Destaque no mundial de rugby em cadeira de rodas, Gabriel Feitosa foca no Parapan e Paris-24

Gabriel Feitosa durante participação do Brasil no Mundial de Rugby de Cadeira de Rodas (Foto: Thelma Vidales))
Gabriel Feitosa durante participação do Brasil no Mundial de Rugby de Cadeira de Rodas (Foto: Thelma Vidales)

Nem bem terminou a inédita participação no Campeonato Mundial de rugby em cadeira de rodas, disputado em outubro em Velje (Dinamarca), no qual a seleção brasileira terminou em 11º lugar, o momento pede pausa breve e planejamento futuro. Este é o pensamento do paulista Gabriel Feitosa, de 21 anos, destaque da competição na atuação contra a Alemanha e na vitória de 48 a 44 sobre a Suíça (a primeira e histórica) na despedida da competição que teve 12 países.

Os próximos objetivos a que se refere o atleta, que foi campeão brasileiro ano passado (pela equipe Vikings-RJ) e ganhador do prêmio paralímpico, são os Jogos Parapan-Americanos a serem realizados em novembro do ano que vem em Santiago (Chile). Quem ganhar a medalha de ouro se classifica para a Paralimpíada de Paris 2024. A única vez que o Brasil marcou presença nos Jogos foi em 2016, no Rio de Janeiro, por ser país-sede.

Quanto ao mundial, os australianos garantiram o título, além do bicampeonato batendo os Estados Unidos na final, equipe que buscava o penta. De quebra asseguraram estadia na Paralimpíada de Paris daqui a dois anos. Já os japoneses, campeões da edição anterior, ficaram em terceiro ao superarem os donos da casa.

Ausente das Paralimpíadas de Tóquio-2021, os brasileiros conquistaram o direito de disputar a inédita competição ao obterem o terceiro lugar no campeonato das Américas em março (Medellín, na Colômbia). Na ocasião, o selecionado teve de superar triste acontecimento com o falecimento de Luiz Claudio Pereira, ex-presidente da ABRC. Era o Chefe da delegação, fora ex-atleta paralímpico de arremesso de peso, lançamento (dardo e disco) e pentatlo – quinto maior medalhista do país (com nove, ao todo) em paralimpíadas.

Segundo o presidente da ABRC (Associação Brasileira de Rugbi em Cadeira de Rodas) e que também atuou como atleta no evento dinamarquês, José Higino, a presença no mundial demonstra que a modalidade está crescendo no país e o caminho que tem pela frente. O resultado pode significar, à primeira vista, “longe do topo, mas é grande passo”.

Para ele, o campeonato permitiu ainda ter contato com as seleções top cinco e aprendizado de vários itens, entre os quais logística, técnica, scout e materiais esportivos. “Nós precisamos subir degrau por degrau, devagar para chegar à maturidade no jogo”, explica.

Na opinião do técnico Rafael Gouveia, a proposta era terminar em nono lugar. Ele alterou a estratégia tática com rigor na disciplina para barrar os suíços na vitória (high low). No entanto, o importante foi a experiência enriquecedora e o conhecimento de staffs, equipamentos, nutrição e psicologia: “A semente que plantamos na Dinamarca dará frutos”. Agora, o planejamento é descansar para então falar nos desafios do Parapan que classifica para os Jogos da França.

História

O rugby em cadeira de rodas surgiu em 1970 como alternativa ao basquete para cadeirantes. O esporte da bola laranja não conseguia incluir atletas com maior comprometimento motor, especialmente nos braços. Foi criado então no Canadá o rugby para cadeirantes, que se tornou o rugby paralímpico em 1996, estreando como esporte-exibição em Atlanta (EUA). Quatro anos depois passa a ser oficial em Sydney (Austrália). Chegaria ao Brasil apenas em 2008 com o olhar voltado à Olimpíada do Rio de Janeiro.

A seguir, bate-papo com o atleta Gabriel Feitosa.

Yahoo Esportes – Como você chegou ao rugby?

Gabriel Feitosa – Antes de fazer parte do rugby em cadeira de rodas, fiz natação, e por um projeto na escola onde eu estudava, uma professora me ajudou a entrar no vôlei sentado, que foi o meu primeiro contato com uma seleção brasileira; fui chamado para compor o elenco da seleção de jovens. E fizemos uma matéria na época, para o Esporte Fantástico, da Rede Record (2017). E, com a reportagem, o ex-auxiliar da comissão técnica de rugby viu e achou a minha deficiência “perfeita” para o rugby, até porque os atletas congênitos são os que têm mais destaque no rugby. Chegou um momento da minha vida, que eu fazia os três esportes ao mesmo tempo. E isso foi bem puxado, porque além de fazer os esportes, eu cursava ensino médio e era jovem aprendiz do Metrô de SP. Então foi fase puxada (NR: Ele chegou à seleção em setembro de 2018).

Por favor, pode descrever a deficiência? E o que fez para superá-la usando o esporte como ferramenta inclusiva?

Tenho má formação congênita nos quatro membros, também chamada de anomalia congênita. O esporte faz parte do meu cotidiano, pois através dele consigo superar barreiras e atingir desenvolvimento pessoal e profissional.

Você vive do rugby? Trabalha em outra atividade?

É difícil no Brasil se viver de rugby; recebemos uma bolsa para os três primeiros colocados no campeonato nacional. Mas infelizmente esse dinheiro não dá para sobreviver. Através do rugby consegui emprego na Keeggo e lá trabalho na parte jurídica. Tenho curso Superior de Direito.

Tem algum ídolo no esporte?

Sou fã de alguns como o Zak Madell (Canadá) e Ryley Batt da Austrália - campeão mundial -, que tem a mesma deficiência (classificação funcional 3.5) que a minha, e pude jogar contra ele (roubando duas bolas dele). Vê-lo pessoalmente atuando foi sensacional. Meus outros ídolos são companheiros de equipe e seleção.