Com menos público do que merecia, Elza Soares é velada como rainha no Rio de Janeiro

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<p>Integrantes da Mocidade Independente de Padre Miguel homenageiam Elza Soares</p>
Integrantes da Mocidade Independente de Padre Miguel homenageiam Elza Soare

Ao lado de sua coroa e trajada como a ‘Mulher do Fim do Mundo’, Elza Soares fez seu último ato no foyer do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, no Centro da Cidade, nesta sexta-feira (21), onde foi velada. A artista morreu de causas naturais em sua casa, no Recreio dos Bandeirantes, e deixa um legado de música, força e posicionamento político e social.

Com menos público do que merecia no adeus, Soares foi velada como rainha. A coroa, ao seu lado direito, foi um presente da Monarquia Britânica de rainha para rainha. Elizabeth II enviou a peça como agradecimento por uma ação de divulgação da série ‘The Crown’, da Netflix. O nome da brasileira foi escolhido por sua Majestade em pessoa.

Fãs e admiradores de todas as idades e cores a deram seu último adeus entre orações e desejos de uma boa passagem. Com olhares de pesar ao se despedirem da artista, celebraram seu legado: “Me despedir de Elza é o mínimo que poderia fazer. O legado que fica, para todos nós, mulheres, é eterno. Não estou triste, nada de tristeza, porque tudo que ela deixou de ensinamento nos resta apreender. Principalmente o fazer o bem ao próximo”, contou Aurea Brito, 77 anos, aposentada.

Com lágrimas nos olhos, Mateus Rebouças, estudante de 20 anos, contou que descobriu a artista há cerca de sete anos e pretende propagar a voz dela aos amigos. “Elza emociona a gente. É uma grande perda para todos nós. Ela é uma escola e se encaixa em todos os lugares, em tudo ela se aplica. Ela nos ensina sobre a negritude, sobre as vivências, sobre as mulheres, sobre a vida. Ela é vida”, afirmou.

Elza esteve sob o manto de sua escola de samba do coração, a Mocidade Independente de Padre Miguel, durante todo o tempo, inclusive no cortejo que levou seu corpo em um carro aberto do corpo de bombeiros ladeado por seis batedores da Guarda Municipal da Cidade. Palmas e gritos de ‘Viva Elza’ ecoaram pelas escadarias do Theatro Municipal na sua partida, que foi ao som triste de uma cuíca. O instrumento é usando no samba também em momentos de lamento. .

Matriarca de uma grande família, ela deixa quatro filhos, oito netos e seis bisnetos para manterem seu legado vivo. “Tenho a sensação que ela preparou o terreno para a nossa geração, sabe? para as outras gerações é isso é muito bonito. É claro que não queríamos que ela tivesse uma vida tão dura, de tanta luta, mas é uma vida cheia de glória também. Temos que lembrar disso. De tudo que ela conquistou para que tenhamos uma vida mais leve, um terreno já preparado. Este é o grande legado, além do legado artístico que não dá para se medir”, refletiu Taís Araújo.

<p>Velório de Elza Soares no Teatro Municipal do Rio de Janeiro</p>
Velório de Elza Soares no Teatro Municipal do Rio de Janeir

Cantar até o fim

Nos últimos minutos do velório da grandiosa Elza, música. Larissa Luz, Késia e Verônica Bonfim cantaram clássicos dela como ‘Mulher do Fim do Mundo’, onde Soares promete cantar até o fim. Elas, que viveram a veterana no teatro como o musical ‘Elza’, contaram com a ajuda do cantor e compositor Caio Prado. A peça foi uma das várias homenagens que ela recebeu ainda é vida e viajou o Brasil tenho mais de 130 mil espectadores.

Lázaro Ramos, ressaltou o quão grande ela foi e o que deixa. “Difícil conseguir definir Elza. Uma mulher que, por tantos anos, só trouxe exemplo pra gente no ativismo, na música. Ela é um fenômeno porque todas as gerações se apaixonaram por elza em algum momento. E é muito impressionante ver da nossa filha, aos nossos pais e mães apaixonados por elza e ela sempre se renovando. ela é muito”, concluiu.

