Deputado pede ao STF que vazamento de operação seja investigado no inquérito que apura suposta interferência de Bolsonaro na PF

Marco Grillo

BRASÍLIA – O deputado federal Marcelo Calero (Cidadania-RJ) pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) que o suposto vazamento de uma operação da Polícia Federal (PF) ao senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), em meio ao segundo turno da eleição presidencial de 2018, seja investigado no inquérito que apura a possível interferência do presidente Jair Bolsonaro na PF.

O aviso com antecedência ao senador e o adiamento da Operação Furna da Onça – cujo objetivo seria não prejudicar a campanha de Bolsonaro à Presidência – foram relatados pelo empresário Paulo Marinho, suplente de Flávio e ex-aliado da família, em entrevista ao Jornal “Folha de S. Paulo”. Na petição, protocolada ao ministro Celso de Mello neste domingo, Calero argumenta que há relação entre o que foi narrado pelo empresário – Marinho diz que a confissão foi feita a ele pelo próprio senador – e os fatos investigados pela Corte. O inquérito foi aberto depois que o ex-ministro Sergio Moro deixou o governo alegando que o presidente buscava interferir na Polícia Federal por meio da troca do diretor-geral e dos superintendentes do Rio e Pernambuco.

“Parece-nos haver evidente conexão probatória entre os fatos, a ensejar – ao menos por ora – investigação conjunta de forma a descortinar todo o contexto em que essas acusações são feitas”, diz o documento apresentado por Calero.

O deputado sugere que, além de Marinho, sejam tomados os depoimentos de outras 12 pessoas. Fazem parte da lista o senador; o ex-assessor Fabrício Queiroz, que teve a movimentação financeira revelada pela operação da PF e é suspeito de ter coordenado um esquema de “rachadinha”, a mando de Flávio, no período em que ele foi deputado estadual no Rio; integrantes e ex-integrantes do gabinete de Flávio; advogados que, segundo Marinho, presenciaram a conversa; e delegados da Polícia Federal. Um dos delegados é Alexandre Ramagem, atual diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), e que teve a nomeação para a direção-geral da PF barrada pelo STF. Em função da ligação com a família – foi chefe da segurança de Bolsonaro entre o fim do segundo turno e a posse –, Calero alega que ele é suspeito de ter sido o policial responsável pelo vazamento.

“Há fundada suspeita, portanto, de que Alexandre Ramagem tenha sido o delegado mencionado por Paulo Marinho como o responsável pelo vazamento da operação “Furna da Onça” que envolveria o clã Bolsonaro. A suspeita se dá em razão de Alexandre Ramagem, pouco depois, ter assumido a segurança do então presidente eleito e, em seguida, ter sido indicado para a Agência Brasileira de Informação – ABIN, e ter sido, sucessivamente, o pivô da recente exoneração do diretor da Polícia Federal e, por consequência, do ministro Sérgio Moro, à razão de pretendidas interferências presidenciais na Superintendência da Polícia Federal do Rio de Janeiro”, diz a peça protocolada no Supremo.

O procurador-geral da República, Augusto Aras, já informou que vai analisar o relato de Marinho junto com os procuradores que atuam em matérias criminais.