Depois de deixar a Salinas, grife que fundou em 1982, Jacqueline de Biase pilota uma ‘boutique house’, no Joá

Gilberto Junior
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Às gargalhadas, Jacqueline De Biase conta que os amigos costumavam perguntar se ela iria produzir um Casa Cor toda vez que viajava para algum lugar. “Enchia o carro com tudo que você possa imaginar para fazer minha própria decoração do espaço. Era um prazer fazer isso. Gostava de estar confortável para que a experiência fosse a melhor possível”, diz a carioca, de 58 anos. “Era um desejo antigo ter um hotel para chamar de meu. Ficava sonhando com os travesseiros de plumas e as poltronas, com a qualidade do serviço... Afinal, se a pessoa deixou o aconchego do seu lar, precisa estar melhor do que estava.”

Essa vontade ficou guardada no inconsciente de Jacqueline por mais de uma década, até a vida a empurrar para essa direção. Cofundadora da Salinas, ela se despediu da marca de beachwear em meados de 2019 e começou a planejar os próximos passos. “Em 2012, vendi a grife para um conglomerado, mas continuei ocupando o posto de diretora-criativa. Ao deixar a cadeira, fiquei cogitando o que fazer, inclusive com minha casa. Meus filhos, Mariana e Fabio, se casaram e foram morar em São Paulo; e, de repente, meu marido (o arquiteto Tunico De Biase) e eu percebemos que estávamos sozinhos num terreno de 2000m², com 600m² de área construída, no Joá. Resgatei, então, aquela ideia velha de ter um local em que eu pudesse receber hóspedes, mas que não fosse necessariamente um hotel. Daí, veio o conceito de boutique house.”

O primeiro passo foi “remodelar” o espaço, “inaugurado” em fevereiro em clima de soft opening. Foi mais ou menos um ano e meio de obra para modernizar a casa. “Vivemos aqui há mais de duas décadas e Tunico sempre quis fazer uma grande reforma. Ele já tinha cada cantinho projetado em sua cabeça. A intenção era ter o mar ainda mais evidente, revestir os cômodos com materiais contemporâneos e reutilizar a madeira nobre que tínhamos nos pisos. Também construímos um loft para a gente, pensando na privacidade dos hóspedes”, comenta Jacqueline, uma espécie de faz tudo no local. “Quero que se sintam em sua residência aqui no Joie Joá, como batizamos nossa boutique house.”

São apenas três suítes, todas com janelas imensas, vista de perder o fôlego e preços a partir de R$ 6 mil. “O nascer do sol é um deslumbre e a pessoa nem precisa sair da cama para contemplar”, observa a carioca. A roupa de cama e os colchões de polpa de bambu são um capítulo à parte. “Preparamos os ambientes com bastante zelo.” Jacqueline destaca ainda os guardanapos de linho e as louças brancas da Secrets de Famille, em formato de flor.

Idealizado pelos arquitetos Tunico (que acordava no meio da noite para pensar em soluções) e Carina Brandão, o projeto tem na área externa um de seus melhores momentos. O deque de madeira na piscina foi trocado por piso, além do efeito de borda infinita. Esse “pedacinho” da casa é queridinho das marcas de moda. Lenny Niemeyer, Colcci, Frescobol Carioca e Animale já fizeram ações por ali. “Acredito que o sucesso tenha a ver com a fato de ser um lugar neutro. Não há locação como essa.”

A casa, no entanto, nunca serviu de cenário para as campanhas da Salinas. “Não gosto de misturar as coisas”, diz Jacqueline, contando que a saída da marca foi um tiquinho dolorosa. “Foram quase três anos me preparando, e sofri sozinha. A grife já não era aquela que eu havia sonhado, estava seguindo por um outro caminho, perdendo a sua identidade. Foi melhor dizer adeus.”

Adeus e recomeçar.