Desafio para candidatos em SP será criar conexão entre centro e periferias: ‘É necessário privilegiar candidaturas que venham desses territórios’

João de Mari
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Feira no Grajaú, no extremo Sul de São Paulo (Foto: Divulgação/Rede Nóis por Nóis)
Feira de empreendedores locais no Grajaú, no extremo Sul de São Paulo (Foto: Divulgação/Rede Nóis por Nóis)

Em maio deste ano, de dentro de uma escola municipal utilizada como armazém de cestas básicas, Glória Maria organizava alguns kits com comida e itens de higiene pessoal que seriam distribuídos para parte dos moradores de Paraisópolis, segunda maior favela de São Paulo, localizada na Zona Sul da cidade. “O coronavírus foi um susto para geral, ‘tá ligado’? Paraisópolis é um lugar muito movimentado e o que mudou por aqui foi a maneira com que a gente se mobiliza”, diz ela.

Glória, 21 anos, é jornalista e produtora cultural do Batalha de Paraisópolis. O coletivo, criado por amigos em 2017, promove eventos culturais na favela e costumava atrair centenas de jovens antes da pandemia do novo coronavírus. Em meio ao cenário de avanço da Covid-19 no bairro, porém, Glória afirma que o o grupo se viu obrigado a “se organizar, porque o estado não esteve presente”, passando a entregar marmitas e cestas básicas arrecadadas com associações de moradores e movimentos populares.

No distrito onde a favela está localizada, não há, proporcionalmente, um centro cultural, teatro ou museu sequer a cada 100 mil habitantes, de acordo com o Mapa da Desigualdade de 2019. Para ter ideia, na Barra Funda, região central da cidade, são quase 40. No Butantã, na região oeste, são 53.

Segundo um levantamento feito pela Associação de Moradores de Paraisópolis, até o dia 11 de agosto, 49% dos adultos da favela tiveram contato com o coronavírus. Ou seja, já foram infectados. Outros 23% dos testados ainda estão ativos, podendo transmitir o vírus.

A enorme concentração da população, a falta de alternativa de renda para além do trabalho fora de casa e a pouca consciência de alguns moradores pode explicar a contaminação de quase metade dos adultos da comunidade onde vivem mais de 100 mil pessoas.

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Embora acredite que a mobilização de base comunitária seja fundamental para a população periférica, o cientista político Marcio Black afirma que a função de cuidado com os moradores mais vulneráveis deveria partir do Estado e não da própria população.

“A pandemia escancarou a desigualdade social, de gênero, racial e territorial que, mais uma vez, se materializou sobre os moradores das periferias. A atual São Paulo construída não é mais sustentável, ela não é mais possível, pois compromete a existência de milhares de paulistanos”, avalia.

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), até criou campanhas para “ajudar pessoas em situação de extrema vulnerabilidade”, como diz o site do Cidade Solidária, que está arrecadando doações durante a pandemia. Segundo a prefeitura, foram doados para este projeto mais de R$ 500 mil até o dia 31 de agosto.

“A gente sente muita falta do governo municipal aqui dentro, porque a única coisa que fizeram foi distribuir cesta para crianças com alimentos de péssima qualidade. Já existiam essas demandas e essas pessoas precisam de cestas não só no coronavírus, mas fora disso também”, enfatiza Glória.

Marcio Black, que também é coordenador do programa de Democracia e Cidadania Ativa da Fundação Tide Setubal, entende este processo como um distanciamento entre poder público e periferias, em que a pandemia serviu para ilustrar que existe uma “desconexão do centro com as periferias”.

“Você olha a concentração de renda em São Paulo e ela está na mão de homens, de classe média, meia idade e moradores da região centro-oeste. Quando olhamos para a formação da Câmara Municipal, quem são os nosso vereadores? Homens, brancos, de classe média e moradores da região centro-oeste. Eles estão governando para eles”, analisa.

Dos 55 vereadores em São Paulo, a maioria não é morador de alguma periferia. Além disso, desse total, apenas nove são mulheres. A reportagem entrou em contato com a Câmara Municipal de São Paulo solicitando informações sobre raça dos parlamentares, mas foi informada que não contabilizam esses dados.

Demanda das periferias

Rede Nóis por Nóis promove consultoria em marca, gestão financeira e eventos para que os produtos circulam pelo Grajaú (Foto: Divulgação/Rede Nóis por Nóis)
Rede Nóis por Nóis promove consultoria em marca, gestão financeira e eventos para que os produtos circulam pelo Grajaú (Foto: Divulgação/Rede Nóis por Nóis)

O Congresso Nacional aprovou, em julho, uma proposta de emenda à Constituição (PEC) que altera as datas do calendário eleitoral deste ano em razão da pandemia. Com isso, a votação do primeiro turno será no dia 15 de novembro, e o segundo, no 29 de novembro. Mas, nas periferias de São Paulo, as demandas aos parlamentares que serão eleitos já circulam pelas vielas da maior cidade do país.

A cerca de 20 quilômetros de distância de Paraisópolis, na Brasilândia, periferia da Zona Norte de São Paulo, o terapeuta natural Dimas Reis Gonçalves acredita que para essas eleições a demanda do distrito não mudou, embora seu distrito seja o segundo local com mais mortes pela Covid-19 na cidade.

Segundo levantamento divulgado pela pela Prefeitura de São Paulo com base nos dados registrados entre os dias 11 de março e 3 de agosto, o distrito contabilizava 368 mortes. Em Pinheiros, distrito nobre na zona oeste, foram 67 óbitos no mesmo período.

