Desgastado nas eleições, ministro da Justiça defende atuação da PRF e conta bastidores da prisão de Roberto Jefferson

Ocupante de uma das cadeiras mais estratégicas do governo federal, o ministro da Justiça, Anderson Torres, esteve no epicentro de episódios que geraram conflitos ao presidente Jair Bolsonaro. Dois deles ocorreram na reta final das eleições: a investida armada do ex-deputado Roberto Jefferson contra a Polícia Federal e as operação da Polícia Rodoviária Federal no dia do segundo turno que gerou uma série de denúncias de eleitores que foram abordados durante o caminho da votação.

Jefferson atirou com fuzil e lançou três granadas contra policiais que foram prendê-lo por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) no dia 23 do mês passado. Assim que a ocorrência ganhou repercussão nacional, veio a público a informação de que o ministro da Justiça havia sido acionado por Bolsonaro para acompanhar o caso de perto.

‘Bolsonarizada’: PRF adota perfil mais violento nos últimos anos

Áreas prioritárias: Governo Lula vai começar com 'revogaço’ em normas sobre meio ambiente e armamento

Quando a crise se conflagrou, o presidente estava cumprindo uma agenda em São Paulo com Anderson Torres. Temendo o impacto negativo do episódio em sua campanha, Bolsonaro pediu para que o ministro da Justiça se dirigisse a Levy Gasparian, cidade da região Serrana do Rio de Janeiro, onde mora Jefferson. No meio do caminho, contudo, Torres foi alertado por auxiliares de que sua presença iria passar a mensagem contrária à pretendida pelo presidente, que buscava uma saída para não ter a sua imagem vinculada à do ex-deputado que ameaça os policiais federais. A missão foi abortada, e Torres parou em Juiz de Fora (MG) para acompanhar a operação.

Bolsonarismo: Apesar de derrota de Bolsonaro, direita ganha força no país, mas é heterogênea

Em entrevista ao GLOBO, o ministro alega que, apesar de a sua viagem parecer inusitada, “havia uma razão forte” para ir ao local: Jefferson só se entregaria na sua presença. Não foi o que ocorreu. O ex-deputado desistiu de resistir e saiu de casa, sem a presença do ministro.

— Eu estava com o presidente em São Paulo e acertamos que eu deveria ir para o local. Depois, analisamos o cenário e vimos que ir para Juiz de Fora seria bem melhor. Montamos uma sala de situação na delegacia da PF em Juiz de Fora, e ali ficamos monitorando o andamento do caso, sem qualquer interferência. Colocamos viaturas e, até mesmo, um helicóptero da PRF à disposição para uma eventual necessidade de deslocamento imediato meu para lá.

Torres, porém, foi acionado inicialmente pelo senador eleito Magno Malta (PL-ES). Segundo o parlamentar, tudo começou com um apelo do Padre Kelmon, candidato a presidente pelo PTB, que estava dentro da casa de Jefferson no memento da ação.

— Recebi um telefonema em vídeo do padre Kelmon, desesperado. Liguei para o ministro da Justiça e disse: ‘Só você pode resolver esse problema’. Torres tratou com o presidente da República e falou que ia resolver o problema. Eu tranquilizei o padre e disse que realmente nada ia acontecer com o Roberto até que o ministro fosse lá — relembra Malta.

Veja ainda: Moraes supera resistências e recebe apoio de integrantes do Judiciário pela condução da eleição

Após a prisão de Jefferson, aliados de Luiz Inácio Lula da Silva, então candidato do PT, intensificaram o discurso de que o caso sintetizava os males da política armamentista do governo e que Bolsonaro destacou um ministro para garantir proteção a um aliado que atirou contra policiais. Em suas redes sociais, o presidente rifou o ex-parlamentar e condenado o ataque contra agentes e delegado.

