Desmatamento do cerrado cresce 15% no trimestre, mostra novo sistema

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O desmatamento no cerrado está avançando, movendo-se em direção à vegetação nativa e é impulsionado pelos grandes produtores e pela propriedade privada. É o que mostram os dados do Sistema de Alerta de Desmatamentos do Cerrado (SAD-Cerrado), lançado nesta segunda (12).

Segundo o monitoramento, feito via satélite e com inteligência artificial, a área em que foram registrados alertas de devastação do bioma cresceu 15% no último trimestre: de 253,4 mil hectares entre maio e julho de 2021, passou para 291,2 mil hectares no mesmo período de 2022.

No primeiro semestre deste ano já foram identificados 472,8 mil hectares de alertas de desmatamento —área que segue o mesmo patamar do ano anterior.

Além disso, 70% dos registros são de pedaços de terra superiores a dez hectares e 78,9% estão inseridos dentro de áreas privadas —o que indica que não são fruto do efeito de pequenos produtores rurais ou comunidades tradicionais.

"Não só o desmatamento no cerrado tem aumentado, como também tem se movido para o Norte, na chamada região Matopiba, onde temos ainda boas porções de cerrado intactas que estão sendo objeto de especulação imobiliária e avanço do agronegócio", afirma André Guimarães, diretor do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).

O Matopiba compreende os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, representa 30% do cerrado e registrou 65% do desmatamento do bioma neste ano, indicam os dados.

Como mostrou o jornal Folha de S.Paulo, durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), o crescimento do desmatamento ameaça não só o Matopiba, mas também a região chamada de Amacro (Amazonas, Acre e Rondônia), outra área com forte presença de mata nativa.

Relatório do MapBiomas, divulgado em julho deste ano, indica salto de 29% no desmatamento da Amacro de 2020 para 2021. A região concentrou, no ano passado, 12,2% do total desmatado no país e 20,8% do que foi derrubado na Amazônia.

Segundo essa mesma análise, o Matopiba concentrou 23,6% do total desmatado no país em 2021 e 72,5% do que foi perdido no cerrado. Em comparação com 2020, houve aumento de 14% no desmatamento nessa região.

Sob Bolsonaro, a Amazônia também vem registrando recordes de desmatamento e incêndios, assim como o pantanal.

Em todo o país, nos três primeiros anos de governo, houve um aumento do número de municípios com alertas de desmatamento, de acordo com o Mapbiomas. Eram 1.734 (31,1% do total) em 2019 e saltaram para 2.889 (51,9%) em 2021. Nestes três anos, 61,2% dos municípios brasileiros tiveram pelo menos um desmatamento detectado.

Também ficaram mais frequentes, por exemplo, os grandes desmatamentos —com mais de cem hectares (cerca de cem campos de futebol). Houve um aumento de 43,5% na quantidade desses alertas entre 2019 e 2021. Eles representavam 44,2% do total desmatado no país em 2019, passaram para 46,6% em 2020 e para 51,7% em 2021.

Ou seja, os dados do SAD mostram que o cerrado segue a mesma tendência identificada pelo MapBiomas para o Brasil, com o crescimento dos grandes desmatamentos em direção às áreas nativas.

"No cerrado, o desmatamento está acontecendo principalmente nas savanas, 70%, e principalmente nos estados do Maranhão e Tocantins, com muita diferença para o resto, lembrando que são os estados que mais vegetação nativa remanescente têm", completa Juan Doblas, pesquisador do Ipam.

A mata nativa representa atualmente cerca de 53% do cerrado —ou 26% da vegetação nativa do país—, bioma mais diverso do Brasil.

O SAD Cerrado foi criado pelo Ipam em parceria com o MapBiomas e o Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento (Lapig) da Universidade Federal de Goiás.

Doblas ressalta que o sistema funciona de forma complementar e paralela às medições do Prodes (Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite), do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o programa realizado pelo governo federal.

A diferença é que, enquanto a maioria dos métodos de monitoramento da vegetação é feito por identificação humana, o SAD criou uma inteligência artificial capaz de identificar áreas de provável desmatamento e gerar os alertas.

Ainda, o computador é capaz de excluir da conta os incêndios naturais e a perda de vegetação fruto das secas sazonais.