Desmate na Amazônia bate recorde e cresce 29,5% em 12 meses

PHILLIPPE WATANABE E MATHEUS MOREIRA
*ARQUIVO* PORTO VELHO, RO, 09.09.2019 - Queimada registrada em setembro na floresta Amazônia. (Foto: Bruno Rocha/Fotoarena/Folhapress) 1792466

SÃO PAULO E SÃO JOSÉ DOS CAMPOS, SP (FOLHAPRESS) - Entre agosto de 2018 e julho de 2019 o Brasil bateu o recorde do desmatamento na Amazônia desta década. Segundo o sistema de monitoramento Prodes, que oferece o dado mais preciso, consolidado e com nível de confiança superior a 95%, foram destruídos 9.762 km², um aumento de 29,5% em comparação com o período anterior.

O aumento percentual desse ano é o terceiro maior da série histórica, iniciada em 1988. Aumentos tão acentuados só foram vistos nos anos de 1995 e 1998.

Os dados anuais do desmate foram divulgados nesta segunda (18), em São José dos Campos, na sede do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). As informações são projeções, e os dados consolidados devem ser divulgados em maio de 2020. O evento teve a presença dos ministros Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Marcos Pontes (Ciência), além de Darcton Damião, diretor interino do Inpe.

Para Salles, o aumento ocorreu devido à "economia ilegal" na Amazônia. O ministro anunciou que na próxima quarta (20) fará uma reunião em Brasília para tratar ações e medidas contra o desmatamento, entre as quais está a volta do TerraClass (que qualifica o desmatamento na Amazônia Legal) e o repasse de recursos do Fundo Petrobras para sua reativação. Além disso, o ministro disse que há negociações para transferir parte dos órgãos ambientais e do setor de ecoturismo para uma sede na Amazônia.

Questionado sobre as falas do presidente Jair Bolsonaro durante a campanha em 2018 e nos primeiros meses de governo terem influência na alta no desmatamento, o ministro voltou a dizer que grande parte dos problemas vem de gestões anteriores.

Na campanha presidencial, Bolsonaro criticou a fiscalização ambiental feita pelo Ibama, disse que o país tem muitas unidades de conservação e terras indígenas e cogitou fundir o Ministério do Meio Ambiente com o da Agricultura, mas recuou. Durante o período eleitoral, de agosto a outubro, o desmate cresceu 48,8% em comparação com o mesmo período do ano anterior.

Bolsonaro não mudou o tom após a vitória, continuou a criticar o Ibama e o funcionário que lhe aplicou uma multa ambiental em 2012 foi exonerado.

O presidente também sinalizou que atenderia os anseios de garimpeiros cujo maquinário foi destruído pelo Ibama e atacou os dados de desmatamento produzidos pelo Inpe que já indicavam tendência de alta em seu mandato.

Segundo Bolsonaro, os dados eram incorretos, exagerados e prejudicavam a imagem do país. O presidente também sugeriu que o então diretor do Inpe, o engenheiro Ricardo Galvão, poderia estar a serviço de alguma ONG. Galvão se defendeu das críticas em entrevistas à imprensa e acabou sendo exonerado.

A gestão Bolsonaro também transferiu órgãos do Ministério do Meio Ambiente para outras pastas e paralisou o Fundo Amazônia, que recebia dinheiro da Noruega e Alemanha para estimular ações de controle sobre desmatamento e uso sustentável do bioma.

Ainda assim, a culpa pela alta da destruição da floresta amazônica não pode ser atribuída exclusivamente ao atual presidente. A tendência de aumento da destruição é percebida desde 2012. Segundo Raoni Rajão, pesquisador da UFMG, a taxa pode ter suas origens ainda nos governos do PT e na influência do agronegócio no Congresso.

Mas, para Rajão, os governos petistas mantiveram uma política de combate ao desmatamento focada no comando e controle. Em meio a elevadas taxas de destruição, a ex-ministra Marina Silva criou o Deter (Detecção do Desmatamento na Amazônia Legal em Tempo Real), em 2004, para aprimorar o trabalho do Ibama na ações de contenção do desmate.

Segundo Rajão, a situação mudou no governo Dilma Rousseff. "Ela nunca tratou a questão ambiental como primordial." Segundo ele, Temer chegou a ceder a pressões do agronegócio e do setor de mineração para extinguir a Renca (Reserva Nacional do Cobre e Associados), na Amazônia, e reduzir a proteção de trecho de floresta do Parque Nacional do Jamanxim. Após repercussão negativa, o então presidente desistiu das medidas.

O pesquisador cita a anistia a desmatadores como outro fatores que pode ter tido impacto no aumento da degradação nos últimos anos.

Além do desmate recorde entre 2018-2019, o pesquisador diz que as taxas para o próximo ano já são preocupantes, considerando que os meses de agosto e setembro apresentaram acentuados aumentos de destruição, e serão contabilizadas no Prodes 2019-2020.