'Destruir o patrimônio é rasgar uma página da nossa história como civilização', diz ex-presidente do Iphan

Presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) entre 2006 e 2012 e membro do Comitê de Patrimônio Mundial da Unesco de 2008 a 2011, Luiz Fernando de Almeida ainda não viu de perto os estragos feitos pelos terroristas em Brasília no último domingo. Não arrisca, portanto, quanto tempo a reconstrução vai demorar, mas tem uma certeza: o trabalho é muito maior do que apenas restaurar obras de arte ou mobiliário.

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— É um desafio enorme pra sociedade brasileira. Tem uma frase na nossa área que diz que a preservação do patrimônio histórico é educação, é a demonstração de como somos educados como sociedade. Temos que fazer desse processo uma união nacional em defesa do que o Brasil tem de melhor.

Confira abaixo trechos da entrevista com Luiz Fernando de Almeida.

O GLOBO: Desde 1987, o Plano Piloto de Brasília é Patrimônio Cultural da Humanidade. Qual o significado desse reconhecimento da Unesco e o impacto da destruição dos prédios públicos que compõem o projeto?

Luiz Fernando de Almeida: Quando um bem cultural é considerado patrimônio mundial, significa que ele foi escolhido para ilustrar nosso processo cvilizatório como humanidade. Brasília foi o primeiro patrimônio moderno protegido. Mostrou uma contribuição do Brasil ao mundo. Destruir é rasgar uma página da nossa História como civilização, quem faz isso são bárbaros. As dimensões do melhor do Brasil são o futebol, a música e a arquitetura. Uma das artes deste tripé foi agredida pelos terroristas.

Na reconstrução do Capitólio, após os ataques de 6 de janeiro de 2021, os restauradores deixaram pequenas marcas, com o intuito de sinalizar que ali houve um ato de barbárie que não pode ser esquecido. O que o senhor pensa disso? Acha que devemos repetir essa estratégia nos prédios do Congresso, Planalto e STF?

Acho uma discussão importante, é um pouco do que se colocou na época do incêndio do Museu Nacional (setembro de 2018). Quando preservamos um bem, preservamos a História acumulada. Esses prédios de Brasília carregam a história da barbaridade, da loucura que se acometeu sobre eles. Patrimônio é educação, precisamos usar esse processo todo para nos educar.

Quais as informações o senhor tem sobre os danos ao patrimônio no domingo?

Sei que o Iphan, junto com outras estruturas, está fazendo o levantamento de dados para adotar as estratégias de recuperação. Eu não sei dizer quanto tempo o processo vai demorar. A restauração é feita a partir da qualificação do dano.

Qual o maior desafio dessa reconstrução?

Tem uma dimensão material, que é palpável, mas o grande ataque foi ao patrimônio simbólico da democracia. É um desafio enorme para a sociedade brasileira. Tem uma frase na nossa área que diz que a preservação do patrimônio histórico é educação, é a demonstração de como somos educados como sociedade. Temos que fazer desse processo um novo processo de união nacional em defesa do que o Brasil tem de melhor.