Desmaio, choro e promessas frágeis para claques marcam atos de Lula e Bolsonaro

***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 10.08.2022 - O presidente Jair Bolsonaro (PL). (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 10.08.2022 - O presidente Jair Bolsonaro (PL). (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Pessoas em meio a uma multidão num ato em Florianópolis desmaiam devido ao forte calor. Em outro lugar, distante dali, no interior paulista, um comício conta com apoiadores chorando, enrolados em bandeiras nas cores verde e amarela com o rosto de um candidato à Presidência.

Desmaios e choros, junto a gritos de histeria e raiva, têm sido comuns nas agendas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do presidente Jair Bolsonaro (PL), os líderes na disputa eleitoral deste ano.

O fanatismo demonstrado em alguns momentos faz, inclusive, com que muitos dos seguidores não se atentem às promessas feitas pelos candidatos, frágeis em sua essência.

No último domingo (18), ao menos quatro pessoas passaram mal durante evento de campanha de Lula na capital catarinense e desmaiaram, precisando de auxílio médico. O episódio repetia o que já havia ocorrido no último dia 2, em Belém, quando ao menos cinco pessoas passaram mal num ato petista.

A Folha de S.Paulo acompanhou 14 agendas de Bolsonaro e de Lula, sete de cada candidato, em dez estados entre 26 de agosto e o último domingo (18), observando quais eram as principais reações do público nos eventos.

Do lado bolsonarista, os pedidos mais comuns em faixas e cartazes eram de voto impresso e combate ao aborto e ao comunismo. Motociatas, com Bolsonaro sem capacete, também foram frequentes.

Do lado lulista, promessas de um país em que os brasileiros voltarão a fazer churrasco e tomar cerveja, além de cobranças por combate a fake news e da defesa do acesso à universidade e da participação de movimentos sociais e de estudantes, foram comuns nos atos.

Não foram incluídos no levantamento os protestos de 7 de Setembro no país, cujas pautas, porém, se repetiram nos eventos bolsonaristas. Em comum entre os candidatos, as críticas de um ao outro.

Bolsonaro diz que "a esquerda corrupta" não pode voltar ao poder, e Lula, que o atual presidente mente "sete vezes por dia". Ambos também afirmam que vão vencer a eleição já no primeiro turno.

No último dia 8, em Nova Iguaçu (RJ), Lula discursou para um público mais eletrizado por suas críticas a Bolsonaro do que por menções a políticas públicas que pretende adotar caso volte ao poder.

Naquele dia, o ex-presidente comparou os atos do 7 de Setembro bolsonarista a "uma reunião da Ku Klux Klan", referência ao grupo americano de supremacistas brancos que prega a inferioridade do povo negro, e chamou Luciano Hang, empresário próximo a seu rival, de "Véio da Havan" e "Louro José", o personagem em forma de papagaio que auxiliava a apresentadora de TV Ana Maria Braga.

Rosângela da Silva, a Janja, esposa de Lula, empolgou quando disse que ali não havia "princesa", só "mulher de luta", alfinetando Bolsonaro, que na véspera havia atribuído o título à primeira-dama, Michelle.

Um dos momentos de maior comoção, contudo, foi quando o petista renovou sua promessa de trazer "churrasco e cerveja" para os brasileiros. Juras de uma vida melhor, com mais bonança, arrancaram aplausos e até levaram os mais entusiasmados a bater na barreira de metal que delimitava o ato.

No dia seguinte, o ex-presidente participou de seu primeiro encontro de campanha com evangélicos, em São Gonçalo (RJ). Fiéis e pastores que lotaram o evento cobraram, entre outros pontos, uma resposta mais enérgica à fake news de que Lula, caso eleito, representaria uma ameaça à liberdade religiosa.

Diferentemente do que ocorre em atos de Bolsonaro, apoiadores do petista não costumam ir aos comícios com cartazes e faixas. O item mais comum é uma toalha estampada com o rosto do ex-presidente, além de camisetas com a face de Lula e a estrela do PT, com o vermelho, claro, como tom predominante.

As pautas desses apoiadores estão mais relacionadas à "vida do povo", como a campanha se refere a problemas como miséria, fome e desemprego. Muitos também defendem temas relacionados à educação, citando programas para essa área implementados durante as gestões petistas.

Em Belém, no dia 3, milhares de pessoas vestidas de vermelho aguardavam às 18h o ex-presidente numa área costeira da cidade. O ato começou às 20h e, mesmo sob forte calor, havia fila para entrar.

Cinco pessoas passaram mal, e uma delas chegou a ser anunciada no palco pelo próprio Lula. Perto dele, um homem segurava um cartaz: "Lula, te amo, deixa eu te abraçar". O petista foi ovacionado ao repetir que um dos seus objetivos é que as pessoas possam "comer um churrasquinho e tomar uma cerveja".

Do lado bolsonarista, a participação do presidente na Festa do Peão de Barretos foi marcada por eleitores enrolados em bandeiras com frases como "meu partido é o Brasil" ou com o nome e o rosto de Bolsonaro.

A arena projetada pelo comunista Oscar Niemeyer (1907-2012) foi tomada por um comício pró-reeleição, e alguns chegaram a chorar, como o vendedor Alexandre Carlos de Andrade, para quem Bolsonaro é "a única salvação para o Brasil". "Única e talvez a última. Se a esquerda voltar, vamos virar uma Venezuela."

No dia 9, em Axixá do Tocantins, apoiadores chegaram cedo ao local vestidos de verde e amarelo e camisetas com frases como "quero meu voto impresso" e "liberdade não tem preço". "Meu nome é Luciana Bolsanelo, mas poderia ser Bolsonaro, é sério. Pelo respeito que ele tem à família, à toda a população brasileira, e porque acredita que não precisa ter droga, não precisa ter ideologia de gênero", disse ela.

Em seu discurso em Araguatins, também no Tocantins, Bolsonaro afirmou que o PT seria varrido para o "lixo da história", ao que seus apoiadores respondiam: "PT nunca mais".

No Sul do país, o evento bolsonarista em Novo Hamburgo (RS) contou com bordões que se tornaram clássicos nos atos do presidente. Qualquer menção a Lula era recebida com euforia e cantos como "a nossa bandeira jamais será vermelha" e "Lula, ladrão, teu lugar é na prisão". Não houve menção a nenhuma proposta para o país do candidato à reeleição, mas isso não pareceu incomodar a claque.

Da mesma forma, na visita de Bolsonaro à feira agropecuária Expointer, em Esteio (RS), no último dia 2, temas como o preço da gasolina não despertavam a paixão dos eleitores como as críticas ao PT e a Lula.

Mesmo sob garoa, apoiadores aguardaram eufóricos a passagem de Bolsonaro pelo evento -o presidente tem grande apoio do agronegócio, como já havia ficado claro na Agrishow (Ribeirão Preto) e na Expozebu (Uberaba)--, e esse apoio parece ter aumentado após Lula ter dito que parte do setor é fascista.

A fala foi criticada por muitos presentes, que ecoavam gritos constantes de "mito, mito, mito". Foram também frequentes os ataques às pesquisas eleitorais, em especial ao Datafolha: muitos se referiam ao "Datapovo", dizendo que a recepção a Bolsonaro mostraria o tamanho do apoio ao presidente.