Desafios no TikTok ressuscitam o cofrinho em plena escalada da inflação

Juntar moedas por diversão ou por necessidade? Para os jovens da geração Z, a estratégia se tornou um "passatempo". Na internet, eles compartilham vídeos entre amigos mostrando o quanto é "bacana" — na percepção deles — o hábito de guardar moedas, mas sem muitas pretensões. Foi desse jeito que os irmãos João Gabriel, de 14 anos, Giovana Pereira, de 15, e Manuela Braz, de 17, passaram dois despretensiosos anos juntando moedas. Cada um tem cerca de três cofres, e o desafio é ver quem “enche o pote” primeiro.

No período de pandemia, colocar cada centavo adquirido dentro deles era apenas um hábito herdado do avô que, aos 65 anos, não abre mão de poupar, mas fora das transações bancárias. João, o caçula da família e o mais engajado nos trâmites das moedinhas, quebrou o cofre que ganhou de aniversário no mês passado. E com cerca de R$ 600 comprou uma câmera polaroid (que captura e revela a foto instantânea) por orientação da mãe. Caso contrário, o dinheiro retido continuaria "preso" por mais algum tempo.

— Tudo começou como uma brincadeira. Eu e minhas irmãs ficávamos observando meu avô juntar dinheiro nos vários cofres que ele tinha, mas a gente não ligava muito para isso. Ano passado, depois que a gente começou a postar nas redes sociais e falar com nossos amigos, o hábito foi ficando mais divertido porque todos começaram a fazer o mesmo. É como uma grande brincadeira. Minha mãe nos orientou a usar o dinheiro com sabedoria. Isso é legal, mas o divertido mesmo é ver aquele monte de centavos juntos — afirmou João Gabriel, que conseguiu convencer a amiga Emanoelle, de 14 anos, a guardar moedas também.

— Minha amiga viu que eu juntava moedas, e achei legal. Sempre que sobrava troco, ela perdia. Nunca parava com moedas. No início, ela foi guardando apenas para parar de perder. Depois, ela começou a juntar para valer — conta o estudante.

'Desafio' viraliza nas redes

A trend "economia de centavos" ganhou vida no período de pandemia entre os adolescentes que postam no TikTok ou no Instagram vídeos tutoriais, embalados com trilha sonora animada, mostram eles fazendo a ‘contabilidade’ do valor arrecadado. A grande incitação do feito é ver quem completa o ciclo primeiro. Para muitos deles, essa é a maneira correta de não jogar “moedas fora”, ou seja, dar uma utilidade para os centavos “encontrados” nos trocos das compras ou no valor de mesada. Por outro lado, quem é de gerações anteriores sabe muito bem que a “brincadeira” — em épocas passadas — era muito mais para preservar o dinheiro e investi-lo, posteriormente.

O hábito de guardar moedas vai desde os tradicionais cofrinhos de barro a potes de plástico ou vidro, latas com tampas, fechadas ou abertas, até gavetas armazenadas em móveis de casa. Hoje em dia, já há cofres caseiros com tecnologia e diversos recursos.

Oportunidade de educação financeira

O famoso cofrinho em formato de porco, que faz alusão à abundância, foi o primeiro meio que muita gente utilizou para guardar dinheiro. É um costume ensinado desde a infância e passado para gerações. Lembrança que a propagandista e mãe dos três adolescentes, Cristina Braz, de 41 anos, conhece bem. Ela aproveitou o interesse dos filhos para ensiná-los a aproveitar o dinheiro com sabedoria.

— Era assim que as pessoas aprendiam sobre finanças na minha época. A gente não tinha acesso à internet para se informar. Eu busco também orientar meus filhos a guardar dinheiro de uma maneira inteligente. Eu acho bacana que eles se interessem por isso, seguindo o exemplo do avô. A Manuela quer fazer um curso de modelo que custa R$ 1.500, eu já falei para ir guardando. A Giovana quer fazer um curso de idiomas de R$1.200. O que antes era apenas uma diversão agora tem uma finalidade — completou Cristina, que já abriu uma conta poupança para cada um dos filhos.

*Estagiária sob supervisão de Alexandre Rodrigues

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