Destaque em 'Nos tempos do imperador', Alan Rocha luta por protagonismo preto: 'Mostrar os nossos heróis'

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RIO — Não foi preciso fazer promessa para Nossa Senhora da Penha, nem subir os 382 degraus do santuário católico de joelhos para ter o nome escrito na abertura de “Nos tempos do imperador”. A fé cristã acompanha os passos de Alan Rocha, intérprete do ativista Balthazar na novela das 18h da TV Globo, e é celebrada anualmente com missa no cartão-postal da Zona Norte no dia do seu aniversário, 26 de agosto.

Vamos combinar que uma forcinha divina sempre cai bem, não é mesmo? Mas foi a música, ou para não pecar por ausência de precisão, foi o cavaquinho que conduziu o morador da Penha, nascido no bairro, no Hospital Getulio Vargas, e criado na Vila da Penha, para o caminho das artes. Formado pela Escola de Música Villa-Lobos e com licenciatura em Música pela UFRJ, o músico, premiado por sua atuação no espetáculo “A cor púrpura”, virou ator graças ao instrumento que é um companheiro de vida.

Na história de época, ambientada em 1856, o líder da Pequena África, ao mesmo tempo em que é atuante na luta contra a escravidão, se encontra com a sua cultura, com sons de influência africana, através do parceiro com o qual tem uma relação que nunca desafina. Já fora da TV, o amigo de cordas do artista se faz presente nos pagodes, na carreira solo de cantor ou na Orquestra Popular Céu na Terra, da qual faz parte.

— O meu interesse por tocar cavaquinho me levou para um encontro com a música e com a arte de um modo geral. Cresci ouvindo samba. Então, com o passar do tempo, foi nascendo em mim uma vontade de estar mais perto deste universo musical. Comecei a ter aulas de cavaquinho aos 17 anos, e o professor logo me incentivou a estudar de forma acadêmica. Eu me tornei músico profissional, sempre mergulhado no pagode, no samba e no choro, e foi o cavaquinho que também me levou para a arte de representar. Eu participava de uma peça como músico, mas um belo dia um ator faltou e eu fui colocado em cena para atuar. Não parei mais. Uma coisa está tão ligada à outra na minha vida que o meu primeiro papel de destaque na TV é na pele de um homem que forma um trio de chorinho — conta o artista, de 40 anos, que já foi operador de telemarketing e funcionário de uma fábrica de pipas e estreou na TV Globo fazendo uma participação em “Malhação — Viva a diferença” (2017).

O trabalho em “Nos tempos do imperador” desperta um misto de sentimentos em Rocha.

— Balthazar é um homem livre, com uma forte postura política. Ele quer que todos os negros conquistem o direito à liberdade. A novela traz uma importante contribuição à sociedade ao tocar nesta ferida, e isso é belo. Mas eu fico triste em ver através da novela passagens tão terríveis que os meus antepassados vivenciaram. A escravidão é, sem dúvida alguma, um dos capítulos mais dolorosos da história da humanidade. Trazer este tema para o debate é muito pertinente, mas também é preciso contar outras histórias do povo preto. É necessário mostrar os nossos heróis, as riquezas dos nossos antigos reinos africanos. Grande parte do nosso protagonismo foi jogado para debaixo do tapete. Precisamos resgatar o que nos foi tirado — observa o ator, que está no Instagram no perfil @alanrocha8.

Rocha ajuda a contar a saga de um herói preto pouco conhecido no recém-lançado filme “Doutor Gama”, que pode ser visto na Globoplay.

— Pouca gente sabe quem foi Luiz Gama, o primeiro advogado negro do Brasil e um dos personagens mais importantes da História brasileira. Ele usou as leis e os tribunais para libertar mais de 500 escravos. Eu me orgulho de fazer parte do elenco do filme que enaltece o protagonimo deste homem — diz.

Saudade dos pagodes e das festas

Se em “Nos tempos do imperador” o personagem de Alan Rocha cria um trio de chorinho, fora da ficção, o ator e músico, ainda que seja fã de carteirinha do som que teve Pixinguinha (1897-1973) como ícone, é apaixonado mesmo por um bom pagode.

— Eu me encantei por esse gênero musical nos anos 1990 ouvindo os grupos Katinguelê, Exaltasamba. Negritude Jr, Sensação... Tive um grupo de pagode, Sigma. A gente ensaiava em Rocha Miranda, Coelho Neto, e foi uma época muito boa. Mas o grupo não fez sucesso e, como eu estava fazendo a minha formação acadêmica em Música, sempre queria incluir um clássico no repertório, e a galera tinha uma certa resistência às minhas sugestões. O grupo acabou, mas deixou saudade — observa.

Outra recordação que Rocha guarda com carinho é de curtir as festas da Igreja da Penha, que tradicionalmente acontecem em outubro.

— Eu me lembro perfeitamente das rodas de samba, choro, jongo e capoeira que aconteciam na festa. Antigamente, os festejos duravam o mês inteiro e invadiam as ruas do bairro. Infelizmente, mesmo antes da pandemia a festa já tinha diminuído muito de tamanho, limitando-se à área externa da paróquia. A violência fez com que as festividades populares, de muitos bairros, não só da Penha, encolhessem — lamenta. — O primeiro ponto turístico que dá para ver quando se chega ao Rio pelo Aeroporto Internacional é a Igreja da Penha. Esse lugar deveria ser motivo de orgulho para os cariocas.

Não à toa, o marido da empreendedora Josiane Rocha e pai de Ângelo Amani, de 10 anos, e Júlio Akil, de 8, que viveu a maior parte da sua vida na Vila da Penha, mudou-se para o bairro sede do famoso santuário católico há pouco mais de uma década, justamente quando o primogênito nasceu.

—Batizei o meu filho mais velho na Igreja da Penha, que tem grande significado para a cultura brasileira. Muitos mestres do samba iam à festa e subiam aquela escadaria cantando. Além disso, o santuário foi erguido pelo povo preto, pelos meus ancestrais. Desde os 18 anos, eu assisto a uma missa lá no dia do meu aniversário para agradecer pela minha vida. Nunca fiz promessas, mas tenho fé e devoção — frisa.

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