Morte por causas naturais

A cantora Elza Soares morreu aos 91 anos nesta quinta-feira (20), no Rio de Janeiro, de "causas naturais". A informação foi confirmada pela assessoria de imprensa da cantora em suas redes sociais.

"É com muita tristeza e pesar que informamos o falecimento da cantora e compositora Elza Soares, aos 91 anos, às 15 horas e 45 minutos em sua casa, no Rio de Janeiro, por causas naturais", diz o anúncio.

"Ícone da música brasileira, considerada uma das maiores artistas do mundo, a cantora eleita como a Voz do Milênio teve uma vida apoteótica, intensa, que emocionou o mundo com sua voz, sua força e sua determinação. A amada e eterna Elza descansou, mas estará para sempre na história da música e em nossos corações e dos milhares fãs por todo mundo. Feita a vontade de Elza Soares, ela cantou até o fim", finaliza o comunicado, assinado por Pedro Loureiro, Vanessa Soares, familiares e Equipe Elza.

Antes de morrer, Elza Soares declarou apoio para Linn da Quebrada no BBB: “Te amo”

O velório da cantora Elza Soares será no Theatro Municipal do Rio de Janeiro na sexta-feira (21), das 8h às 10h será fechado para familiares e amigos e das 10h às 14h será aberto ao público.

O translado para o cemitério Jardim da Saudade de Sulacap será feito pelo carro do Corpo de Bombeiros com trajeto passando pela Av. Atlântica. O velório no cemitério, assim como o enterro, serão restritos aos familiares e amigos.

Em dezembro, Elza havia testado positivo para a Covid-19, mas por estar com as três doses da vacina, ficou assintomática.Em suas redes, ela fez um apelo para as pessoas. "Você precisa escutar isso. Foi um susto pavoroso, mas ao mesmo tempo passei sem sintomas e venci o vírus. Eu tive Covid e as vacinas salvaram a minha vida. Fiz questão de gravar esse depoimento, de mostrar meu exemplo e pedir para que todos se vacinem. Essa doença horrorosa é muito perigosa", pediu.

Elza exaltou o poder da ciência, e ressaltou o fato de ter sobrevivido sem sequelas mesmo fazendo parte do grupo de risco.

Carreira

Elza Soares nasceu em 1937, na favela Maria Bonita, no Rio de Janeiro. Filha de um operário e de uma lavadeira, lutou para sobreviver antes de ser reconhecida como grande artista. Aos 12 anos, foi obrigada pelo pai se casar e, um ano depois, teve o seu primeiro filho, João Carlos.

Ao todo, Elza deu à luz a nove crianças. Cinco delas morreram - três de fome. A sua carreira teve início aos 16 anos, em 1953, quando participou do programa “Calouros em desfile”, de Ary Barroso, na Rádio Tupi, e ganhou o primeiro lugar. Com a visibilidade, ela conseguiu um emprego como crooner na Orquestra Garam de Bailes, do maestro Joaquim Naegli.

Ela trabalhou por um ano com Naegli - até ficar grávida. Porém, logo após ser liberada pelos médicos após o parto, Elza voltou a trabalhar com arte - sendo escalada para contracenar com Grande Otelo na histórica peça “Jour-jou-Fru-fru”, de Silva Filho. Após sair de cartaz, ela acompanhou a Companhia de Mercedes Batista em uma turnê na Argentina.

O seu primeiro disco de estúdio, "Se acaso você chegasse”, foi lançado logo após ela retornar ao Brasil, em 1959, pela Odeon. Com o sucesso da música-título, composta por Lupicínio Rodrigues, ela começou a ganhar reconhecimento e fama pelo Brasil. A sua vida, porém, mudaria, definitivamente, em 1962.

Representando o Brasil na Copa do Mundo no Chile, ela conheceu Garrincha, com quem viveu um romance intenso e conturbado. Os dois se casaram em 1966 e só se separaram em 1982, após seguidas traições do jogador, que sofria com o alcoolismo. Durante o relacionamento, bastante acompanhado pela mídia, elas chegaram até a ser alvos do DOPS, órgão repressivo da ditadura militar.

