Caso do desembargador em Santos mostra que carteirada é nosso maior patrimônio

Matheus Pichonelli
·4 minuto de leitura
Desembargador Eduardo Almeida Prado Rocha de Siqueira, do TJ-SP, insulta guarda em Santos. Foto: Reprodução/G1
Desembargador Eduardo Almeida Prado Rocha de Siqueira, do TJ-SP, insulta guarda em Santos. Foto: Reprodução/G1

Jair Bolsonaro queria dar “um puta de um recado pra esses bostas” de prefeitos que, naquele 22 de abril, junto com a maioria dos governadores, começavam a tomar medidas mais enérgicas para convencer as pessoas a ficarem em casa e evitar a explosão de casos de contaminação por coronavírus.

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Ao fim daquele mês, 6.006 pessoas haviam morrido por covid-19 e outras 87 mil estavam infectadas. Hoje o número de mortos chega a 80 mil, com mais de 2 milhões de contaminados. Alguns podem ter ajudado a ampliar a tragédia na aglomeração promovida em frente ao Palácio para exaltar o presidente que provocou transe ao levantar um pacote de cloroquina como se apresentasse o rei leão aos súditos no último domingo.

Os números não são os únicos resultados da sabotagem do presidente aos esforços de contenção da pandemia.

No dia seguinte, o “recado pra esses bostas” foi publicado em forma de uma portaria, assinada pelo então obediente ministro da Justiça Sergio Moro, que triplicava o limite de munições para pessoas físicas com armas no Brasil (de 200 munições para 600 ao ano).

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“Se tivesse armado, (o povo) ia pra rua”, filosofou o capitão, para quem as as regras pró-isolamento representavam uma “ditadura”.

Era o suficiente para travar uma guerra, como queria o fã do torturador Brilhante Ustra, este sim estandarte de uma ditadura, no país onde o total de armas para civis subiu 601%, chegando a 60.973 novas aquisições em dez anos, conforme reportagem publicada nesta segunda-feira 20 pelo jornal O Globo.

Bolsonaro mirou no prefeito e acertou no guarda. E no fiscal.

No último fim de semana, o portal G1 divulgou um vídeo em que um desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo humilha um guarda municipal de Santos após ser multado por não utilizar máscara enquanto caminhava pela praia.

A ausência da indumentária não era o único ponto a aproximar o doutor Eduardo Almeida Prado Rocha de Siqueira com a estética presidencial, para que, segundo pessoas próximas, usar máscara é sinal de frouxidão (a palavra é outra, na verdade).

Autuado, o magistrado rasgou a multa, jogou o papel no chão, chamou o guarda de analfabeto, pegou o celular e acionou o secretário de Segurança Pública do município, Sérgio Del Bel, pedindo punição ao servidor que ousou cumprir o decreto contra uma autoridade da lei. Em outro vídeo, o desembargador tenta cavar o fosso em relação a outro guarda dando lições de francês, distinção social e ignorância diplomada.

Conforme falava, era possível lembrar de cada aluno que pode não ter direito ao básico da educação caso vingue a proposta absurda do governo, há um ano e meio sem ministro da Educação que se preze, de promover um “apagão” no financiamento da educação básica em 2021 previsto no Fudeb.

O caso repete o padrão de humilhação contra agentes públicos demonstrado por casal bolsonarista em um bar do Rio, mas é muito mais grave. O que, num primeiro caso, era bravata (o “engenheiro civil formado, melhor que você” não estava tão melhor assim), no outro é a exposição de uma engrenagem que faz uma multidão apodrecer na cadeia por carregar algumas gramas de maconha e alguns poucos escaparem de uma simples multa por estarem acima da lei -- ou do decreto, para ficar no exemplo.

A desenvoltura com que o desembargador sacou o celular e acionou o chefe do guarda já evidencia como são as coisas por ali; será que, se um dia o secretário da Segurança fosse a julgamento, o magistrado devolveria o favor exigido ou se declararia impedido de julgar a causa de um contato de WhatsApp?

O que fez na vida privada será alvo de apuração no CNJ (Conselho Nacional de Justiça), onde o desembargador poderá se defender em francês com os pares.

Três meses depois da reunião de 22 de abril, a fala de Bolsonaro segue produzindo estragos na vida real como uma espécie de jurisprudência amoral a incentivar cidadãos comuns -- na orla o desembargador deveria ser um deles -- a peitarem esses “bostas de prefeitos” agindo fora da lei.

O mesmo presidente instigou seus apoiadores, pouco depois, a invadirem hospitais e peitarem médicos e equipes de saúde ocupadas em salvar vidas em UTIs; alguns obedeceram.

Uma hora os beneficiários do recado, que se aproveitaram de uma portaria para encher os bolsos de munição, vão agir conforme a norma incutida na ordem presidencial: povo armado, na cabeça do presidente, só deve obediência a ele.

Vai sobrar, como sempre, para o guarda.