Desertor do Grupo Wagner pode revelar segredos desta temida organização paramilitar

Um ex-mercenário do Grupo Wagner que fugiu da Rússia pela fronteira com a Noruega, no extremo norte da Europa, em condiciones dignas de um filme de guerra, está disposto a revelar os métodos brutais desta organização paramilitar na guerra da Ucrânia.

Sob tiros e com os guardas de fronteira da Rússia e seus cães em seu encalço, Andrei Medvedev, de 26 anos, atravessou clandestinamente, na semana passada, o rio congelado de Pasvik, que separa a Rússia da Noruega na região do Ártico.

Em um vídeo publicado neste fim de semana pela ONG Gulagu.net, o jovem russo afirma ter lutado na Ucrânia como líder de um destacamento do Grupo Wagner com entre cinco e dez homens.

Segundo ele, a decisão de desertar do grupo paramilitar veio quando seu contrato de quatro meses foi prolongado sem o seu consentimento em novembro.

"Ele é um indivíduo especialmente interessante como testemunha de primeira mão dentro do Grupo Wagner [...], incluindo os possíveis processos de pós-guerra sobre as atrocidades cometidas na Ucrânia", opina Tor Bukkvoll, pesquisador do Instituto de Pesquisa de Defesa (FFI, na sigla em norueguês) da Noruega, que é vinculado ao Ministério da Defesa do país nórdico.

- Vídeos de execuções -

"Provavelmente esteve em Bakhmut", localidade no leste ucraniano que as tropas russas tentam controlar há meses, "e pode explicar coisas de dentro que ninguém mais pode fazer", assinalou Bukkvoll à AFP.

Em uma entrevista ao site The Insider em dezembro, Medvedev afirmou que tinha informações sobre dez mercenários que não queriam voltar ao front de batalha e foram executados pelo Grupo Wagner.

Também disse que tinha um vídeo mostrando as execuções de dois desses mercenários, e que o mesmo seria publicado se algo de ruim ocorresse consigo.

Entre outros, Medvedev supostamente teve sob suas ordens Yevgeny Nuzhin, um homem acusado de ter se rendido às forças ucranianas e que foi morto a golpes de marreta ao retornar às fileiras russas, e cujo vídeo da execução foi publicado em redes sociais.

A AFP não pôde verificar de forma independente essas informações.

Medvedev, que foi detido rapidamente ao chegar à Noruega, onde pediu asilo, deve ser interrogado pelas autoridades migratórias e pelo Serviço Nacional de Investigação Criminal (Kripos), que participa da investigação internacional sobre os crimes de guerra na Ucrânia.

"Ele mesmo disse que era membro do Grupo Wagner e é interessante para o Kripos obter mais informações sobre este período", disse a polícia norueguesa na terça-feira.

- Pendrives -

Seu advogado norueguês, Brynjulf Risnes, declarou à AFP que seu cliente estava "disposto a falar de sua experiência dentro do Grupo Wagner para as pessoas que investigam crimes de guerra".

O desertor levou consigo vários pendrives em sua fuga para a Noruega, segundo o advogado.

"O que ele pode dizer é interessante porque não temos muitos testemunhos diretos de soldados do Grupo Wagner, mas há duas coisas que precisam ser levadas em consideração", assinala Tor Bukkvoll.

"Primeiro, a brutalidade do Grupo Wagner é notória há muito tempo, antes inclusive do conflito na Ucrânia, como na Síria, onde o grupo executou prisioneiros", acrescentou o pesquisador.

"Além disso, Medvedev parece ter estado em um ramo bastante baixo na organização, assim que é improvável que ele faça revelações sobre o que acontece nos níveis superiores", apontou.

A relação exata entre o Grupo Wagner, criado em 2014, e o Exército russo é uma das interrogações do conflito na Ucrânia. Muitos observadores assinalam que existem tensões entre as duas forças devido às ambições políticas do líder dos paramilitares, o empresário Yevgeny Prigozhin.

O Grupo Wagner, que conta em suas fileiras com muitos membros recrutados nas prisões russas, ironizou sobre a deserção de Medvedev.

O ex-mercenário tinha sido condenado a dois anos de prisão em suspenso e acabou cumprindo uma parte da pena após um conflito com um representante das autoridades, detalhou seu advogado norueguês.

"Ele tinha que ser processado por ter tentado atacar presos", comentou Prigozhin, através de sua assessoria de imprensa, esta semana.

"Até agora ele estava na lista de pessoas procuradas. Tenham cuidado, ele é muito perigoso", alertou.

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