Desfile no Rio começa com mensagem de tolerância

Por Eugenia LOGIURATTO, Jorge SVARTZMAN
Membros da Estácio de Sá desfilan no sambódromo do Rio de Janeiro

Com seu esplendor habitual, as escolas de samba do Rio de Janeiro multiplicaram as mensagens de tolerância até a manhã desta segunda-feira, ignorando as igrejas ultraconservadoras para as quais a maior festa do mundo tem um cheiro de enxofre mais forte este ano do que o habitual.

Um Jesus negro nascido na favela, homenagens aos indígenas e às mulheres que sofreram a escravidão: este carnaval reivindicativo também conseguiu reafirmar seu estilo barroco, apesar da retirada de subsídios ordenada pelo prefeito evangélico da cidade, Marcelo Crivella, e pela "guerra cultural" desencadeada pelo governo do presidente Jair Bolsonaro.

A primeira escola a desfilar foi a Estácio de Sá, com um enredo que homenageia a pedra, uma questão vinculada às grandezas e misérias do país. Em seguida, a Viradouro trouxe homenagens à resistência das mulheres escravas, no país onde a escravidão durou até o final do século XIX. No primeiro carro alegórico, uma sereia negra com uma longa cauda dourada nadou em um aquário de 7.000 litros de água mineral.

"É um carnaval com muitos protestos para o mundo ver o que está acontecendo aqui", afirmou Camila Rocha, de 30 anos, que desfilou na ala de "pedras preciosas" da Estácio de Sá.

- "Negro" no lugar de "Inri" -

A Mangueira, atual campeã, levou um Jesus com brim e uma coroa de espinhos dançando junto aos seus discípulos em uma favela. A dança, no entanto, é interrompida pela polícia, que dispersa o grupo com violência.

Uma metáfora para a vida nas favelas, onde 1.800 pessoas foram mortas em intervenções policiais em 2019.

No final do desfile, um carro alegórico mostrava um Jesus negro crucificado, com a inscrição "Negro" no lugar de "Inri" na cruz.

O desfile foi apresentado por líderes de todas as religiões, atrás de uma faixa que dizia: “Independente da sua fé, o respeito deve prevalecer”.

A mensagem foi muito bem recebida. Nas arquibancadas, "todos estavam interagindo conosco", afirmou Milton de Oliveira, 81 anos, que participa dos desfiles da Mangueira desde 1962.

A violência nas favelas também esteve presente no enredo da União da Ilha, que colocou um helicóptero quase em tamanho real sobrevoando uma comunidade em um carro alegórico. Mas, ao invés de balas, jogava camisetas brancas no ar, em sinal de paz.

A Portela encerrou o primeiro dia com uma homenagem aos índios Tupinambá, que moravam na região do Rio antes da colonização portuguesa.

"Nossa aldeia é sem partido ou facção, não tem bispo nem se curva a capitão", cantou a tradicional escola, em versos que podem ser interpretados como um recado a Bolsonaro, que é ex-capitão do exército e cuja política ambiental é denunciada por seu impacto humano e climático dentro e fora do Brasil.