Desejo de uma sociedade menos desigual depois da pandemia é debatido no 'Reage, Rio!'

Letycia Cardoso
O debate aconteceu por meio de ua videoconferência

Apandemia do coronavírus está provocando mudanças em nossa sociedade. Porém, é preciso refletir que tipo de futuro queremos, pensando em formas de reduzir as desigualdades sociais e de estender as oportunidades a todas as pessoas, incluindo acesso à internet e chances de se qualificar. Essa foi a principal questão debatida ontem na sétima edição do “Reage, Rio!”, organizado pelos jornais EXTRA e O Globo e oferecido pelo Sesc e pelo Senac, com o apoio da Fecomércio RJ.

O evento, com o tema “O Rio que se adapta e inspira”, aconteceu por videoconferência transmitida nos sites e nas redes sociais, respeitando as recomendações das autoridades em saúde sobre o distanciamento social. O encontro teve mediação da editora-executiva da redação integrada O Globo, EXTRA e Época, Maria Fernanda Delmas, e participações do presidente da Fecomércio RJ, Antonio Florencio de Queiroz; da fundadora do Instituto Ekloos, Andréa Gomides; do ator, diretor e escritor Lázaro Ramos; da diretora de RH da M4U Alana Antunes; e do antropólogo Michel Alcoforado.

Andréa, que também é uma das articuladoras da campanha “Riocontracorona”, do Movimento União Rio, responsável por distribuir mais de mil toneladas de alimentos e 300 mil litros de materiais de limpeza e higiene em 178 comunidades cariocas, destacou que o Brasil tem mais de 13,5 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza. Segundo Antônio Florêncio, as dificuldades acentuaram o abismo:

— As micro e pequenas empresas geram, no Rio de Janeiro, 253 mil postos de trabalho. A estimativa é que o número de desempregados aumente, abarcando 19% da população economicamente ativa.

Diante disso, o antropólogo Michel Alcoforado defendeu o fortalecimento do papel do estado e sugeriu a instituição de uma renda básica para a população:

— Há 100 milhões de brasileiros que vivem com R$ 430 por mês. A gente precisa dar dinheiro para essas pessoas, porque dinheiro é cidadania. Ela pode escolher comprar comida, refrigerante ou perfume.

Alcoforado ainda lembrou que, apesar de as pessoas estarem com saudades da vida antes do coronavírus, a sociedade vivenciava outras tipos de conflitos, como burnout e fake news. Para o antropólogo, o momento é uma chance de mudar.

Lázaro Ramos concordou e afirmou que informações falsas destroem toda a possibilidade de melhora. Também disse que a a resolução da crise passa pela união de forças entre sociedade civil e governo:

— Nós temos que agir o tempo todo. Estamos em uma situação extrema, em que a solução é coletiva.

Doação, uma cultura que, no Brasil, precisa ficar

Em meio à pandemia do novo coronavírus, cidadãos e empresas estão se mobilizando para fazer doações a quem perdeu renda. Para os participantes do “Reage, Rio!”, é uma cultura ainda não disseminada no Brasil, que precisa vir para ficar. Durante o evento, os debatedores concordaram que, apesar dos entraves burocráticos e das leis complexas, o hábito de ajudar precisa permear a sociedade em geral.

O antropólogo Michel Alcoforado destacou que há países no mundo mais carentes e burocráticos nos quais os mais ricos doam muito mais que no Brasil.

— Aqui, quem tem muito dinheiro pensa que deu certo apesar da sociedade. Em outros países, as pessoas pensam que têm sucesso por causa da sociedade, sentem gratidão e vontade de retribuir — afirmou Alcoforado.

O ator Lázaro Ramos afirmou que doar é menos burocrático que abrir uma empresa. Para ele, os consumidores estão cada vez mais conscientes e elegem empresas com maior responsabilidade social na hora de fazer suas compras.

Para o presidente da Fecomércio RJ, Antonio Florencio de Queiroz, o momento é de fortalecer a cultura do voluntariado. Ele diz que, para ampliar o projeto Mesa Brasil, do Sesc, que já doou 574 toneladas de alimentos a comunidades cariocas, além de artigos de limpeza e higiene, será lançada a campanha Mesa Sem Fome, com diversos postos de coleta.

Andréa Gomides, do Instituto Ekloos, também frisou a importância da mobilização:

— Temos que cobrar os governos, mas sem esquecermos de fazer nossa parte.

Chance de ter um site gratuito

Um levantamento feito pela Fecomércio RJ, através do Instituto Fecomércio de Pesquisas e Análises (IFec RJ), revelou que 75,5% das micro e pequenas empresas não possuem e-commerce e, portanto, estão com vendas paradas nesse período. O presidente da instituição destacou que nem todos têm acesso à internet ou, quando têm, recebem um serviço de má qualidade. Para tentar ajudar, a Fecomércio viabilizou a criação de um site próprio e gratuito:

— Ele pode criar o site próprio, sem ser em um marketplace, sem pagar nada inicialmente. O desconto será apenas de 3% por venda efetuada, direcionado ao desenvolvedor.

Para Alana Antunes, a alternativa para os microempreededores é fortalecer as relações com consumidores do bairro, numa rede de apoio.

— O trabalhador do meio digital é altamente preparado, escolarizado. Temos muita gente quem não terá oportunidade de trabalhar de casa — comentou.

Andrea Gomides também acredita que a mudança no modelo de trabalho atingirá uma pequena parcela do povo:

— Quanto mais tecnologia, mais desigualdade. Podemos observar que toda nova tecnologia começa cara e não é acessível a todos.

Ajuda a micro e pequenas empresas

Um levantamento feito pelo Instituto Fecomércio de Pesquisas e Análises (IFec RJ) revelou que 75,5% das micro e pequenas empresas não têm e-commerce e, portanto, estão com as vendas paradas na pandemia. Para tentar ajudar, a Fecomércio viabilizou a criação de um site próprio gratuitamente.

— Elas podem criar o site próprio, sem ser em um marketplace, sem pagar nada inicialmente. O desconto será apenas de 3% por venda efetuada, direcionado ao desenvolvedor — disse o presidente da instituição, Antonio Florencio de Queiroz.

Para a diretora de RH da M4U Alana Antunes, a alternativa para os microempreededores é fortalecer as relações com consumidores do bairro, formando rede de apoio. Ela também analisou que a pandemia gerou a aceleração de processos, transformando o futuro do trabalho em presente, com a instituição do trabalho remoto. Porém, esse modelo ainda exclui muitos empregados:

— O trabalhador do meio digital é altamente preparado. Temos muita gente que não terá oportunidade de trabalhar de casa. Há, ainda, muitos informais sem acesso a uma rede de direitos.

Andrea Gomides também acredita que a mudança no modelo de trabalho atingirá uma pequena parcela da população, já que a maior parte das pessoas de baixa renda é de autônomos ou informais.