Descoberta de ossada de bebê evidencia achado arqueológico urbano no Recife

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RECIFE, PE (FOLHAPRESS) - A descoberta da ossada de um bebê, na última segunda-feira (18), em meio a escavações na comunidade do Pilar, na área central do Recife, pôs em evidência o sítio arqueológico urbano presente na localidade. De acordo com a prefeitura, trata-se do maior do país em área urbana.

A comunidade fica no Bairro do Recife, chamado na cidade de Recife Antigo. Ao todo, mais de cem ossadas humanas, que podem desvendar o passado da cidade, já foram encontradas no local.

As escavações na localidade são realizadas pela Prefeitura do Recife em parceria com a UFRPE (Universidade Federal Rural de Pernambuco).

Pesquisadores acreditam que poderão surgir revelações sobre quem foram os primeiros moradores da capital de Pernambuco.

"O local conta a história da ocupação desde o final do século 16 até a atualidade. Tratamos a história como um processo e não como momentos e, nesse trajeto histórico, a gente teve essas pessoas que foram enterradas ali de 1600 a 1660", afirma Suely Luna, historiadora arqueóloga e coordenadora geral do projeto programa de resgate arqueológico na Comunidade do Pilar.

O bebê foi enterrado por cima de outro esqueleto, que já estava no local antes, segundo os indícios dos arqueólogos.

Antropólogos da UFRPE que estiveram na comunidade do Pilar descobriram que se trata de um bebê entre quatro e seis meses. Não foi possível identificar o sexo da criança. O crânio pode ter sido amassado pela presença de plantas.

Com o esqueleto do bebê retirado, a expectativa é que haja uma análise minuciosa na ossada de um adulto encontrado junto com ele.

A equipe de pesquisadores da UFRPE já encontrou ao todo dez esqueletos e partes de outros cinco. Novas escavações deverão ser realizadas nos próximos meses. O vínculo da UFRPE com a Prefeitura do Recife para o projeto de exploração na comunidade do Pilar vai até o início de 2023.

Os arqueólogos disseram acreditar que a área onde foram achados os esqueletos já tenha abrigado cemitérios no passado. Ainda não foram encontrados documentos relativos a esse espaço até o momento.

"Provavelmente, havia outro cemitério também, antes do processo de urbanização e higienização social de meados do século 19. Os cemitérios da forma como a gente conhece hoje são muito recentes. Antes, normalmente, as pessoas de posse eram enterradas dentro das igrejas, as pessoas que eram escravizadas, se fossem cristãs, poderiam ser enterradas ao lado da igreja", diz Suely.

Existem indícios de que pessoas mortas na guerra e vítimas de doenças, como o cólera e a gripe espanhola, que matou mais de 4.000 recifenses, entre os séculos 16 e 20, possam ter sido colocadas no cemitério.

"Há possibilidade de existir um cemitério onde encontramos o sepultamento do bebê, que foi enterrado dentro de um caixão de madeira, muito acima dos esqueletos do século 17", frisa.

A área é tombada pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Há um projeto de construção para um conjunto habitacional na área. As pesquisas foram feitas como parte do trâmite para viabilizar os edifícios residenciais.

"A prefeitura criou um grupo de trabalho para discutir um roteiro para que as pessoas tenham conhecimento dessa parte da história do Recife", afirma Luiz Henrique Lira, presidente da URB (Autarquia de Urbanização do Recife).

"É fundamental dialogar o conjunto habitacional com os aspectos histórico e turístico da cidade", acrescenta.

De acordo com Lira, a gestão municipal pretende criar um memorial a céu aberto sobre as descobertas dos esqueletos pelas ruas do Bairro do Recife. O objetivo é transmitir o conteúdo histórico em parceria com os pesquisadores.

De 2014 a 2020, também houve achados de objetos relativos ao período da presença dos holandeses no Recife no século 17. Nesse período, o projeto contabilizou cerca de 40 mil fragmentos.

"Temos uma quantidade de material imensa, louças, cachimbos holandeses, ingleses, portugueses, os que a gente chama de luso-brasileiros do período em que o Brasil era colônia, balas de canhão, aviamentos de fardamentos de militares, material muito rico de higiene como escovas de dente do século 19, garrafas de vários tipos de bebida, de vinho, de champanhe, cerveja, uma infinidade de materiais", explica Suely Luna.

O contrato da prefeitura com a Universidade Federal Rural, por meio da Fundação Apolônio Salles de Desenvolvimento, é acompanhado pelo Iphan. Relatórios são enviados periodicamente pelos pesquisadores para a autarquia municipal. O vínculo acontece desde 2016 e a previsão é de um custo de mais de R$ 3 milhões ao final do período.

Durante a investigação, os pesquisadores também descobriram alguns vestígios do antigo Forte de São Jorge sob a Igreja do Pilar e, ainda na fase de pesquisa, foram constatadas algumas obras do século 16, como a ocupação de casas e armazéns.

O Forte de São Jorge é a maior edificação do gênero instalada no território brasileiro durante o Século 16. O local é um bastião da resistência dos portugueses contra a invasão holandesa.

Perto da localidade, havia o Forte de São Francisco, que fazia o controle das embarcações que chegavam pelo mar. Por causa da resistência, os holandeses não obtiveram sucesso nos planos.

Diante disso, investiram no plano de invadir a capital pernambucana indo pela cidade de Olinda. Sem esperar, os guardiões do Forte de São Jorge acabaram sendo surpreendidos pela investida. A partir disso, eles conseguiram dominar o território.

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