Destruição de Brasília financiada por Pix deixa rastro para investigação

Apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro entram em confronto com forças de segurança do lado de fora do Congresso Nacional em Brasília

Por Gabriel Stargardter e Marcela Ayres

BRASÍLIA (Reuters) - Com a bandeira do Brasil pendurada no pescoço e os pés apoiados em uma mesa de madeira escura, Samuel Faria recostou-se na cadeira cerimonial do presidente do Senado que ele acabara de tomar para si e observou o caos no gramado fora.

"O pau (tá) quebrando lá", disse ele, observando de seu posto no Senado enquanto outros apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro vestidos de verde e amarelo vandalizavam as sedes dos Três Poderes da República em Brasília no último dia 8 de janeiro. Ele então agradeceu a seus patronos.

"O dinheiro está na conta", disse ele, enquanto transmitia ao vivo a pior crise política do Brasil em uma geração. "Obrigado a vocês, amigos patriotas... que nos ajudaram, muitos amigos nos patrocinando com o Pix."

Sistema de pagamentos extremamente bem sucedido e popular no Brasil e administrado pelo Banco Central, o Pix se tornou um pilar financeiro fundamental que sustenta o movimento de negacionismo eleitoral capitaneado por Bolsonaro, permitindo que seus apoiadores mais radicais financiem seus meios de comunicação alternativos e manifestações de extrema-direita que culminaram no caos do dia 8 de janeiro.

Mas agora, enquanto as autoridades buscam identificar os financiadores dos distúrbios em Brasília, a mesma ferramenta que ajudou a forjar o movimento insurgente será usada pelos investigadores para derrubá-lo, disseram à Reuters cerca de uma dúzia de policiais e autoridades especialistas em combate à lavagem de dinheiro.

"Estamos com uma linha segura de investigação consistente justamente no rastreamento das movimentações financeiras realizadas através do Pix", disse um policial federal de alto escalão envolvido na extensa investigação, falando sob condição de anonimato por se tratar de uma investigação em andamento. "Certamente chegará a vez dos financiadores."

O ministro do Supremo Tribunal Alexandre de Moraes, que está conduzindo a investigação criminal sobre a invasão, e o ministro da Justiça, Flávio Dino, disseram que planejam priorizar a descoberta dos financiadores dos atos, que provavelmente enfrentarão acusações semelhantes aos 1.398 invasores presos. Eles são acusados de crimes como terrorismo e tentativa de golpe.

Um policial federal que trabalha na investigação da Suprema Corte disse que os primeiros achados sugerem que o quebra-quebra foi financiado por fazendeiros e magnatas do ramo dos caminhões em importantes redutos bolsonaristas no interior do Brasil. No entanto, a polícia ainda não identificou um peixe grande, disse o policial, que falou sob condição de anonimato: "Ninguém relevante ainda".

A assessoria de imprensa da Polícia Federal se recusou a falar sobre uma investigação em andamento.

Faria, o invasor do Senado natural da cidade de Socorro, no Estado de São Paulo, não respondeu à solicitação de entrevista.

Lançado em novembro de 2020 e administrado pelo Banco Central do Brasil, o Pix é gratuito para pessoas físicas, permitindo que elas transfiram dinheiro instantaneamente para outras pessoas.

Tem sido um enorme sucesso, usado por todos, de pedintes a bilionários. Desde o seu lançamento, mais de 133 milhões de brasileiros e quase 12 milhões de empresas já fizeram ou receberam transferências do Pix, segundo o BC. As transações até o momento totalizaram cerca de 16 trilhões de reais e ultrapassaram os pagamentos com cartão de crédito e débito no ano passado.

O Pix entrou em todas as facetas da vida cotidiana brasileira, incluindo o vasto e indisciplinado universo de blogs e canais do Youtube que servem como incubadores para os principais apoiadores de Bolsonaro.

