'Desejo que não sejamos mais vistos como seres do passado, mas do agora', diz Daniel Munduruku, escritor indígena que disputa vaga na ABL

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RIO — O professor e escritor premiado Daniel Munduruku, de 57 anos, escreve livros infantojuvenis com o objetivo de mudar a visão estereotipada que a sociedade brasileira tem sobre os povos indígenas e apresentar "a outra versão da história". A escola tem sido o principal instrumento de reprodução dessas visões equivocadas, afirma Munduruku, que é de origem indígena.

O paraense viveu sua primeira infância "dentro do povo Munduruku". Posteriormente, foi para a cidade estudar e, já adulto, se mudou para São Paulo. Ele se tornou mestre e doutor em educação pela Universidade de São Paulo (USP), pós-doutor em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e membro da Academia de Letras de Lorena.

Em 2021, Munduruku completa 25 anos de sua "literatura militante", como a define, e concorre a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. O escritor já recebeu prêmios nacionais e internacionais por sua obra literária, entre eles o Jabuti e da própria ABL. Também planeja para este mês o lançamento de seu próximo livro, "A Chave do meu Sonho", uma ficção sobre uma criança indígena que se prepara para ser um grande líder religioso, pois não tinha vocação para ser guerreiro.

Em entrevista ao GLOBO, Daniel Munduruku fala sobre o papel da literatura em apresentar a crianças e jovens um olhar além dos estereótipos sobre os povos indígenas, a necessidade de que o Brasil reconheça seu passado e valorize sua diversidade e sua visão sobre possíveis consequências do julgamento sobre a tese do Marco Temporal.

O senhor tem 54 livros publicados, a maioria para o público infantojuvenil. Quais temas aborda em seu trabalho?

Escolhi escrever para esse público justamente com o objetivo de aproximar as crianças e jovens dos saberes indígenas, que sempre foram ensinados de forma equivocada, e precisava fazer com que elas ouvissem a outra versão da história. Os temas são basicamente os saberes indígenas. E escrevo também para professores, alguns livros informativos.

Como a cultura dos povos indígenas é vista no Brasil atualmente? Isso passa pelo que é ensinado nas escolas?

A escola tem sido o principal instrumento de reprodução dessas visões equivocadas. Até hoje ainda é assim, mas principalmente até 1988 os indígenas eram vistos como uma espécie de passado da história do Brasil. Como se não fizessem parte do cotidiano das pessoas. Por isso havia a exploração de uma visão estereotipada, romantizada, reproduzida nas escolas pelo Dia do Índio, em 19 de abril. A partir de 1988, com a nova Constituição, as populações indígenas conquistaram o direito de serem chamadas de cidadãos brasileiros. A partir daí era para haver uma mudança bastante sensível nessa abordagem, mas foi acontecendo vagarosamente, de modo que ainda hoje a escola continua reproduzindo muitos estereótipos e imagens negativas. O que vai ajudar, mais recentemente, a partir dos anos 2005, é a introdução de uma literatura feita pelos próprios indígenas.

Qual é o papel da literatura na mudança dessa visão sobre os povos indígenas?

Em princípio, pensando academicamente, a literatura não tem função nenhuma, fora ser uma maneira de entretenimento das pessoas. Mas há um tipo de literatura que é engajada, comprometida com a mudança social. Eu encaro a literatura indígena justamente como esse engajamento, eu e muitos autores escrevemos com objetivo de mudar a visão estereotipada que a sociedade brasileira foi desenvolvendo. Nesse sentido, ela tem um propósito. Acredito muito no papel transformador da leitura. Ela cria visão de mundo, consciência crítica, cidadã, transforma o olhar das pessoas, permite que consigam olhar a história do Brasil não com uma única ótica, uma única narrativa hegemônica do estado brasileiro. A literatura que escrevo é militante, permite quebrar um pouco com os estereótipos que sempre foram reproduzidos. Traz para as crianças e jovens esse olhar um pouco mais verdadeiro, real, da presença indígena na sociedade brasileira.

