Depois do sucesso da parceria entre Caetano e Kleber Lucas, pode o gospel furar a bolha das igrejas? Entenda

Em dezembro, Caetano Veloso surpreendeu muitos com uma parceria com o pastor e cantor Kleber Lucas. Juntos, lançaram o single “Deus cuida de mim”, no qual falam de fé e proteção divina. Este é apenas um dos recentes exemplos em que a música cristã e o mainstream se encontraram e colocaram artistas evangélicos no foco.

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— Com esse intercâmbio, a música gospel é tratada como arte, cultura. Conheci o Caetano e fui descobrindo o quanto a música dele influencia a minha trajetória e como eu gostaria que meu público, o evangélico, ouvisse uma produção gospel pelo olhar de um outro segmento social — diz Kleber Lucas, que participou do Festival do Futuro, em Brasília, no dia da posse do presidente Lula, no domingo passado.

Além do pastor, apresentaram-se os artistas gospel Clóvis Pinho, Leonardo Gonçalves, MN MC e Sarah Renata. Também em dezembro, o programa “Altas horas”, da TV Globo, promoveu um concurso de calouros apenas com cantores do segmento evangélico, o “Altas promessas”.

Vencedor do concurso, Marcelo Gonçalves definiu participar da atração como uma honra e disse acreditar que a música gospel tem potencial para atingir o mainstream de maneira significativa.

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Potencial numérico, tem. De acordo com o último censo do IBGE, de 2000 a 2010, o número de evangélicos no país cresceu 61%. Além disso, existem as celebridades do meio gospel que já ultrapassaram a barreira do nicho, como Aline Barros, Bruna Carla e Priscila Alcântara.

Integrado à cultura do país

De acordo com dados do Spotify, o gospel está entre os 25 gêneros de música mais escutados na plataforma no Brasil em 2022 e entre os 50 gêneros musicais que mais cresceram no país no ano passado. A playlist Sucessos Gospel, por exemplo, tem quase dois milhões de curtidas.

Não é todo mundo, porém, que concorda que o segmento de música cristã saiu da “caixinha”. Para o jornalista e apresentador do podcast Discoteca Básica Ricardo Alexandre, que é evangélico, ainda não há espaço para que a música cristã toque em rádios não religiosas ou apareça em grandes canais de distribuição, salvo em momentos específicos, como no caso do “Altas horas”.

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— Há um fenômeno numérico que não pode mais ser ignorado pelos canais de TV, pelas rádios, pelos jornais. Então, vejo que há movimentos em todos esses setores da sociedade para entender, decodificar e acompanhar esse fenômeno — avalia, completando com a razão pela qual não concorda com a ideia de que o gospel vá ultrapassar o nicho. — A música, na visão do evangelicalismo brasileiro, não foi feita para furar a bolha. Foi feita para reafirmar a identidade do evangélico. O que a gente vê é que a bolha está cada vez maior.

Joêzer Mendonça, professor da PUC-PR e autor do livro “Música e religião na era do pop”, acredita que, com o tempo, o gospel passará a ser cada vez mais integrado à cultura nacional, como acontece nos EUA, e não visto como um segmento separado:

— Há uns anos, o Congresso Nacional reconheceu a música gospel como manifestação cultural passível de concorrer a certos benefícios de políticas públicas de incentivo à cultura. Com isso, teve quem questionasse se a música gospel é de fato música nacional, com suas formas religiosas e derivações de países estrangeiros. Isso aconteceu com o rock quando apareceu aqui, mas nos anos 1980 já não era uma discussão relevante. O mesmo acontece com o gospel nacional.

Ele destaca ainda que o gospel no Brasil tem uma particularidade. Enquanto, nos Estados Unidos, o estilo segue uma sonoridade bem específica, aqui, engloba diversos gêneros, como sertanejo, funk e forró gospel.

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Uma base para carreiras

Ignorar a música cristã seria ignorar a base musical de grande parte dos artistas. É muito comum que, em competições como o “The Voice” ou em entrevistas, os artistas deem depoimentos falando que começaram suas carreiras na igreja. Faz sentido que seja assim; não há culto ou missa sem música. A cantora Manda, de 31 anos, começou a cantar ainda criança na igreja onde seu pai era pastor. Depois de fazer carreira profissional no gênero, que começou em 2013, ela decidiu caminhar para o pop não gospel em 2021. Outro exemplo é Priscila Alcântara, que atingiu o sucesso com a vertente cristã e decidiu mudar de rumo.

— A música é uma parte central do culto. É inevitável que os mais sensíveis se apeguem e queiram experimentar aquilo. Então, é um caminho muito normal — diz Manda, acrescentando que é comum que, em algumas igrejas, sejam oferecidas aulas de vários instrumentos.

O movimento contrário também acontece. Rodolfo Abrantes, ex-vocalista do grupo Raimundos, e Baby do Brasil eram artistas consolidados dentro da música popular quando se converteram e iniciaram a carreira gospel. Baby lançou dois álbuns no segmento — já tem um terceiro gravado, mas diz que está esperando o melhor momento para tornar público seu novo trabalho.

— O mercado gospel é extremamente exigente na escolha dos seus representantes através da música — reflete Baby. — Ele não atua na projeção de pessoas ou artistas que apenas desejem fazer uma carreira. No meu caso, ninguém esperava que uma mulher de cabelos coloridos e roupas extravagantes estivesse alinhada com o propósito de evangelização, mas, aos poucos, as igrejas foram reconhecendo que eu não estava fazendo uma jogada comercial para morder esse mercado.