Desconfiados, médicos russos contam seus mortos por coronavírus

Por Anna SMOLCHENKO
Motorista de ambulância faz sinal de vitória ao chegar a um hospital com pacientes infectados com o novo coronavírus em Kommunarka, nos arredores de Moscou, em 28 de abril de 2020

Quando começou a trabalhar com vários colegas em um projeto para registrar os médicos que morreram do novo coronavírus na Rússia, o cardiologista Alexei Erlikh não pensava que a lista seria tão longa.

O banco de dados, iniciado na semana passada, já possui mais de 70 nomes: médicos, enfermeiros e funcionários de laboratórios. E esse número deve aumentar à medida que a Rússia acaba de superar os 1.000 mortos e 100.000 casos oficialmente notificados de COVID-19.

"Muitos colegas estão morrendo. É difícil ver um novo nome todos os dias", disse Erlikh à AFP.

O principal objetivo desta lista é prestar homenagem aos profissionais da saúde na linha de frente de combate à epidemia de coronavírus. O cardiologista e seus colegas também buscam pela verdade, pois dizem que não confiam nos números publicados pelas autoridades.

O site de informações do governo sobre o vírus menciona 1.073 mortes e 106.498 pessoas infectadas, uma taxa de mortalidade por COVID-19 relativamente baixa, em comparação com outros países, como Itália, Espanha ou Estados Unidos.

Mas, de acordo com a lista dos médicos, este não é o caso entre os profissionais da saúde.

Dos quase 27.000 mortos na Itália, 151 eram médicos. Na China, 40 médicos morreram com o vírus e, nos Estados Unidos, 27 em 9 de abril.

Na quarta-feira, a lista de médicos russos incluía 74 nomes, mais da metade dos quais em Moscou e arredores, o epicentro da epidemia na Rússia. Quatro deles morreram na vizinha Bielorrússia, onde as autoridades se recusaram a impor confinamento.

- Falta de material -

Alexei Erlikh, chefe do serviço de terapia intensiva cardíaca no hospital número 29 de Moscou, está em quarentena em sua casa depois de testar positivo para o vírus.

Segundo ele, cerca de 70% de sua equipe está infectada.

Desde o início da epidemia na Rússia, os médicos se queixam da escassez de equipamento de proteção e testes de diagnóstico, bem como da relutância de vários chefes de estabelecimentos em realizar testes entre os funcionários, para evitar períodos de quarentena.

Alguns centros se tornaram vetores de disseminação do vírus.

Para o neurocirurgião Alexei Kashcheyev, a lista de médicos falecidos é mais uma prova do que o sistema de saúde russo, que sofreu muitos cortes, não está preparado para enfrentar uma crise dessa magnitude.

A mortalidade significativa entre o pessoal médico "era previsível", diz ele, acrescentando que as queixas dos médicos, sobrecarregados e mal pagos, são ignoradas há anos.

Kashcheyev conhecia pessoalmente duas das vítimas da lista. Ele espera que esse registro ajude as famílias a obter uma compensação financeira do governo.

As autoridades, que reconheceram a falta de meios de proteção, garantem, no entanto, que multiplicaram os esforços para aumentar a produção e o número de testes realizados.

Até o momento, nenhuma estatística oficial foi divulgada sobre o número de médicos mortos por COVID-19.

O ministério da Saúde não respondeu às solicitações da AFP sobre esse assunto e não quis comentar a existência dessa lista.

Anastasia Vasilyeva, que dirige o sindicato "Aliança dos Médicos", próximo do opositor Alexei Navalni, acusou as autoridades de querer minimizar o número de mortes.

Segundo ela, o número de vítimas deve se aproximar de 200 na Rússia.

"Eu pessoalmente posso adicionar uma dúzia de nomes à lista. Recebo mensagens todos os dias: 'Este está morto e este está morto'", explica.

Para muitos críticos, a situação atual é consequência de anos de políticas que favoreceram os gastos com defesa, em vez de fortalecer o setor de saúde.

"Quando tudo acabar, acho que os médicos e a sociedade terão que soar o alarme sobre esse problema e pedir soluções", alerta Kashcheyev.