Detento diz que fugiu por medo e se entrega após pedido de mãe cardíaca

KLAUS RICHMOND E MARCELO TOLEDO

RIBEIRÃO PRETO E MONGAGUÁ, SP (FOLHAPRESS) - A empregada doméstica Luzia Pereira da Silva, 57, chegou caminhando vagarosamente ao lado do filho Charles da Silva Barreto, 30, em direção ao CPP (Centro de Progressão Penitenciária) de Mongaguá (a 97km de São Paulo).

Pouco antes do enorme portão de entrada, parou para se despedir com um abraço e lhe entregou uma Bíblia. "Ele só veio se entregar, viu, moço", disse ao agente penitenciário.

Luzia foi responsável por convencer o filho, um dos 563 detentos que fugiram do presídio durante a tarde da última segunda-feira (16), a voltar para cumprir o restante da pena de dois anos e quatro meses por furto.

Portadora de ICC (insuficiência cardíaca congestiva), problema crônico de mau funcionamento do coração que leva a um bombeamento de sangue mais fraco, ela se assustou com uma ligação inesperada informando a fuga. Logo que desligou, precisou acudida pela cunhada e por familiares.

"O que você fez, Charles? Me fala onde você está que lhe ajudo a voltar", respondeu ao telefone.

Charles foi caminhando até a casa da mãe em Itanhaém, município vizinho, pelo acostamento da rodovia Padre Manoel. Foi recebido pelos familiares e explicou ter fugido por medo de represálias dos internos.

"Foi uma correria muito grande depois que cancelaram as saídas. Tive muito medo, eles falaram que todos deveriam fugir. Procurei a minha família para voltar", conta Charles.

O detento foi um dos poucos que se entregaram voluntariamente até o fim da tarde desta terça-feira (17). Dos 563 fugitivos, 184 foram recapturados de acordo com informações do SAP (Secretaria de Administração Penitenciária).

A tensão nas prisões aumentou após a proibição de visitas em algumas unidades, como represália a uma greve branca, em que prisioneiros vinham se negando a participar de audiências.

Somado a isso, a situação ficou ainda mais problemática quando os presos souberam de uma decisão da Justiça de suspender as saidinhas temporárias de detentos nos próximos dias, medida ligada à prevenção do novo coronavírus.

Pouco depois de Charles, outra mãe acompanhava o filho ao lado de familiares para repetir o mesmo ato. "Só quero dizer que ele não foi recapturado, está se entregando. O meu filho pagou pelos seus sete meses, já vai sair, só fugiu por medo. Não faria sentido fazer isso agora", disse a também doméstica Maria Cristina Nascimento, 54.

Curiosamente, a fuga não mudou a rotina de comerciantes e moradores do bairro Balneário Arara Vermelha, onde fica localizado o presídio. Mesmo com recomendações de agentes penitenciários, eles continuam andando pelas ruas e com portas abertas.

A saída em massa provocou o cancelamento de aulas das creches e escolas da cidade. Além disso, um supermercado da rede Krill também foi fechado.

"Há moradores em pânico, com muito medo. Eles tiveram a ousadia de pararem carros em rodovias e de pular casas para pegar roupas. A situação ainda é considerada grave", disse o prefeito Márcio Melo Gomes.

No centro da cidade, grande parte das lojas funcionava normalmente, mas o movimento foi considerado por comerciantes abaixo da média diária.

"Costumo vender, pelo menos, cinqüenta cocos por dia. Hoje não vai chegar nem a vinte", disse o comerciante Raimundo Pereira, 67.

Em um dos restaurantes próximos a prefeitura, mesmo já no período da tarde, apenas raras procuras por almoços. Lojas de comerciantes registravam baixo movimento, também.

"A minha irmã tem uma loja, mas orientei que não abrisse. Estamos todos preocupados, muitos estão com medo de sair. Hoje quase não entrou ninguém na minha loja", disse Marcelo Pinheiro, 37, comerciante.

Além da unidade de Mongaguá, os presídios de Tremembé, Mirandópolis e Porto Feliz (no interior) também registraram fugas.

A fuga do presídio do litoral foi filmada por um detento próximo ao portão de principal, de entrada e saída de veículos. Nas imagens, é possível ouvir uma das pessoas dizendo aos fugitivos que "precisam voltar na segunda-feira".

O CCP de Mongaguá tem capacidade para 1.640 presos, mas também sofre com superlotação para receber 2.796 detentos. A penitenciária funciona no regime semiaberto, ou seja, presos podem trabalhar durante o dia e voltar à unidade prisional para dormir na cela a noite.

INTERIOR

As cidades viveram clima tenso após a fuga dos detentos. Em Tremembé, presos chegaram a invadir uma casa, onde foram recapturados, e o transporte coletivo foi suspenso no fim da noite desta segunda-feira (16) --voltaram a operar nesta terça (17).

Já em Porto Feliz, 11 presos fugiram por cerca de dez quilômetros até chegarem a Rafard, onde sequestraram às 5h um ônibus rural que tinha quatro pessoas a bordo, incluindo motorista.

Na fuga com o veículo, foram descenso aos poucos em cidades da região, para acelerar a fuga. Oito deles ficaram em Americana e 1 em Campinas.

Os outros dois presos, que iriam para Jundiaí, foram presos na rodovia Anhanguera pela Guarda Civil Municipal de Campinas. O veículo tinha rastreador. As quatro pessoas sequestradas não sofreram ferimentos.