Desinformação sobre Petro ultrapassa fronteiras após sua eleição na Colômbia

De uma suposta foto com o traficante Pablo Escobar a falsos anúncios de governo: a desinformação que circulou durante a campanha na Colômbia contra o presidente eleito Gustavo Petro e sua colega de chapa, Francia Márquez, ultrapassou as fronteiras para influenciar as dinâmicas eleitorais ibero-americanas.

O serviço de checagem da AFP identificou vários conteúdos de desinformação sobre o ex-guerrilheiro e senador Petro e a ambientalista Márquez, divulgados fora da Colômbia um dia depois do segundo turno de 19 de junho, aproveitando a agitação política, como explicara, analistas.

"Este fluxo mostra a polarização na região, que certamente se reflete nas narrativas online", disse à AFP Esteban Ponce de León, pesquisador do Digital Forensic Research Lab.

"A América Latina tem tido mudanças importantes ou transições de governos com diferentes posturas e o fato de Petro ser o primeiro presidente de esquerda na Colômbia mexe com muitas relações nos outros países", explicou.

Em países como Brasil, Chile, Equador, México, Peru e Argentina tem circulado, por exemplo, um suposto artigo jornalístico, segundo o qual Petro propôs que as famílias compartilhassem residências com mais de 65 metros quadrados. O AFP Factual, serviço de checagem da AFP em espanhol, não encontrou registros desta proposta e identificou que em 2018 o político havia denunciado que o mesmo desenho foi usado para atribuir a ele outras declarações sem evidências.

Uma imagem na qual Márquez supostamente posa ao lado de uma pichação que diz "hoje comi feto no café da manhã" foi divulgada na Guatemala, Peru e Argentina, mas se trata de uma manipulação digital.

Como comentou à AFP Cristina Vélez, diretora da Linterna Verde, organização de monitoramento do debate na internet, a migração desta desinformação a outros territórios se deve à existência de grupos transnacionais que "trabalham contra o avanço do progressismo na América Latina".

Costumam buscar, acrescentou, informação para confirmar três vieses: "que há um bloco da esquerda internacional que quer tomar os países", "que há uma elite que quer passar por cima de (sua) soberania" e "que a família e os valores tradicionais estão em perigo".

"Petro serve a todos estes setores para construir narrativas. Da direita, a desinformação costuma dizer que ele tem vínculos com o governo da Venezuela, e Francia [Márquez] lhes serve para reforçar a ideia do caos dos valores", acrescentou a especialista.

De fato, na Venezuela foi reproduzido após a eleição de Petro um suposto tuíte, do qual a AFP não encontrou registro, no qual Márquez apontaria que os colombianos devem "acabar com o capitalismo" e os insta a viver como os venezuelanos: "sem cobiça, sem avareza, sem coisas materiais" e "só comendo o estritamente necessário".

Outro conteúdo que migrou para o exterior foi uma suposta foto de Petro ao lado do narcotraficante Pablo Escobar, amplamente divulgada no Brasil, com mensagens como: "Gustavo Petro, o protegido de Lula", mas se tratava de uma montagem na qual foi acrescentado o rosto do político colombiano.

Para Carlos Rodríguez, professor da Universidade de La Sabana, na Colômbia, esta passagem de fronteiras deve-se usualmente a "um motivo ideológico e usa-se como uma arma política para gerar medo, geralmente com o objetivo de influir no comportamento político eleitoral".

Este tipo de conteúdos, explicou Vélez à AFP, "serve, por exemplo, aos opositores de partidos de esquerda que estejam no poder para alimentar os ataques contra estes governos".

"Serve ao setor de direita no Chile para continuar falando mal da Convenção [Constitucional] e do plebiscito, que é em setembro. Também (serve) à campanha de Bolsonaro no Brasil e é uma forma de atacar o novo governo de Xiomara Castro em Honduras", disse a cientista política.

Na avaliação de Vélez e Rodríguez, a migração destes conteúdos sobre a dupla presidencial colombiana tem um precedente: houve um fluxo similar depois das presidenciais de dezembro de 2021 no Chile, quando a desinformação contra o presidente Gabriel Boric chegou à Colômbia devido à sua afinidade ideológica com Petro.

"Assim como se difundiu a ideia de que 'vamos nos tornar a Venezuela', na região também se usou a figura do 'atenção ao que está acontecendo no Chile com o presidente da esquerda' e chegará a ideia de que vamos virar uma Colômbia", acrescentou Rodríguez.

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