Descubra se você sofre da síndrome do impostor

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Síndrome do impostor: sensação de ser uma "fraude"

Foi em 1978 que as psicólogas e pesquisadoras norte-americanas Pauline Rose Clance e Suzanne Imes denominaram em artigo um conjunto de sensações recorrente em profissionais bem-sucedidos: a síndrome do impostor. O nome pode confundir, mas os sintomas são bem conhecidos por quem sofre desse mal: o sentimento de não merecer o sucesso alcançado e a angústia de, a qualquer momento, o mundo descobrir que o indivíduo em questão é, na verdade, uma fraude. Nesse contexto, o boicote também se faz presente em pensamentos que podem provocar ações nas quais as próprias pessoas se sabotam. O inimigo mora dentro.

O consultor Carlos Ferreirinha, de 50 anos, tem uma carreira brilhante e é considerado um dos maiores especialistas do mercado de luxo do Brasil. Assumiu, por exemplo, aos 30, a presidência da Louis Vuitton Brasil. Há 18 anos, fundou a MCF Consultoria, da qual é presidente, e acaba de lançar o livro “O paladar não retrocede”. Apesar de todas as credenciais, Ferreirinha conta ter de, volta e meia, lutar com sintomas da síndrome do impostor. “Talvez por não ter tido o ‘sobrenome’ da escola em que estudei, trajetória familiar reconhecida nem ter feito intercâmbio internacional”, analisa o consultor, que nasceu em uma família simples de São Gonçalo. “Quem não desfruta desses privilégios, precisa ultrapassar limites. Porém, ao alcançar resultados, notei ter me transformado no meu principal obstáculo. Nessa dinâmica, é fundamental desenvolver a autoestima”, analisa.

A relações-públicas Sayonara Sarti, de 34 anos, reconhece lutar diariamente para se livrar de sensações perturbadoras, que cresceram junto com seu êxito profissional. “Quantas vezes recebi mensagens de clientes, por meio do WhatsApp, que jurava serem críticas à minha atuação. Pensava: ‘Um dia, vão descobrir que sou uma fraude’”, conta. “Chegava a me boicotar procrastinando uma ação para um determinado trabalho não acontecer e, depois, colocava a culpa na falta de tempo”, emenda. As frequentes crises de ansiedade serviram de alerta para Sayonara, que levou o problema para a terapia. “Percebi que havia algo muito errado. Todo mundo ao meu redor dizia que eu era boa profissional e eu me debatia com a permanente sensação de incapacidade.”

Revirar as dores do passado fez com que ela decifrasse essa percepção errônea de não pertencimento. “Sou da periferia de Vitória (ES). Meu pai foi embora quando eu tinha 3 anos; aos 9, perdi minha mãe, vítima de infarto. Tive que lidar com a falta desses afetos. Os tios que me criaram costumavam dizer que eu não seria ninguém na vida. Saí de Vitória há dez anos sem olhar para trás”, confessa Sayonara, que mantém a terapia e adicionou hábitos saudáveis para combater os sintomas da síndrome: “Há dois anos pratico atividades físicas diariamente. Faço exercícios aeróbicos na academia e virei adepta da ioga. Minha vida mudou a partir de então”, ressalta.

Diretora criativa de estratégia da Coca-Cola em Londres, a publicitária paulista Chiara Martini, de 36 anos, também já esbarrou em questionamentos que colocaram em xeque sua capacidade profissional. “De 2015 a 2017, trabalhei numa agência de publicidade em Nova York. O fato de eles diferenciarem quem é latino de uma maneira bastante intrínseca fez com que eu passasse a duvidar da minha base”, lembra ela. Em outros momentos, ela questionou sua veracidade. “Pensava: ‘Como posso ser tão cheia de dúvidas e as pessoas me acharem tão cheia de certezas?’”, conta.

A sua origem também influenciou na sensação de não merecimento do reconhecimento. “Avaliava se o fato de eu ser branca e ter tido privilégios, como estudar em bons colégios, seriam o motivo de conseguir uma determinada posição”, explica. Hoje, Chiara desenvolveu um método eficaz para aplacar sensações de insegurança no ambiente corporativo. “Identifico em quem posso confiar e troco opiniões sobre apresentações e trabalhos. Com o tempo, a gente aprende a ler as pessoas.”

Mas existem situações em que a palavra e o olhar do outro não resolvem. Este é o caso do fotógrafo Adriano Reis, de 25 anos. “Não consigo aceitar nem um elogio e me pergunto constantemente o motivo de os clientes me escolherem”, confessa. Foi um amigo de Adriano que avisou a ele que esse conjunto de sentimentos poderia se enquadrar na síndrome do impostor “Pesquisei os sintomas e me identifiquei. Quero fazer terapia.”

Gal Barradas, de 51 anos, acredita que a síndrome, apesar de afetar homens e mulheres, é mais cruel com o sexo feminino. A publicitária ficou conhecida por lançar, em 2017, o aplicativo Woman Interrupted, cuja finalidade é combater o manterrupting, prática comum no mundo dos negócios na qual a fala da mulher é interrompida pelos homens. “As mulheres são subjugadas e precisam lidar com a pressão interna e externa. É frequente pairarem dúvidas em relação às que ocupam cargos de liderança. Esse cenário está melhor, mas ainda rola uma desconfiança”, explica.

Segundo o professor de Psiquiatria da UFRJ Bruno Netto dos Reys, a síndrome do impostor não corresponde a um transtorno mental. “É uma descrição feita em atendimentos psicológicos e tem a ver com a baixa autoestima”, avalia. Para a psicóloga Elaine Di Sarno, o excesso de cobrança e a exigência de constante renovação são gatilhos para o desenvolvimento dos sintomas. “É necessário buscar um autorreconhecimento. A terapia ajuda a mudar a forma que a pessoa pensa.”