Desinformação sobre código-fonte da urna mobilizou bolsonaristas que invadiram Congresso

Funcionários da Justiça Eleitoral preparam urnas eletrônicas para as eleições em Porto Alegre

Por Bernardo Barbosa

SÃO PAULO (Reuters) - Uma alegação falsa sobre o código-fonte da urna eletrônica ajudou a mobilizar apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) que invadiram o Congresso Nacional no domingo, em Brasília, mostram fotos e vídeos publicados nas redes sociais.

De cima do prédio do Legislativo, participantes da invasão exibiram ao menos duas faixas com as frases "entreguem o código-fonte" e "queremos o código-fonte" --esta última também em inglês--, repetindo uma mentira disseminada nas redes bolsonaristas principalmente depois da vitória eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O código-fonte de um software é o conjunto de instruções, escritas em linguagem de programação, a serem executadas por aquele programa. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) abriu os códigos-fonte dos programas do sistema eletrônico de votação um ano antes das eleições. Eles ficaram à disposição para inspeção das entidades fiscalizadoras definidas em resolução do TSE, como partidos políticos, Ministério Público, Forças Armadas e universidades, entre outras.

Levada nas faixas para o Congresso, a alegação falsa também ganhou as redes bolsonaristas por meio das imagens da invasão, como mostrou checagem publicada neste domingo pela Reuters Fact Check.

Desde julho, foi a nona verificação de fatos sobre os códigos-fonte do sistema de votação brasileiro. Seis dos nove conteúdos checados circularam depois das eleições, sendo usados para questionar o resultado das urnas mesmo sem qualquer prova de fraude.

A desconfiança sobre a lisura das eleições por apoiadores de Bolsonaro segue o exemplo dado pelo ex-presidente. Apesar de ter chegado ao Palácio do Planalto pelo voto eletrônico, Bolsonaro questionou o sistema em diversas ocasiões durante seu mandato. O ex-presidente inclusive é alvo, desde 2021, de um inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) por ter feito ataques infundados às urnas eletrônicas.

Em uma checagem publicada em novembro, a Reuters Fact Check mostrou que vídeos antigos em que Bolsonaro fazia alegações falsas ou descontextualizadas sobre as urnas haviam sido resgatados nas redes para sustentar acusações de fraude nas eleições de 2022 e incitar protestos que pediam a anulação do pleito.

Também em novembro, o Ministério da Defesa do governo Bolsonaro divulgou um relatório com o resultado da inspeção dos códigos-fonte feita pelas Forças Armadas. O documento não menciona nenhuma irregularidade nas últimas eleições. Um dia depois, a pasta divulgou comunicado dizendo que o relatório "também não excluiu a possibilidade da existência de fraude ou inconsistência nas urnas eletrônicas e no processo eleitoral de 2022".

Depois da derrota eleitoral para Lula, mesmo sem qualquer indicativo de fraude, Bolsonaro nunca reconheceu abertamente o resultado das urnas, nem voltou atrás nas alegações falsas sobre o voto eletrônico.

(Reportagem de Bernardo Barbosa)