“O que mudou foi a pandemia, porque as pessoas já estão em uma situação tamanha de precariedade que sobreviver já é costume. Há muito tempo que Brasilândia é um território de escassez de educação, saúde, alimentação. A galera vive numa precariedade”, avalia ele que é idealizador do projeto Preto Império, que busca viabilizar e materializar os sonhos da população negra e periférica na região.

Com 264 mil habitantes, Brasilândia possui loteamentos populares implantados sem planejamento, com ruas estreitas, terrenos pequenos e ausência de espaço público. Dimas, acredita, porém, que pandemia trouxe modificações positivas para seu bairro.

“A crise trouxe uma consciência para as pessoas sobre uma necessidade da autonomia alimentar, de um cuidado com a alimentação para a garantia da vida, porque o sistema não estará à disposição para solucionar os problemas. Penso que o poder público tem que criar mais estrutura para dar conta de situações como essa e dar autonomia para os moradores e não para o sistema privado”, conclui, referindo-se aos movimentos populares do próprio distrito.

Em Cidade Tiradentes, distrito paulistano onde se registra a menor idade média ao morrer de São Paulo, apenas 57 anos, a assistente social e membro do Conselho Municipal de Saúde da Zona Leste, Maria Auxiliadora, avalia que a população não fez o isolamento social como deveria. Segundo ela, o motivo seria a falta de condições mínimas de permanecer dentro da própria casa.

“Muitas pessoas em Cidade Tiradentes moram em um cômodo com cinco, seis, até 10 pessoas. Além disso, muitas famílias moram em áreas de ocupação onde não tem nem saneamento básico, áreas de lazer. E dentro de casa não tem Wi-fi, muitas vezes não têm uma televisão”, conta.

“As demandas para os próximos parlamentares são todas. Saúde, educação e habitação, sobretudo em um momento onde as pessoas deveriam ter um espaço para fazer o isolamento e não tem. Para piorar, muitas áreas de ocupações pegaram fogo, outras foram desapropriadas pela Prefeitura. O grande desafio não é no pós pandemia, é agora”.

Com a flexibilização da quarentena e a reabertura do comércio, desde junho deste ano, parte da população de regiões periféricas voltaram a utilizar transporte público para trabalhar. Por esse motivo, Auxiliadora ainda acredita que uma demanda latente para quem for eleito em São Paulo é levar emprego para perto das pessoas.

“Tem que ser feito o caminho inverso que ao longo da sociedade foi feito, porque é sempre da periferia para a cidade, as pessoas não tem que ver sua região ou sua casa como apenas um espaço para dormir”, diz. “Se a pessoa sai às 5h e volta às 22h como vai conhecer o que tem no seu entorno? A pessoa vive mais dentro do trabalho do que no próprio bairro”.

Uma pesquisa da Rede Nossa São Paulo, de julho deste ano, relacionou renda e trabalho como fator de risco na pandemia e concluiu que quanto mais empregos disponíveis em um distrito, menos pessoas são afetadas pelo coronavírus. No bairro central Barra Funda, por exemplo, há 5.920 postos de trabalho para cada mil habitantes. O bairro tem 21 mortes pela Covid-19. Na Cidade Tiradentes, por outro lado, há 24 vagas de emprego para cada mil pessoas em idade ativa e 223 mortes pelo novo coronavírus.

O cientista político Marcio Black diz que já passou da hora dos vereadores e prefeitos entenderem a cidade como um todo para se chegar a soluções reais para os problemas da população mais pobre.

“São essas candidaturas [da população periférica] que serão capazes de fazer uma conexão entre o centro e a periferia, entre as demandas que existem e são específicas dos territórios e como elas podem estar alinhadas com as políticas públicas integradas que o poder público venha implementar”, conclui.

De dentro para dentro

“É preciso criar um espaço de troca direta, sem precisar de intermediário”, diz Barbara Terra (Foto: Divulgação/Rede Nóis por Nóis)
“É preciso criar um espaço de troca direta, sem precisar de intermediário”, diz Barbara Terra (Foto: Divulgação/Rede Nóis por Nóis)

No Grajaú, no extremo Sul de São Paulo, Barbara Terra, de 28 anos, concorda com a avaliação do cientista. A produtora cultural e gestora da Rede Nóis por Nóis, que é formada em sua maioria por mulheres negras e atua promovendo consultoria em marca, gestão financeira e eventos para que os empreendedores e moradores pelo bairro, teve que se reinventar para lidar com o distanciamento social imposto pela pandemia.

“Gostaria que o Estado não olhasse para gente de uma maneira de consumo, mas também como criamos espaço de manutenção de cuidado, um vínculo com essas pessoas. Como isso não existe, a gente começa a trabalhar de dentro pra dentro”, sintetiza ela. “O poder público às vezes cria projetos achando que estão criando algo que vai suprir as necessidades dessa pessoa, só que eles não perguntaram para ela se é isso que ela precisa”.

Para a gestora, os governantes estão dispostos a conhecer os territórios e compreender “quem são essas pessoas e criar um espaço de troca direta, sem precisar de intermediário”. Por esse motivo, ela enxerga que, a partir da pandemia, a periferia se reinventou sozinha.

“Não vou romantizar jamais esse lugar, mas eu vejo uma rede muito mais consolidada, muito mais presente. A gente tem um grupo dentro do WhatsApp com 250 articuladores, empreendedores, artistas e lideranças comunitárias, e a gente sabe do que cada um está precisando”, conta.

Nas eleições deste ano, ela espera que os candidatos eleitos garantam educação financeira, antirracista e auto sustentável para a população periférica. “A demanda se tornou outra com a pandemia e entender as desigualdades, como funciona e como que a gente age em cima delas será fundamental”.