Em entrevista ao "Programa do Porchat", a artista explicou porque ela e Garrincha precisaram se mudar de casa no Rio de Janeiro após um ataque até hoje mal esclarecido.

“Nós estávamos dentro da casa (na hora do ataque). Eu morava no Jardim Botânico e brincava com as crianças na rua. Depois, entramos e começamos a ouvir um barulho de tiroteio. Minha casa foi toda baleada. Fiquei completamente apavorada por causa dos filhos, das crianças", contou ela.

Sucessos

Entre os seus grandes discos, destacam-se "Sambossa", do sucesso "A corda e a caçamba"; “Na roda do samba”, de 1964, quando gravou os sucessos "Pressentimento" e "Princesa Isabel"; e "Lição de Vida", (relançado no ano passado), de 1976, lembrado pela mais icônica faixa da sua carreira: "Malandro", composta por Jorge Aragão e Jotabê.

Mais recentemente, Elza Soares lançou um clássico da música contemporânea, "A Mulher do Fim do Mundo", de 2015. Com a companhia de alguns dos compositores mais importantes da atualidade, como Kiko Dinucci, Douglas Germano, Rodrigo Campos e Rômulo Fróes, a cantora renovou o seu público, lotou shows pelo Brasil e ganhou o Grammy Latino 2016 na categoria Melhor Álbum de Música Popular Brasileira.

O seu último trabalho de estúdio foi "Planeta Fome", de 2019, na qual a cantora divaga e tenta adivinhar o futuro. Mesmo olhando para a frente, ela parece olhar para toda a sua vida e carreira na faixa "Virei o jogo".

Feminismo

Elza Soares sempre foi considerada um ícone do feminismo. Não por acaso. A cantora conseguiu dar a volta por cima, mesmo após ter uma infância e adolescência difíceis, além de ter sofrido ao longo de seu casamento com Garrincha, alcoólatra, abusos físicos e morais.

O discurso contra a violência doméstica não surgiu do nada. Ao falar de Garrincha, Elza gostava só de lembrar dos momentos felizes, mas é fato que a história do casal foi repleta de altos e baixos.

Infância e adolescência roubadas: casamento aos 12 e fome

Aos 12 anos, Elza foi obrigada a se casar pela primeira vez, a mando do pai, após ter sofrido uma tentativa de abuso sexual por Lourdes Antônio Soares, amigo da família.

O objetivo do matrimônio era "não manchar sua honra", como dizia o pai. Ela se tornou mãe aos 13 e passou a se dedicar a isso, mesmo com todas as dificuldades. Dos sete filhos que teve ao longo da vida, perdeu 3, sendo que dois, ao que contam os relatos, foram de fome.

Quando viu dois filhos acamados por pneumonia, sem dinheiro para comprar os remédios, ela se inscreveu escondida da família no programa musical de Ary Barroso na Rádio Tupi. Ao ser questionada de onde vinha, ela disse, sem pensar duas vezes: “Do planeta fome". Sua participação lhe rendeu um prêmio em dinheiro, imediatamente convertido em remédios para os filhos. Um deles reagiu à medicação e o outro, infelizmente, morreu. A cantora ficou viúva aos 21 anos, quando Antônio Soares morreu de tuberculose.

Em 1962, ela conheceu, então, Garrincha. O jogador era casado e Elza foi esculachada pela opinião pública pelo relacionamento. Quatro anos depois do namoro, oficializaram a união, que foi motivo de revolta para os fãs e a imprensa, que acusaram Elza de ter acabado com o casamento do futebolista. A perseguição chegou a tal ponto que Elza foi impedida pela multidão de realizar um show na Mangueira e teve de sair disfarçada para escapar do público.

O relacionamento de 16 anos com o jogador foi cheio de abusos físicos e psicológicos da parte dele, principalmente quando estava alcoolizado. A cantora ainda perdeu a mãe em um acidente de carro enquanto o jogador dirigia alcoolizado. A relação ficou abalada e os dois viveram um tempo separados antes de reatarem a relação. O casamento terminou oficialmente em 1982, por conta do comportamento abusivo e violento do jogador, que morreu um ano depois de cirrose.

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