A desafiadora (e sobrecarregada) rotina das mães solo durante o isolamento domiciliar

Raphaela Ramos
De acordo com o IBGE, o país tem mais de 11,5 milhões de famílias formadas por mulheres que moram sem cônjuge e com filhos menores de 14 anos

O dia de Iara Pereira, de 40 anos, inicia às 6 horas da manhã. Ela começa a organizar a casa para as aulas online das suas filhas Giulia e Ana Laura, de 10 e 5 anos. Enquanto a mais velha já consegue se virar sozinha, a mais nova precisa de sua ajuda para acompanhar as atividades. Às 10h, começa seu trabalho — ela é secretária em uma rede de varejo e atualmente está em home office e em regime de redução de 25% da carga horária e remuneração. Às 12h, prepara o almoço ou esquenta a refeição da noite anterior. Ela e as meninas comem, Iara coloca as roupas para bater na máquina, lava a louça e volta ao trabalho.

Iara vive na Parada Inglesa, zona norte de São Paulo, e também é mãe de Giovanna, de 21 anos, que está passando a quarentena na casa da irmã mais velha por parte de pai. A cada 15 dias, o pai das filhas mais novas as busca para passarem o fim de semana juntos. Antes da quarentena, a secretária contava com a colaboração do cunhado durante a semana, que buscava as meninas na escola e as deixava na casa da avó, onde almoçavam e passavam o resto da tarde.

— O maior desafio por ser mãe solo e não poder ter rede de apoio nesse momento é dar conta de tudo: aulas online, refeições, manter casa limpa e bem higienizada por causa do vírus. Precisamos pensar uma série de coisas que não fazíamos antes — afirma.

Essa realidade é parecida com a de outras mães pelo Brasil. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2018 o país tinha mais de 11,5 de milhões famílias formadas por mulheres que moravam sem cônjuge e com filhos menores de 14 anos. Durante o isolamento domiciliar, cuidar de todas as responsabilidades diárias têm sido um desafio ainda maior para elas.

Iara afirma que o período tem a aproximado das filhas, já que agora passam 24 horas por dia juntas. Ela é administradora de um grupo de mães solo no Facebook, que tem mais de 7 mil participantes que compartilham os "desafios e aflições" de sua rotina. No momento, sua rede de apoio tem sido completamente online, por lá e pelo grupo de mães do colégio das crianças, no Whatsapp. Apesar de ser difícil, Iara tenta não se cobrar muito e aconselha que outras mães façam o mesmo.

— Quando nasce o filho nasce a culpa de uma mãe. Mas esse é um período para a gente tentar não se cobrar tanto, nem de nós, nem das crianças, porque vai ser uma fase muito marcada nas nossas vidas. Tento fazer ser mais leve — diz.

'Foi um turbilhão'

Para Renata da Silva Moreira, de 37 anos, a maternidade solo começou durante a quarentena. A guarda municipal já era mãe do Cauã, de 15 anos, e quando a pandemia começou, estava grávida da Clara. Devido à gravidez, foi considerada grupo de risco e liberada do trabalho. Ela contou com o apoio do então companheiro e pai da bebê, e o parto ocorreu em abril.

Menos de um mês depois, no entanto, decidiram se separar. Ele começou a trabalhar como motorista em um aplicativo de transporte e, por medo de colocar a si e aos filhos em risco de contrair o coronavírus, Renata preferiu evitar o contato. Desde então, vive apenas com os dois filhos, na Gávea, zona sul do Rio de Janeiro.

O pai de Cauã é participativo em sua criação, mas como trabalha embarcado, também optaram por não se verem no momento devido aos riscos de contaminação. Atualmente, Renata conta apenas com a ajuda da mãe, que mora no mesmo quintal.

— Foi um turbilhão, tudo ao mesmo tempo — conta — Estou em um momento vulnerável para a mulher, em que a gente precisa ter um apoio emocional e na parte prática também. Tenho que fazer comida, organizar a casa, amamentar, não dormir. Está sendo bem difícil.

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"Muito complicada" é como Marcelle Salvador da Cruz, de 40 anos, define a fase atual. Ela é mãe de Gabriel, de 14 anos, e de Cassiano, de 9. Durante o isolamento, a rotina dos filhos tem se resumido a ficar no computador, o que muitas vezes gera disputas entre os dois. O mais velho também faz algumas atividades escolares pelo aplicativo, no celular. Mas o filho mais novo, diagnosticado com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), tem dificuldade em se concentrar nas tarefas usando o aparelho.

