Deputada apalpada por colega critica silêncio de Doria e de presidente da Assembleia de SP

GÉSSICA BRANDINO
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*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 01.11.2020 - A deputada estadual Isa Penna (PSOL) em evento no Largo da Batata. (Foto: Ian Maenfeld/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 01.11.2020 - A deputada estadual Isa Penna (PSOL) em evento no Largo da Batata. (Foto: Ian Maenfeld/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A deputada estadual Isa Penna (PSOL) criticou na manhã desta sexta-feira (18) o silêncio do governador João Doria (PSDB) e do presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, o também tucano Cauê Macris, sobre a episódio em que foi apalpada pelo deputado no plenário do legislativo paulista.

Um dia antes, ela subiu à tribuna da Assembleia para dizer que foi assediada pelo deputado Fernando Cury (Cidadania) no plenário da Casa. Um vídeo mostra o parlamentar se aproximando da colega por trás e apalpando-a.

"Lamento o silêncio da presidência da mesa legislativa e do governador João Doria. Se eles acreditam de fato na democracia, tinham que no mínimo manifestar solidariedade e se comprometer", afirmou a deputada, em entrevista: "Acho que esse assunto não é digno de figuras tão magnânimas".

Isa também explicou que Macris, como presidente da Assembleia, tem a prerrogativa de transformar o caso num processo de ofício. "Ele ainda não o fez, sequer se pronunciou. Se ele não fizer, o prazo é mais para frente, o que é absurdo", disse.

Ao jornal Folha de S.Paulo, a presidente do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Assembleia Legislativa de São Paulo, deputada Maria Lúcia Amary (PSDB) disse que a previsão, por conta do recesso no legislativo, é que a decisão do colegiado sobre o caso seja tomada em meados de março.

Única mulher no Conselho de Ética, a deputada Amary afirma que trabalhará para que haja isenção no processo e a que a discussão não seja polarizada para "o lado ideológico e sim pela situação em si, pelo caso em si".

Também integram o colegiado os deputados Adalberto Freitas (PSL), Emidio de Souza (PT), Barros Munhoz (PSB), Wellington Moura (Republicanos), Delegado Olim (PP), Carlos Giannazi (PSOL) e Alex Madureira (PSD).

No vídeo, divulgado por assessores e deputados do PSOL, é possível ver que Isa tirou a mão de Cury e se desvencilhou dele. A deputada do PSOL pediu a cassação do mandato de Cury e também apresentou um boletim de ocorrência por importunação sexual.

Sobre o momento do assédio, Isa afirmou que sentiu a mão do deputado e o corpo dele atrás do dela. Na hora, conta, disse que reagiu questionando se o deputado, que segundo ela exalava um cheiro de álcool, havia enlouquecido. A situação ocorreu diante de Macris.

"Ele estava com cheiro de álcool. Não acho que isso tenha sido determinante na conduta do deputado, mas talvez tenha feito o deputado esquecer que ali tinha câmeras. Não sei em que mundo ele pode justificar como um abraço", disse.

Cury pediu a palavra após a exibição da gravação, negou ter cometido assédio e pediu desculpas por ter, segundo ele, abraçado a parlamentar.

Antes do episódio, a psolista relatou que enfrentava comentários sobre seu corpo após o deputado Douglas Garcia (PTB) ter postado um vídeo dela dançando funk. Antes disso, quando atuou na Câmara Municipal, disse que houve um episódio em que uma foto de seu bumbum foi publicada em redes sociais.

A deputada, que é advogada, disse que defende o direito à ampla defesa de Cury e que, apesar de ter sido aconselhada de que seria possível enquadrar o episódio como estupro, disse que decidiu não fazer do que houve uma caça às bruxas.

"Não vou compactuar com nenhuma forma de linchamento, de autoritarismo, mas vou pedir a punição dele, porque é meu dever", afirmou.

Além das manifestações feitas pela parlamentar, o PSOL também disponibilizou um abaixo-assinado pela cassação do mandato do deputado.

No texto, a parlamentar conta enfrentar uma rotina de assédio na Assembleia Legislativo e menciona casos de outras mulheres, como a deputada Talíria Petrone e Marry Ferrer.

Isa também disse que pretende usar o caso como uma ponte para dialogar com homens e com toda a sociedade. "A gente quer apresentar um programa de combate ao assédio com formação de servidores públicos nessa área, para mostrar que a gente está aqui não só para denunciar e que é preciso conviver com as diferenças", disse.