O senhor está concorrendo a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Qual seria a importância de conquistar essa vaga?

A importância, mais que individual, é coletiva. Estou buscando dar mais visibilidade aos povos indígenas. A Academia é uma instituição muito importante para que essa visibilidade aconteça. Esse desejo que nasceu em mim de concorrer a uma vaga é também mais uma possibilidade de militância dentro da cultura brasileira. É um desejo que as pessoas conheçam mais nossa cultura, escrita, mas também que os povos indígenas não sejam mais vistos como seres do passado, mas do agora, contemporâneos. E, quem sabe, sejam vistos também como os guardiões de um futuro possível para o Brasil.

Qual é esse futuro possível?

Um futuro mais consciente, mais equilibrado, um tempo que há de vir em que nossa diversidade cultural seja reconhecida. É isso que vai fazer o Brasil seguir adiante. O Brasil é diferente do resto do mundo, justamente por sua diversidade, mas infelizmente a narrativa hegemônica sempre a deixou para trás. Sempre ensinou a não gostar do nosso passado. O passado do Brasil é construído pela presença dos povos originários indígenas e dos povos africanos que foram escravizados, e normalmente a escola nos ensina a não gostar dele. A ancestralidade nos lembra que o passado nos impulsiona para frente. Não existe futuro, o futuro é uma construção, a partir da possibilidade da gente dar um passo para trás. Como um atleta de salto em altura que precisa pegar velocidade para conseguir atingir sua meta, eu diria que o Brasil precisa dar esse passo para trás, reconhecer sua história, a importância das contribuições indígenas e africanas para a construção da sua identidade e assim dar um salto para o futuro. O futuro é a diversidade, não é a unidade. E o Brasil tem isso de sobra.

O senhor publicou nas redes sociais um episódio em que é questionado no aeroporto sobre ser um "índio andando de avião". Como é ser indígena nesse mundo de rápidos desenvolvimentos tecnológicos, ainda há muitos estereótipos em relação a isso?

Sim. Esse tipo de situação acontece o tempo todo, só resumi em palavras. Infelizmente o Brasil não se reconhece indígena, embora seja. Por isso os indígenas ainda são muito atacados por serem do jeito que são, por resistirem e lutarem para manter sua cultura. A gente ainda é visto como um estorvo para a sociedade, porque aparentemente estamos presos ao passado. Quando as pessoas insistem em nos tratar dessa maneira não sabem como estão sendo ridículas, no sentido de que podemos rir delas e das nossas ignorâncias, e esse episódio reflete isso. O Brasil é ignorante, no sentido filosófico, do que não sabe. Porque a gente nunca foi ensinado a saber. As pessoas, por não terem acesso ao que os indígenas sabem e contribuíram para a sociedade brasileira, ficam achando que somos o que elas acham que nós somos. Eu escrevo para crianças exatamente para evitar que elas não tenham acesso a informações que foram negadas às gerações anteriores. Só a educação pode nos tirar da ignorância. E minha literatura é um pouco para libertar as pessoas dessa ignorância.

O senhor esteve em Brasília acompanhando o julgamento sobre o 'marco temporal'. Quais as possíveis consequências se o STF adotar essa tese para as demarcações de terras indígenas?

Estou com toda a esperança de que o Supremo Tribunal Federal vai ser favorável às questões indígenas. À questão Constitucional, na verdade. Porque o marco temporal é uma tese inconstitucional. A Constituição garante que os indígenas são legítimos habitantes dessa terra chamada Brasil para além de uma data específica. Eu acredito que o Supremo vai reafirmar isso. Caso isso não ocorra, acredito que vá acontecer uma série de invasões, conflitos, as terras vão ser invadidas e ocupadas. Porque aqueles que estão defendendo essa tese têm recursos financeiros, apoio do próprio governo federal, que tem sido um dos principais aliados do agronegócio, e vão ter uma força muito grande para fazer esse tipo de invasão nos territórios indígenas. Creio que seria uma grande derrota para o Brasil como um todo. Pode ser o fim dos próprios povos indígenas, e do ambiente em que a gente vive.

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