Deputados dos EUA detalham teorias da conspiração de Trump: 'Grande Mentira foi também grande fraude'

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A comissão independente da Câmara dos Estados Unidos que investiga o ataque ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, pôs o impacto da retórica falsa de fraude eleitoral do então presidente Donald Trump sob os holofotes nesta segunda-feira. Na segunda de ao menos seis sessões televisionadas, os parlamentares chamaram atenção para a Grande Mentira: o republicano sabia que suas alegações não tinham qualquer embasamento na verdade, mas mesmo assim continuou a promovê-las na tentativa de subverter a escolha popular.

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Ao contrário da primeira sessão, em que os deputados traçaram um esboço do que estava por vir, a comissão apresentou mais detalhes da investigação de quase um ano, que analisou cerca de 125 mil documentos e entrevistou mais de mil pessoas. Segundo uma das integrantes da comissão, a deputada Zoe Lofgren, democrata da Califórnia, a "Grande Mentira foi também uma grande fraude":

Para ilustrar a narrativa, recorreram a trechos de falas do próprio presidente e a depoimentos gravados de pessoas próximas à Trump, como sua filha, Ivanka, seu genro, Jared Kushner, o ex-conselheiro Jason Miller e o ex-advogado pessoal do então presidente, Rudolph Giuliani. Segundo a comissão, Giuliani era uma das pessoas que pressionavam para que os republicanos declarassem a vitória.

— Trump e seus conselheiros sabiam que as alegações eram falsas, mas continuaram a promovê-las até o momento em que uma turba de apoiadores de Trump atacou o Capitólio — disse ela. — A campanha de Trump usou essas alegações falsas para arrecadar centenas de milhares de dólares de apoiadores a quem foi dito que suas doações seriam para a batalha jurídica, mas a campanha não usou o dinheiro para isso. A Grande Mentira foi também uma grande fraude.

Segundo Miller, que falou em um vídeo gravado, Giuliani estava "definitivamente embriagado" quando os republicanos se reuniram para discutir o que Trump deveria dizer na noite da eleição. Além do ex-prefeito nova-iorquino, de Miller e do ex-presidente, estavam presentes o conselheiro Justin Clark, o chefe de Gabinete, Mark Meadows, e o diretor da campanha republicana, Bill Stepien.

Miller disse ter afirmado a Trump que não deveriam declarar vitória até que o resultado da apuração ficasse mais claro — em vários estados-chave, a disputa estava apertada e era cedo demais para dizer quem sairia na frente. Declaração similar foi feita por Stepien, também em vídeo:

— Houve sugestões, acredito que do prefeito Giuliani, para declarar vitória e dizer que havíamos ganhado de cara — disse ele. — Era cedo demais para fazer algo assim. Os votos ainda estavam sendo contados. Eu lembro de dizer isso (...), mas o presidente discordou. Não lembro das palavras exatas, mas ele disse que eu estava errado e que iriam em uma direção diferente.

Stepien seria a testemunha-chave dos procedimentos desta segunda, mas cancelou faltando uma hora para o início da sessão após sua mulher entrar em trabalho de parto. As mudanças de última hora atrapalharam os planos da comissão investigativa, que adiou o início dos procedimentos em mais de 40 minutos.

Kushner, o genro do presidente, disse em seu depoimento gravado à comissão, que se opunha à estratégia de Giuliani, afirmando ter dito que "basicamente não seria o caminho que eu teria seguido se fosse você". Ivanka, por sua vez, disse que "não tinha uma opinião clara" sobre o que Trump deveria dizer na noite da eleição ou sobre suas chances eleitorais.

'Desligado da realidade'

Já Alex Cannon, o advogado da campanha, disse ter sido acusado por Peter Navarro, um dos conselheiros mais próximos de Trump, de fazer parte do "Estado Profundo" após apresentar a realidade da situação. Se no privado afirmavam questionar a estratégia falsa de fraude, contudo, em público sustentaram a narrativa do presidente ou não fizeram nada para pará-la.

Entre eles está William Barr, ex-secretário de Justiça, que apareceu e vídeo afirmando a retórica falsa do presidente foi uma das razões que o levou a pedir demissão em dezembro de 2020. Segundo ele, Trump estava "desligado da realidade" e prestando um desserviço ao país. Mesmo quando abandonou o cargo, o fez prestando elogios a Trump.

Segundo Barr, o Departamento de Justiça recebeu uma "avalanche" de alegações de fraude nos meses seguintes à eleição — algo que caracterizou como "chover no molhado". Afirmou, no entanto, ter sido um dos que questionou as alegações de que as máquinas de tabulação de votos manufaturadas pela empresa Dominion teriam mudados votos para prejudicar os republicanos.

Segundo Barr, a campanha "perdeu um mês com essas alegações", que caracterizou como "idiotas" e "sem qualquer embasamento na realidade". Após Trump lhe apresentar um documento "que parecia muito amador" como a "prova absoluta de fraude", ele disse:

— Eu pensei: "se ele realmente acredita nessas coisas, perdeu todo o contato... ele está desligado da realidade se realmente acredita nessas coisas" — disse Barr.

As supostas fraudes nas máquinas Dominion apontavam para direções múltiplas que iam da China à Rússia, passando pela Venezuela e pelo bilionário George Soros, filantropo e empresário. Tal qual Giuliani, o advogado da campanha, Eric Herschmann, também disse nunca ter vido quaisquer evidências de quer seriam verdade. A estratégia de Trump e Giuliani, ele disse, era "louca".

Poder limitado

As audiências previstas para este mês são um esforço da comissão bipartidária de nove deputados — sete democratas e dois republicanos — para destrinchar os eventos que culminaram na letal invasão do Capitólio, há 17 meses. Pouco após um inflamado discurso de Trump, a sede do Congresso americano foi invadida por turbas de seus aliados durante a sessão conjunta que sacramentaria a vitória de Joe Biden.

Legalmente, o poder da comissão é limitado: por mais que possa recomendar a abertura de investigações criminais, a decisão final cabe ao Departamento de Justiça. A meta do grupo é fazer uma apresentação coesa que narre para o maior número de americanos o que aconteceu nas semanas antes e depois ao pleito de 2020, pondo Trump no centro da narrativa.

A primeira audiência, transmitida ao vivo em horário nobre, ocorreu na quinta-feira e caracterizou o comportamento do ex-presidente como uma "tentativa de golpe de estado". Recorrendo também a trechos de depoimentos de várias das pessoas mais próximas do então presidente, os parlamentares fizeram uma apresentação do que virá à tona nas próximas audiências.

Haverá mais duas audiências nesta semana, uma na quarta de manhã e outra na quinta durante a tarde. A expectativa é que a última sessão ocorra em horário nobre, no fim do mês.

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