Design de Humberto da Mata chama a atenção por uso diversificado de materiais

Quem vê as formas orgânicas das criações do designer brasiliense Humberto da Mata, 35, pode até antecipar inspirações na natureza ou mesmo num glossário imagético fronteiriço do surreal. Talvez esses elementos estejam lá, sim. No entanto, as tentativas e erros com materiais e soluções construtivas, numa rotina de esmerada dedicação ao dia a dia do ateliê, são as características mais relevantes de seu processo criativo. E elas ecoam em suas peças, desde as primeiras experiências com tecidos e tramas, aos mais recentes trabalhos com papel machê, passando ainda pela cerâmica, numa carreira que neste ano completa uma década.

A organicidade da produção, diz ele, não deixa de reverberar sua cidade natal, mas como um contraponto. Uma refutação à sua formação fortemente modernista (“fui educado no grid”), como arquiteto e urbanista, na Universidade de Brasília, uma construção assinada por Oscar Niemeyer. Graduado em 2010, chegou a trabalhar num escritório de Arquitetura, mas se desanimou com a demora para ver, prontos, os projetos de que participava.

Em 2011, veio o ponto de inflexão que consolidaria a manualidade como caminho profissional: em Domaine de Boisbuchet, na França, fez um curso com Humberto e Fernando Campana, experiência que lhe apresentou à nova possibilidade de carreira, de materializar suas ideias de forma mais tátil. Colaborou posteriormente com os irmãos, no estúdio da dupla em São Paulo, por três meses, período ao qual ele reputa seu interesse por pesquisa com tecidos, sob influência dos Campana.

“Fiquei encantado com a liberdade de processos, a possibilidade de construir várias coisas com as próprias mãos, num tempo muito diferente da arquitetura”, diz.

Na infância e adolescência, Humberto teve seus primeiros contatos com trabalhos manuais, de natureza mais prática, como bricolagem e artesanato com papel, incluindo origamis, e ainda a pintura, tudo sob o estímulo de seu pai, jornalista, como sua mãe. Nasceu cedo também o interesse pela costura e por cozinhar, hábitos que mantém até hoje.

Em 2012, em Milão, participou com seus produtos feitos de luvas do Meet my Project, focado em jovens talentos. No fim daquele ano, morando em São Paulo, abriu seu primeiro ateliê e, neste começo da carreira, dedicou-se ainda às tiras de tecidos, compradas na Rua 25 de Março, via de comércio popular que encontra, na Saara do Rio, seu equivalente carioca. Depois, teve contato com a cerâmica, que resultou na coleção Morphus, vendida pela marca Dpot, em São Paulo. Formada por vasos, a linha foi apresentada originalmente em uma de suas três participações no setor de design da SP-Arte, de 2018 a 2020.

Em 2018, passou a ter suas peças, em especial os estofados, vendidas no Rio, pela LZ Studio. “A poesia, referência de moda de Humberto, na escolha impecável dos tecidos, com a intenção de passar informação, com clareza e responsabilidade e, ao mesmo tempo, uma alegria que há muito não se via por aí”, destaca "a empresária Anny Meisler, fundadora da LZ. Hoje, as criações do designer também são encontradas lá fora: na Galerie Revel, de Bordeaux (França), e na Aybar Galery, de Miami (EUA).

Na pandemia, surgiu a produção com papel machê, que tinha alguma intimidade também desde os tempos de criança. Com o material, faz de bancos e luminárias a espelhos. Cada vez mais orgânicos e escultóricos, os produtos parecem se distanciar do princípio modernista de que a “forma segue a função”.

“Eu brinco no limite. Não me considero um artista plástico”, pondera. “De certa forma, meus produtos estão sempre conectados a pelo menos o arquétipo do uso. Os vasos, por exemplo, não são muito simples de serem usados como suporte para um arranjo. Mas são volumes com um vazio dentro. Então, mesmo que não se consiga usá-los de modo muito prático, eles mantêm o código de recipiente.”