprir a quarentena para quem estava no exterior. No 13º dia, comecei a apresentar os sintomas: gripe, moleza no corpo, vontade de passar o dia deitado. Também perdi olfato e paladar, mas não tive problema algum com o aparelho respiratório, nem senti dor de garganta.

Minha manifestação foi branda, então, o aconselhamento era para que eu me cuidasse em casa. Três dias depois dos meus sintomas se manifestarem, minha mulher e meu filho começaram a sentir as mesmas coisas, também de forma branda. Meu filho tem 16 anos. Teve um dia de moleza no corpo, mas, no outro dia, já começou a se recuperar.

Tentei me alimentar bem e tomar muito líquido, embora tenha sido difícil, porque perdi o apetite. E repousei bastante. Nós aceitamos a situação, porque não tinha mais o que fazer. O que poderia acontecer de mais grave, que é a falta de ar e uma internação, passou longe da gente.

Quando percebi que estava com Covid-19, olhava para os lados e via poucos casos. Entre amigos e pessoas conhecidas, eu quase não tinha notícias de alguém contaminado. Fui relativamente o primeiro dentro do meu ciclo social. Aqui no Brasil, ainda não havia o impacto dos casos de óbito. Procuramos manter a calma. É muito importante que a parte mental esteja equilibrada. As pessoas também precisam ficar atentas ao lado psicológico da doença."

‘É por pessoas assim que o contágio fica pandêmico’

Monique Arruda, jornalista, 34 anos:

"No fim de semana antes dos primeiros sintomas, antes da quarentena, fui a mercado, restaurante japonês, piscina do prédio, salão... Havia semanas que não ia a lugares cheios nem saía da Barra, então me infectei por aqui mesmo. Começou na noite de 20 de março. Uma dor de cabeça horrível, como nunca senti na vida, febre baixa, que demorou sete horas para ir embora, e um cansaço muito forte.

Só que isso tudo passou em uma madrugada e não voltou mais. Ficou a falta de olfato, que perdi completamente por 12 dias. Cheirava acetona, álcool, e não sentia nada. Não tinha nariz entupido, coriza. Era como se não tivesse nariz.

Dia 23 de março, fiz o teste e deu positivo. Meu mundo caiu. Fiquei desesperada, com medo. Medo de ter falta de ar e morrer. Medo de ter contaminado minha mãe, que é do grupo de risco, e o meu filho, de quase 3 anos.

Meu filho passou muito mal também. Logo nos meus primeiros dias de sintoma, Gabriel teve crises horrorosas de falta de ar. Quase precisou, por duas vezes, ir para a emergência. Graças a Deus, a médica dele fez uma consulta on-line e conseguimos controlar a situação em casa. O teste deu negativo. Não sei se ele realmente não teve Covid-19 ou se fiz o exame muitos dias depois dos sintomas, e o vírus já tinha ido embora.

Mas foi um pesadelo. Eu isolada no quarto e meu filho com suspeita da doença e muita falta de ar. Ele mama no peito até hoje. O médico me liberou para amamentá-lo de máscara e com as mãos lavadas. Então, eu saía do quarto três vezes por dia e ia até a sala dar de mamar. Sempre fomos muito grudados e sentimos muita falta um do outro durante o isolamento.

Para mim, o psicológico foi pior do que os sintomas de saúde. Tiro desse aprendizado a importância de ficar em casa, principalmente para pessoas como eu, que têm sintomas leves, porque isso não as torna menos infectantes. É por pessoas assim que o contágio se torna pandêmico. Os maiores infectantes são os pacientes com quadro leve e os assintomáticos. Uma mensagem boa de passar é 'fique em casa, mas não se apavore'. Às vezes, o psicológico atrapalha mais.

Sempre me alimentei bem, fiz esportes, nunca bebi e nunca fumei. Não sei se foi por isso que meu corpo respondeu bem ao vírus. Logo ganhei imunidade e segui só com a falta de olfato. Sou muito grata a Deus por ter passado por esse pesadelo de uma forma 'tranquila'.

Fiquei isolada no quarto da minha mãe, trabalhei de casa todos os dias. Rezei o terço todos os dias também e, nos momentos de aperto e medo, ouvia músicas de Nossa Senhora, que me acalmam!"

‘Meu teste deu positivo no dia seguinte à morte do meu pai’

Adriano Câmara Gomes, anestesista, 37 anos:

Recebi o meu teste no dia seguinte à morte do meu pai por Covid-19. Apesar do resultado, não tive nenhum sintoma. Sou anestesista e trabalho em hospital, só por isso fiz o teste. Como fui assintomático, acredito que muitas pessoas podem acabar contagiando outras sem ter ideia de que estão doentes.

O meu pai tomou a vacina da gripe numa segunda-feira. Na quarta-feira, ele já começou a passar mal, com febre e dor no corpo. Mas, resistente, foi arrastando a situação até a sexta-feira da semana seguinte, quando resolveu procurar ajuda médica. Passou o sábado internado e faleceu no domingo.

Minha mulher e meus dois filhos não pegaram. Precisei me isolar para protegê-los. Passei a quarentena na casa de uma amiga, que também estava com Covid-19. Foram 15 dias lá.

Acredito nas autoridades. O que eles falam, eu respeito. Por isso, estava tomando todas as precauções de higiene. Lavava as mãos e passava álcool em gel toda hora. Minha mãe até achou que eu estava exagerando. Sou Bolsonaro, mas não sou extremista. Acho que temos que respeitar a quarentena porque só assim podemos evitar a propagação do vírus. As pessoas não estão levando isso a sério. Há pouco, fui ao mercado, em Campo Grande, e ninguém estava usando máscaras.

Sei que o comércio precisa reabrir em algum momento, mas precisamos pensar isso com responsabilidade. Todos precisam trabalhar, mas o isolamento de quem pode ficar em casa é algo fundamental neste momento. Estamos lidando com algo que não tem tratamento e não conhecemos bem ainda."

'Os hospitais estão lotados. Não existe nenhuma conspiração'

Georgia Ramos, médica, 30 anos:

"Comecei a apresentar sintoma em 20 de março, com diarreia. Depois de três dias, comecei a sentir dor no corpo e coriza nasal. Fui fazer o teste deu postivo. Meu marido e meus dois filhos também tiveram os mesmos sintomas, que só passaram após uma semana.

Ficamos 14 dias sem ter contato nenhum com ninguém. Pedia compras por aplicativos. Os entregadores deixavam as encomendas na nossa porta e só abríamos depois que eles iam embora. A recomendação foi ficar esse tempo isolado, até recebermos alta

Tem muita gente que não tem noção do que está acontecendo. Como estamos trabalhando em hospital, vemos que as unidades estão lotadas e que não se trata de nenhuma conspiração: o coronavírus existe, sim. As pessoas que acreditam nessas coisas ainda não viram ninguém próximo morrer. Eu, sinceramente, estou assustada com o que ainda está por vir."

SIGA O GLOBO-BAIRROS NO TWITTER (OGlobo_Bairros)

Nosso objetivo é criar um local seguro e atraente para os usuários se conectarem a interesses e paixões. Para melhorar a experiência de nossa comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários dos artigos.