Uma semana depois, a Polícia Rodoviária Federal (PRF), sob o comando do Ministério da Justiça, realizou diversas operações de fiscalização ao transporte de passageiros, sobretudo em estados do Nordeste, onde Lula conquistou uma ampla vantagem de votos no primeiro turno em relação a Bolsonaro. As blitzes dificultaram a chegada de eleitores a seus locais de votação, geraram uma série de denúncias e só foram suspensas depois que o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre de Moraes, cobrou providências do diretor-geral da corporação, Silvinei Vasques, que negou qualquer irregularidade. O episódio gerou um desgaste ao presidente.

— A missão da PRF não muda por conta de ser eleição ou de haver uma decisão judicial desse nível. A PRF continua com a obrigação de zelar pela segurança viária, e assim o fez com maestria durante a operação. Ao final, os eleitores votaram, e se deslocaram para suas zonas eleitorais com segurança — diz Torres.

Amigo do clã Bolsonaro

Antes de se tornar ministro da Justiça, Anderson Torres, de 46 anos, trabalhou por oito anos como assessor do ex-deputado federal Fernando Francischini, cujo gabinete era vizinho ao do também deputado à época Jair Bolsonaro. Ele se manteve próximo de Francischini e Bolsonaro mesmo depois que os dois tiveram divergências e se distanciaram.

Base do governo: Partidos negociam ministérios e cargos com PT de Lula; saiba quais

Delegado de carreira da Polícia Federal, Torres fez a sua carreira longe da corporação — e comandava a secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal quando foi convidado para o ministério, em março do ano passado. Hoje, costuma estar ao lado do presidente tanto nas crises do governo quanto em momentos de lazer. Ele foi a única companhia de Bolsonaro em um show do humorista Matheus Ceará, de quem o presidente é fã, em Brasília, em agosto deste ano.

Tal aproximação levou o ministro a participar de uma live com o presidente, em julho de 2021, na qual leu trechos de um relatório sigiloso da PF sobre testes feitos nas urnas eletrônicas pelo TSE. Tratava-se de uma tentativa de respaldar a tese bolsonarista de que haberia havia risco de fraude nas eleições. A Polícia Federal abriu um inquérito para investigar o episódio, e Torres teve que prestar depoimento.

O alinhamento às pautas do chefe também levou o ministro a participar da entrevista coletiva em que Bolsonaro denunciou supostos erros nas inserções de propaganda eleitoral em rádios do interior do país. Na ocasião, antes de falar à imprensa, o presidente se reuniu com diversos ministros e os comandantes das três forças militares para fazer uma declaração. Auxiliares ponderaram que seria melhor Bolsonaro falar sozinho, mas Torres acabou se voluntariando junto com o ministro Augusto Heleno, do GSI, para participar da declaração presidencial.

— Sobre estar fortalecido ou não, lembro que termino o governo Bolsonaro como seu Ministro da Justiça mais longevo. Assumi em 30 de março de 2021, e sigo com ele até hoje — diz Torres.

Dentro do governo, a avaliação é a de que a cadeira de ministro da Justiça é grande demais para Torres, que tem dificuldades para estabelecer interlocução com mementos do Supremo Tribunal Federal.

— Tenho contatos frequentes com juízes de todas as cortes, defendendo os interesses do ministério, do governo e do povo brasileiro. Não há barreira de relacionamento com nenhuma dessas autoridades. O que acontece é que essas interações ocorrem fora de um escopo midiático, por isso, nem sempre são percebidas.

No ano passado, Torres chegou a cogitar concorrer ao Senado pelo Distrito Federal, mas desistiu ao perceber que o cenário estava congestionado com as candidaturas de duas ex-ministras — Damares Alves, que acabou eleita, e Flávia Arruda. Com o fim do governo, interlocutores vêem dificuldade de Torres em voltar a atuar como delegado da PF. De acordo com pessoas próximas, o ministro pode costurar um retorno à Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal.

— Há alguns convites, estou pensando com cuidado em cada um deles — disse o ministro.