Desmatamento no Brasil aumentou 14% em 2020, e país perdeu 24 árvores por segundo

·4 minuto de leitura

SÃO PAULO — O desmatamento no Brasil aumentou 14% em 2020, ano em que o país perdeu 24 árvores por segundo, indicam dados novos do projeto MapBiomas. Pelo segundo ano seguido, a iniciativa divulga números de derrubada de vegetação nativa para todo território nacional, sugerindo que a taxa de ilegalidade nessas operações é extremamente alta.

Desde o ano passado, o programa de monitoramento do uso da terra liderado pelo engenheiro florestal Tasso Azevedo está produzindo alertas de desmate semelhantes aos que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) produz para a Amazônia. O projeto independente, porém, recolhe dados também para todos os outros biomas do Brasil. Neste ano, a soma da área dos mais de 74 mil alertas emitidos pelo sistema foi de 13.853 km², contra 12.151 km² em 2019.

Para identificar se um desmate é ilegal, o MapBiomas realiza um cruzamento das áreas desmatadas com informações de outros bancos de dados, como o Cadastro Ambiental Rural (CAR), com o objetivo de estimar quanto da mata derrubada no país deveria implicar em infração penal. A taxa média de ilegalidade é altíssima e se refere a 99,8% da área total desmatada no país.

Essas são as as áreas de desmatamento que se sobrepõem a terras indígenas, unidades de conservação, áreas sob plano de manejo para extração sustentável de madeira ou estão em segmentos protegidos em terras particulares (reserva legal ou área de proteção permanente).

Com todas essas categorias fundiárias, um simples cruzamento de dados foi capaz de apontar indício de ilegalidade, afirma Azevedo.

— Em dois terços desses casos, a terra desmatada possui registro no sistema do Cadastro Ambiental Rural (CAR), e é possível identificar diretamente os responsáveis, mas o Ibama só autuou ou embargou terras em 2% dos casos — diz o pesquisador.

— Hoje, com esse instrumento que a gente desenvolveu e com outros que já existem, não há limitação tecnológica de informatização e coleta de dados que impeça a fiscalização. Penalizar e agir, hoje, é uma questão de vontade política. — completa. — Mas a impunidade está imperando no Brasil. Ela é, de longe, o principal motor do crescimento do desmatamento, pois o proprietário de terra tem a sensação de que pode desmatar, que ninguém vai fazer nada, e, se fizer, depois será anistiado.

Segundo os dados divulgados na manhã desta sexta-feira pelo MapBiomas, o bioma mais desmatado em 2020 foi, como se esperava, a Amazônia. Os 843 mil hectares de vegetação nativa derrubada na floresta representaram uma parcela de 61% do total, um aumento de 9% em relação ao ano anterior.

O bioma onde o desmate teve maior crescimento relativo, porém, foi a Mata Atlântica, onde o corte raso foi feito em uma área 125% maior que no ano anterior e é especialmente preocupante pois a Mata Atlântica concentra o maior número de áreas de risco de perda de diversidade em função da crise climática no país. Nos domínios da Mata Atlântica vivem 72% dos brasileiros e é gerado 70% do PIB nacional. Mas dela restam apenas 12,4% do bioma original.

O desmatamento também cresceu 6% no Cerrado, 43% no Pantanal e 99% no Pampa. "Na Caatinga o crescimento foi de 405%, mas isso reflete um novo sistema de detecção de desmate por satélite criado só para ela", afirma comunicado divulgado pelo projeto. Um quinto dos desmatamentos ocorreu em unidades de conservação ou em terras indígenas.

Pará é campeão no desmatamento

Este foi o segundo ano em que o MapBiomas emitiu seu relatório anual sobre desmatamento em todo o Brasil. O sistema funciona com base em dados de cinco sistemas de detecção do desmatamento por satélite que são processados por um sistema de inteligência artificial.

O estado que mais desmatou neste ano foi o Pará. Um grupo de 50 municípios foi responsável por metade da área desmatada no Brasil em 2020, e 12 deles são paraenses. Os piores foram Altamira (PA), com 60.608 hectares de mata derrubada, e São Félix do Xingu (PA), com 45.587 hectares.

Só três municípios da lista dos 20 mais devastados ficam fora da Amazônia: Formosa do Rio Preto (BA) e São Desidério (BA), no Cerrado, e Corumbá (MS), no Pantanal. Dos três maiores eixos de desmatamento no país, dois se concentram em torno de estradas: a Transamazônica, que vai de leste a oesta da região, e a BR 163, que liga o interior de Mato Grosso ao rio Amazonas. O terceiro é no cerrado, e vai do oeste da Bahia até quase o litoral do Maranhão.

— Nessas regiões o desmatamento está mesmo fervilhando — diz Azevedo, para quem os indícios de ilegalidade são patentes. — Uma boa parte da ação de penalização não requer grande estrutura e as autuações podem ser feitas remotamente, até mesmo pelo correio, mas isso não está sendo feito.