Depois de salto em 2020, reformas em casa podem ser adiadas

Letycia Cardoso
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RIO - O isolamento social levou muitos brasileiros a perceberem que não estavam satisfeitos com o ambiente doméstico. Ao abandonar a rotina fora de casa, gastos por oportunidade e despesas com restaurantes e transporte foram reduzidos. Por consequência, sobrou verba para fazer aquela reforma que sempre foi adiada, e o varejo pôde comemorar o aumento nas vendas.

Para este ano, no entanto, as estimativas não são tão positivas. O Índice Nacional de Custo da Construção – M (INCC-M), calculado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), acumulou alta de 11,95% nos últimos 12 meses, o que reflete no bolso do consumidor.

— O volume de vendas de materiais de construção chegou a crescer 11%. Mas esse percentual não vai se repetir. O ciclo de uma reforma é mais curto que o de uma edificação, então muitas já estão sendo finalizadas. Com os produtos mais caros e uma insegurança em relação à manutenção do emprego, os consumidores vão ser mais cautelosos e adiar o início de novas obras — avalia a coordenadora de Projetos de Construção do FGV IBRE, Ana Castelo.

Tijolo subiu 94%

Outro fator que pode prejudicar as vendas é o agravamento da pandemia. O economista e superintendente da Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção (Anamaco), Waldir Abreu, diz que a incerteza em relação a prazos de entrega faz com que os consumidores optem por não fazer reformas agora:

— Isso ainda pode levar a outro problema. No Brasil, o consumidor não tem o hábito de pintar casa, mas, sim, de contratar um pintor; ele não faz uma instalação hidráulica, contrata um bombeiro. Uma vez que há incertezas, eu paro a reforma, o comércio não vende, a indústria começa a saturar e esses profissionais autônomos passam a ser menos contratados, perdendo renda alguma.

Nos projetos executados pelo escritório MAIS.ArqUrb, o material é adquirido com antecedência, para evitar atraso no cronograma da obra. A arquiteta Maisa antos comenta que materiais que antes tinham previsão de entrega em 20 dias agora demoram até 60 para chegar:

— A demanda é grande, e o alongamento de prazos para a entrega é significativo.

O engenheiro Vinícius Dias, da Base Construtora, já observou aumento nos preços de produtos essenciais. O metro cúbico da brita, que custava R$ 42 em janeiro de 2020, estava sendo vendido a R$ 65 no mesmo mês deste ano.

Itens como ferro e tijolo também tiveram aumento considerável. O milhar deste último, por exemplo, saltou de R$ 350 para R$ 680 em apenas um ano — reajuste de 94%.

— Tivemos atraso de dois meses nas nossas obras porque, além de o preço estar mais alto, o que nos fez esperar para ver se conseguíamos alguma oferta, a loja não tinha pronta entrega — conta Dias.