Deputado que propôs desarmar a polícia em 2011 o fez em forma de protesto e nunca foi do PT

Um vídeo com uma reportagem sobre um deputado que propôs um projeto de lei para que policiais deixem de andar armados foi visualizado mais de 12 mil vezes nas redes sociais em junho de 2022 junto à alegação de que ele seria filiado ao Partido dos Trabalhadores. Isso é falso: o parlamentar em questão é o ex-vice-prefeito de Goiânia Major Araújo, que fez essa proposta legislativa de maneira irônica em 2011. Além disso, ele nunca foi filiado ao PT.

“Deputado do PT sugere que desarmem os policiais para que bandidos não sejam alvejados”, diz o texto sobreposto ao vídeo compartilhado no Twitter, Facebook, TikTok e Kwai.

Captura de tela feita em 13 de junho de 2022 de uma publicação no Twitter ( . / )

O vídeo viralizado, com aproximadamente um minuto e meio de duração, começa com uma repórter informando que um deputado estadual propôs o desarmamento da Polícia Militar. Em seguida, é exibida uma entrevista com o parlamentar em questão - sem nenhuma identificação -, dizendo que é necessário debater a forma como a polícia age com a sociedade.

O vídeo termina com a seguinte frase do entrevistado: “Não podemos desarmar os criminosos, que nós desarmemos os militares”.

No entanto, uma busca no Google pelos termos “deputado + PT + desarmar + policiais” levou a uma versão mais longa do vídeo publicada no Facebook em 6 de julho de 2014, o registro mais antigo encontrado pelo Checamos da matéria na íntegra, com a seguinte legenda:

“A arte da ironia: Deputado Major Araújo cria projeto de lei para DESARMAR A POLÍCIA MILITAR e garantir a integridade física dos bandidos. O projeto de lei nº 787 visa proibir ‘uso de armas letais, de fogo de qualquer calibre, pelos policiais, durante as diversas frentes de serviços realizadas pela Polícia Militar’. Enfim, o desarmamento geral da PMGO. PS: Entendedores entenderão”.

No vídeo com a reportagem completa, exibida pela emissora TV Serra Dourada, afiliada do SBT, pode-se ver o nome e o partido do deputado em questão: "Major Araújo - deputado estadual PRB”. A sigla PRB era o nome usado, até 2019, pelo atual partido Republicanos.

Júnio Alves Araújo, conhecido como Major Araújo, é um militar que concorreu ao cargo de deputado estadual pela primeira vez em 2006. O deputado, que já foi vice-prefeito de Goiânia, nunca foi filiado ao PT em sua carreira legislativa.

Ao longo dos anos, o parlamentar passou pelas siglas PRB, PRP (Partido Republicano Progressista), PSL (Partido Social Liberal) e, em 2022, filiou-se ao PL (Partido Liberal).

Uma pesquisa no Google pelos termos “major Araújo + projeto de lei 787”, filtrando por conteúdos em vídeo, mostrou como resultado uma gravação intitulada: “Major Araújo esclarece aos militares o objetivo do Projeto Desarmamento da polícia Militar de Goiás”. A filmagem também foi publicada pelo próprio deputado no YouTube em 19 de março de 2011.

Nela, um homem questiona o deputado sobre o projeto de lei apresentado: “O projeto já tem um certo tempo, mas saiu na mídia essa semana um projeto que o senhor lançou em relação ao desarmamento da polícia. Já que estão falando que o militar tá matando, então vamos tirar a arma do militar (...) Mas nós sabemos o pensamento do senhor, a maioria entendeu, infelizmente não todos”.

A isso, Araújo responde: “Esse projeto, para quem não entendeu, visou isso: discussão. Nós queríamos fazer audiência pública, nem foi preciso. Esse assunto foi debatido no Brasil (...) Essa era a intenção, é chamar a sociedade para o debate (...) A polícia tem que atirar, os confrontos são uma realidade”.

Em 2019, um conteúdo semelhante ao agora viralizado foi compartilhado pelo vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos - RJ), filho do presidente Jair Bolsonaro (1, 2).

Em resposta à publicação do vereador, o deputado fez uma publicação no Twitter dizendo que era “o maior defensor dos militares em Goiás” e reforçou que nunca foi filiado ao PT. “Não compreenderam nossa ironia, ao defender nossos irmãos de farda!”, acrescentou.

O projeto de lei em questão foi apresentado em março de 2011, após a operação da Polícia Federal “Sexto Mandamento”, que prendeu 19 policiais militares de Goiás acusados de integrar um grupo de extermínio em fevereiro daquele ano.

Uma pesquisa no site da Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) pelo termo “projeto de lei nº 787” trouxe como resultado mais recente uma notícia de 15 de março de 2011 sobre seis deputados terem pedido vista da proposta legislativa e que seu relator era contra seu conteúdo, por considerá-lo inconstitucional.

Na época, o então presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Goiás também se manifestou dizendo que um projeto de lei nesse sentido seria inconstitucional.

Uma notícia publicada pelo gabinete do deputado em 29 julho de 2011 explica que o projeto em questão teve como objetivo provocar uma discussão na sociedade a respeito “dos assuntos envolvendo a segurança pública que estamparam as manchetes dos jornais do Estado no mês de fevereiro”, em referência à operação deflagrada pela Polícia Federal.

“Nossas metas foram alcançadas. Precisávamos movimentar a sociedade para que a mesma se manifestasse. Os militares goianos estavam recebendo acusações e difamações e ninguém respondia. (...) Por isso, jogamos a responsabilidade para a sociedade, que de pronto atendimento ficou do lado dos militares goianos", disse Araújo, segundo o texto, que descreve o projeto de lei como uma “manifestação de protesto”.

Questionada pela AFP, a assessoria de imprensa do parlamentar disse que, na entrevista viralizada, ele estava sendo irônico em relação a desarmar os policiais. A intenção, reforçou, era chamar atenção da mídia para um tema que estava acontecendo na época, que era a operação Sexto Mandamento. “Depois que o Major fez esse projeto, a imprensa goiana parou de falar da Polícia Militar (...). Algumas semanas depois o projeto foi arquivado, pois já tinha atingido seu objetivo”, completou.

A assessoria do parlamentar também negou que Major Araújo tenha apresentado qualquer outra proposta posterior para efetivamente desarmar a polícia, militar ou civil, ressaltando que, em 2015, Araújo foi o autor de um projeto que propunha criar um subsídio para aquisição de armas de fogo de uso permitido.

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