A desbravadora Maria Clara Machado faz cem anos

Ricardo Calazans
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RIO DE JANEIRO — Maria Clara Machado foi muito celebrada em vida. A atriz, dramaturga, diretora e educadora, que neste sábado chegaria aos cem anos de idade, colecionou prêmios por décadas. Seus livros e peças rodaram o mundo, sua obra se tornou clássica, e personagens como Pluft, o fantasminha permanecem vivíssimos no imaginário popular — assim como O Tablado, a escola de teatro e grupo amador que ela criou em 1951, e que chegará aos 70 anos em outubro reformada e com o frescor intacto. Por ora, a pandemia impedirá festejos “presenciais” — há uma remontagem de “Tribobó city” planejada para assim que for seguro reabrir o Tablado — mas um seminário na UniRio e uma mostra na Fundação Casa de Rui Barbosa — ambos virtuais — atestam que todo aplauso para Maria Clara Machado é pouco.

— Maria Clara Machado é sinônimo de teatro infantil no Brasil, e isso era dito com ela ainda viva. Reconhecimento maior não há. Por outro lado, ela nunca recebeu um prêmio como diretora. Ela fez essa opção pela direção numa época em que não havia muitas mulheres nessa função. Neste e em outros aspectos de sua vida, ela sofreu com o machismo estrutural brasileiro — diz Miguel Vellinho, professor de Teatro da UniRio e coordenador de um seminário online que enfocará as diversas facetas de Maria Clara, em seis mesas redondas, entre 21 de abril e 26 de maio.

Uma das convidadas do seminário é a atriz Cacá Mourthé, sobrinha e herdeira intelectual da dramaturga, que sabia do peso das escolhas pessoais e profissionais de sua tia, das quais ela nunca se afastou na vida.

— Ela foi bandeirante, e isso deu a ela desde muito cedo um espírito livre e uma forma moderna de pensar. Ela viajou o mundo todo, era premiadíssima, e, ainda assim, insegura sobre si mesma — conta Cacá, que assumiu a direção do Tablado em 2003, dois anos após a morte da tia.

Essas inseguranças, tão únicas e ao mesmo tempo universais, estão presentes em textos como “A menina e o vento” e “O cavalinho azul”. O Tablado era sua única certeza: um espaço onde todos pudessem exercer sua criatividade livremente, até mesmo de amarras “profissionais”.

— A grande genialidade dela foi ter seguido firme no teatro amador num momento do Brasil em que todos os grupos estavam se profissionalizando, entre os anos 1950 e 1960. Ela fincou pé e pagou um preço caro por isso, mas também conseguiu algo único — diz Vellinho.

O ator e diretor Ernesto Piccolo tinha 12 anos quando entrou pela primeira vez no Tablado, para acompanhar uma amiga. Nunca mais saiu.

— Estou com 58 anos e sigo dando aulas. A relação é igual, o frescor é o mesmo. O Tablado é amador no sentido de um ofício executado com amor.

— Maria Clara era chapliniana. Tinha uma forma amorosa de ver o mundo — completa Cacá.

Filha do escritor Aníbal Machado, Maria Clara Machado cresceu em Ipanema, numa casa frequentada por artistas e intelectuais. Alguns destes tornaram-se seus amigos, como o poeta Carlos Drummond de Andrade. Uma correspondência entre os dois está na mostra que celebra o centenário da autora programada para este mês no site da Fundação Casa de Rui Barbosa. A exposição virtual foi montada a partir do arquivo da dramaturga e inclui cartazes de peças, capas de livros e outros documentos que pontuam sua trajetória, como os cadernos em que escrevia suas histórias à mão.

Já os “Cadernos de Teatro” que ela editava tinham outro tipo de confecção. A publicação — foram 178 números a partir de 1956 — foi criada como peça de fomento de uma cultura teatral no Brasil.

— Ela estava inspirada pela ideia desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek, e queria que pessoas de todo o Brasil tivessem acesso a textos e observações sobre o teatro — conta Vellinho.

— Nessa época, ela sempre dizia aos colaboradores da revista: “Remember Amapá”. Ela se preocupava com a linguagem da revista, tinha que ser uma informação que chegasse a todo mundo — diz Cacá.

Maria Clara também começou a publicar suas peças em livro — numa época em que, mais uma vez, isso era incomum. Mais tarde, algumas de suas obras foram para o cinema e para a TV. A versão de “Pluft, o fantasminha” que a TV Globo produziu em 1975, com Zilka Salaberry e Dirce Miggliaccio, tornou-se um clássico e marcou a infância da cineasta Rosane Svartman. Sua versão em 3D da história, com Juliano Cazarré e Fabiula Nascimento no elenco, está pronta, mas espera a pandemia arrefecer para a estreia nos cinemas.

— A única preocupação da Cacá era: como vai ser o fantasma? Porque ele tinha que ser mágico como o Pluft que a gente via no teatro. Acabamos filmando as cenas dos fantasmas numa piscina, depois de muita pesquisa, e o efeito deu muito certo. E fizemos isso dentro do espírito de experimentação que vem do Tablado, da Maria Clara — explica.

Vinte anos após a morte de sua mentora, Cacá enxerga Maria Clara mais necessária do que nunca.

— Ela é fundamental. Num mundo de "farinha pouca, meu pirão primeiro", o espírito coletivo e a poesia que ela semeou podem ensinar muito.