Desafio: 300 mil casas com pelo menos 3 moradores em um quarto; ambiente favorável ao coronavírus

Ludmilla de Lima
Em Niterói, a prefeitura iniciou um processo de sanitização no bairro do Fonseca

RIO - O distanciamento social e o isolamento recomendados por autoridades públicas de saúde para conter o coronavírus esbarram na realidade das comunidades pobres. Uma pesquisa da ONG Casa Fluminense, com base em dados do IBGE, mostra que cerca de 300 mil domicílios na Região Metropolitana do Rio têm mais de três pessoas dividindo um único quarto.

Com um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do estado, Japeri, na Baixada Fluminense, é o município que mais sofre com o chamado adensamento habitacional excessivo: a cidade, 83ª colocada no ranking do IDH do estado, tem 14% (3.956) das residências nesta condição. O estudo aponta que, na capital, a pior situação é a da Favela do Jacarezinho, onde 15,9% dos imóveis —1.803 — se encaixam neste perfil.

Considerando ainda as regiões administrativas do município do Rio, logo atrás do Jacarezinho vêm outras grandes comunidades: Maré, com 11,3% (4.716) dos domicílios; Rocinha, com 11% (2.565); e Cidade de Deus, com 10,9% (1.245). Em toda a cidade, há 128 mil residências onde as famílias enfrentam este problema.

— O IBGE considera que mais de três pessoas por dormitório é excessivo. E há 300 mil domicílios na Região Metropolitana que se encontram nesta situação. Este dado acende um alerta num momento em que se apela para a necessidade de isolamento por causa do risco de contágio. Se houver um processo de disseminação do coronavírus nesses lugares, a propagação será muito mais rápida — diz, preocupado, Henrique Silveira, coordenador-executivo da Casa Fluminense, organização criada em 2013 voltada para a construção de políticas públicas para a redução de desigualdades e desenvolvimento sustentável.

Quando se olha a lista das 22 cidades da Região Metropolitana, é a presença dos municípios da Baixada Fluminense no topo o que chama mais a atenção. Depois de Japeri, aparecem Belford Roxo (12,4%); Queimados (11,9%); São João de Meriti (11%); Mesquita (10,6%); Duque de Caxias (10,3%); Nova Iguaçu (10,2%); e Magé (9,6%). O Rio está na 17ª colocação, com 6%, e as cidade nas posições mais confortáveis, ou seja, nos últimos lugares, são Petrópolis, com 4,3% (4.093 domicílios), e Niterói, com 3,6% (6.113).

No contexto brasileiro, o estado figura em sétimo lugar, com 353 mil domicílios onde vivem mais de três pessoas num dormitório só, ou 6,7% do total. O Rio de Janeiro só perde para os estados de e Roraima, Amazona, Pará, Acre e Maranhão.

Esse cenário no Rio preocupa diante do avanço da doença. Já são 370 casos no estado, com oito mortos. Só na capital, são 331 pessoas com diagnóstico da Covid-19.

Em Niterói, onde há 19 casos e uma morte, a prefeitura iniciou ontem um processo de sanitização na Vila Ipiranga, no bairro do Fonseca, onde vivem 12 mil moradores. Foi a primeira favela do país a passar por essa higienização que ajuda na eliminação do coronavírus. Respeitando as recomendações de permanecerem em casa, Mônica Souza, de 33 anos, e o pai dela, Manoel Pereira, de 67, acompanharam juntos, de uma das janelas da casa, o trabalho dos 65 profissionais na comunidade.

— Fiquei sabendo pela internet que a comunidade ia ser limpa. Achei muito legal e importante. Estamos apreensivos, principalmente por conta do meu pai. Ele só está em casa, direto, mas eu preciso sair para trabalhar alguns dias — disse Mônica.

Desinfecção no Rio

O trabalho de limpeza começa com a lavagem das vias com água e sabão, com auxílio de um caminhão-pipa. Em seguida, uma mistura à base de amônia diluída em água é aplicada em calçadas, portões e escadas dos moradores. A empresa responsável, que também fez essa aplicação em Icaraí, utiliza a técnica e o produto adotados pelo governo chinês.

Hoje, no Rio, militares do Exército e da Marinha começam a fazer a desinfecção em estações de transportes públicos a fim de evitar o contágio do coronavírus. O trabalho começa na Central do Brasil e nas estações das barcas da Praça Quinze e do metrô do Estácio.