— Para ele é algo novo e muito difícil — diz a mãe — Ele não aguenta mais ficar em casa, pede para ir para a rua brincar, para visitar a madrinha, não entende a situação.

Trabalhadora autônoma, Marcelle atua como corretora de planos de saúde e precisa de muita concentração quando tem que preencher contratos. Por isso, prefere fazer isso quando os filhos estão dormindo.

Os pais de Gabriel e Cassiano não têm visto os filhos há bastante tempo, mesmo antes da pandemia, afirma Marcelle. Ela conta apenas com o apoio da mãe, que mora na casa ao lado, em Campo Grande, zona oeste do Rio de Janeiro, e que toma conta dos netos quando a filha precisa sair de casa para alguma atividade essencial.

— Tem dia que penso que vou ficar doida, tem sido muito difícil — desabafa.

A estudante de pedagogia Tamires Souza de Azevedo Cruz, de 25 anos, mãe do Thomás, de 6, também diz ser um desafio conciliar todas as atividades. Tanto ela quanto o filho estão participando de aulas online, e o menino está na fase da alfabetização.

— Considero essa uma das fases mais complicadas. Por mais que os professores tentem ajudar, eles não conseguem dar muito suporte. A professora me passa materiais pelo Whatsapp e eu tenho que explicar, ensinar, fazer praticamente tudo por conta própria. Acredito que ele não esteja se desenvolvendo tanto quanto estaria na escola, com alguém com experiência — afirma.

Eles moram com seus pais na Cidade de Deus, comunidade na zona oeste do Rio de Janeiro. Como sua mãe é idosa e faz parte do grupo de risco, a estudante passou a ser a responsável pelas compras da casa. Ela costuma contar com o apoio do pai da criança, que divide os cuidados. No entanto, como Thomás passou por um tratamento dermatológico durante o qual precisou ficar sem contato, está há algumas semanas sem vê-lo.

'O trabalho triplicou'

Para a jornalista Ellen Paes, que mora em Rio Comprido, no Rio de Janeiro, o trabalho triplicou durante a quarentena. Ela é editora-chefe do jornal "Em Pauta na Saúde", da Fundação Oswaldo Cruz, e está a maior parte do tempo em home office, mas ainda precisa ir até a Fiocruz duas vezes por semana, para preparar e apresentar o programa. Nesses dias, sua irmã toma conta de Valentina, sua filha de 9 anos.

— Não quero pagar ninguém para ficar com ela porque é caro e porque iria trazer para casa uma pessoa que não vou saber se está cumprindo a quarentena ou não… Como sou obrigada a não estar 100% isolada e trazer uma pessoa, está sendo minha irmã. Mas tomamos todos os cuidados, eu que busco e deixo ela de carro — explica.

Valentina está tendo aulas online, em um computador que divide com a mãe. Ellen afirma que não tem sido fácil tirar suas dúvidas — sobre assuntos que muitas vezes não se recorda — além de cuidar das outras demandas da filha. Ela conta que Valentina acaba ficando um pouco atrasada em alguns assuntos, mas tem procurado não se preocupar tanto com isso.

— Estamos em uma situação completamente nova, a maior crise sanitária pela qual já passamos. Acho que essas reflexões deveriam estar sendo feitas com as crianças, em vez de exigir produtividade em um momento em que todo mundo está sendo afetado. Temos que naturalizar a anormalidade — defende.

Os afazeres domésticos também contribuem para a sobrecarga da jornalista. Além de passarem mais tempo em casa, ela antes contava com uma diarista quinzenal. Para Ellen, o maior desafio tem sido passar por tudo isso de forma saudável, conseguir se cuidar e não esmorecer diante da crise de saúde e política, "que trouxe para a superfície uma série de iniquidades sociais."

Se por um lado as tensões geradas pelo isolamento contribuem para o aumento de conflitos, por outro, passar mais tempo juntas tem feito que mãe e filha se aproximem:

— Uma coisa que pode ficar desse momento é o estreitamento do laço com minha filha, de se tornar abrigo e acolhimento. Acho que o mais interessante é que ocorre dos dois lados: em alguns momentos sou eu quem a apoio, em outros ela acaba me ajudando e cuidando de mim da mesma forma — conclui.