Os influenciadores pró-Bolsonaro anunciam suas "chaves" do Pix em vídeos do Youtube e transmissões ao vivo do Instagram, pedindo aos seguidores que enviem contribuições instantâneas para suas contas bancárias.

Enzo Leonardo Suzin, um Youtuber conservador conhecido como Enzuh, disse que a maior parte de sua receita ainda vem de anúncios, mas as contribuições do Pix agora representam até 20% da receita.

"Sempre usei crowdfunding para melhorar a qualidade do canal", disse Suzin, que foi alvo em 2020 de uma investigação do Supremo Tribunal Federal sobre supostas fake news, mas nunca foi indiciado.

O Pix tornou-se onipresente graças ao fato de ser gratuito e instantâneo. Seu alcance tem sido uma benção para os arrecadadores de fundos, que podem facilmente receber transferências de todo o Brasil.

Desde que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva venceu a eleição no dia 30 de outubro, Suzin percebeu que o Pix estava sendo amplamente usado pelos partidários mais radicais de Bolsonaro que agitavam um golpe em acampamentos do lado de fora de bases militares em todo o Brasil, incluindo o quartel-general do Exército em Brasília.

Muitos deles pararam suas vidas e estavam usando a mídia social para solicitar contribuições de "patriotas" com ideias semelhantes.

"Muitos influenciadores e algumas pessoas comuns se financiaram exclusivamente pelo Pix lá", disse Suzin.

TRILHA INVESTIGATIVAA polícia, especialistas em lavagem de dinheiro e funcionários do Banco Central disseram que as doações via Pix serão fundamentais para os esforços dos investigadores na descoberta de quem orquestrou a invasão. Vários especialistas e funcionários públicos pediram anonimato para discutir as investigações em andamento.

"É uma ferramenta extremamente poderosa dentro desse contexto investigativo e não tenho dúvidas de que será usada", disse Bernardo Mota, ex-funcionário do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

As transferências via Pix são cobertas por leis de sigilo bancário, e a polícia só pode acessar o histórico de transações de um suspeito mediante autorização judicial.

Embora o Pix não ofereça mais rastreabilidade do que os sistemas anteriores, especialistas dizem que o fato de ele ser administrado pelo Banco Central remove uma camada de burocracia, permitindo que os investigadores evitem lidar com bancos privados.

Isso é particularmente útil em uma investigação como esta, disse Mota, com a necessidade de rastrear rapidamente o que podem ser centenas ou mesmo milhares de diferentes financiadores pelo Brasil.

Um dos tipos mais comuns de chave Pix é o número de telefone celular de uma pessoa, oferecendo aos investigadores um atalho para buscar escutas telefônicas e requisitar judicialmente registros de conversas por aplicativos de mensagem.

"Acho que essa rapidez permite identificar as relações entre as pessoas envolvidas e, principalmente, quem financiou tudo isso", disse Mota. "Você pode ter pessoas que financiaram e não estavam lá (em Brasília) naquele dia. Pelas ligações financeiras você pode identificá-los."

O Banco Central brasileiro disse em comunicado que "todas as operações do Pix são rastreáveis", acrescentando que "sempre atua em estreita colaboração com as autoridades competentes na apuração de quaisquer crimes envolvendo o sistema financeiro".

O Pix também tem suas desvantagens investigativas, dizem os especialistas. Com uma parcela crescente das transações diárias agora sendo realizadas via este sistema, pode ser demorado para os investigadores separarem as transferências suspeitas dos gastos diários.

Um funcionário atual do Banco Central disse que uma série de novas empresas de tecnologia financeira e processadores de pagamentos digitais aumentaram o acesso aos serviços bancários no Brasil, ao mesmo tempo em que facilitaram a abertura de contas com pouca informação ou mesmo informações falsas.

Com o Pix, os manifestantes poderiam "reunir recursos para tudo o que precisamos", disse Oswaldo Eustaquio, outro bolsonarista de destaque. "Dinheiro nunca foi um problema para nós."