Descendentes dos judeus sudaneses querem preservar suas raízes

Menna ZAKI
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Cemitério judaico em Cartum, Sudão, em 17 de fevereiro de 2021

No cemitério de um bairro popular de Cartum, as lápides com inscrições em hebraico ficaram cobertas por escombros durante décadas, como se fossem testemunhas silenciosas da longa e esquecida história dos judeus sudaneses.

"Tudo o que restou da comunidade judaica sudanesa é este cemitério em ruínas, algumas fotos antigas e as memórias", explica o farmacêutico Mansur Israil, morador de Al Arda, antes conhecido como o "bairro judeu" de Omdurman, cidade gêmea de Cartum, na outra margem do Nilo.

Nas décadas de 1940 e 1950, viviam no Sudão cerca de 250 famílias judias, segundo a historiadora britânica Daisy Abboudi, que também é descendente de judeus sudaneses.

Após a criação do Estado de Israel (1948) e das tensões que se seguiram com o mundo árabe, porém, a comunidade diminuiu enormemente.

- Memórias bonitas -

Israil, de 75 anos, cujo pai se converteu ao Islã, conta com orgulho que seu avô, um judeu iraquiano, emigrou para o Sudão.

O farmacêutico guarda lindas lembranças da época em que Al Arda era um "bairro animado com muitos judeus, mas também gregos e armênios", em que "todo mundo participava das celebrações e das festas".

Em 1956, a crise de Suez, na qual Reino Unido, França e Israel atacaram o Egito para tomar o controle do canal, precipitou a marcha dos judeus, diz Abboudi.

E, ainda que o Sudão tenha obtido sua independência do condomínio anglo-egípcio em 1956, a situação política de ambos os países permanece estreitamente vinculada.

O golpe fatal para os judeus sudaneses foi, no entanto, a Guerra dos Seis Dias (1967), quando Israel tomou territórios árabes.

Algumas semanas depois, Cartum acolheu uma cúpula árabe, onde foi anunciada a resolução dos "três nãos": não à paz, não ao reconhecimento e não à negociação com o Estado de Israel.

Israil lembra que até recebeu "ameaças por telefone por causa de [seu] sobrenome".

Segundo Abboudi, a maioria dos judeus deixou o Sudão, porque se deu conta de que "não tinham qualquer futuro" no país. Alguns cadáveres chegaram a ser exumados do cemitério, para serem transferidos para Israel.

Além de Israel, os judeus sudaneses emigraram, sobretudo, para a Inglaterra e para os Estados Unidos, explica a historiadora.

Durante os 30 anos de governo autoritário de Omar al-Bashir, o Sudão manteve uma linha dura com Israel, mas, desde sua destituição em 2019, o Executivo tenta voltar à cena internacional.

No ano passado, Cartum calibrou posições com Washington e aceitou normalizar suas relações diplomáticas com Israel, em troca de os Estados Unidos suspenderem as sanções contra o Sudão.

- Obstáculos -

No entanto, os "Acordos de Abraão", assinados em janeiro pelo Sudão e por Israel, entrarão em vigor apenas após ratificação por parte do Parlamento sudanês. Um Parlamento que ainda não foi formado.

Nesta terça-feira, o conselho de ministros aprovou um projeto de lei para abolir o boicote a Israel.

Para conseguir a "normalização", porém, é preciso superar vários "obstáculos", já que "muita gente no Sudão continua reagente", afirma uma sobrinha de Israel, Salma, que deseja "se reconectar com [suas] origens".

Em janeiro, dezenas de sudaneses queimaram bandeiras israelenses em frente à sede do governo de transição e, em fevereiro, uma conferência sobre tolerância religiosa, da qual um rabino participou, gerou polêmica.

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