Detido na França Félicien Kabuga, um dos acusados do genocídio de Ruanda

Por Mehdi CHERIFIA
Milicianos hutus Interahamwe empunham suas armas, em 12 de junho de 1994, em Gitarama, no centro de Ruanda

Considerado o "tesoureiro do genocídio de Ruanda" e um dos principais réus ainda procurados pela Justiça internacional, Félicien Kabuga foi preso perto de Paris, neste sábado (16) - anunciaram a Promotoria e a Gendarmeria de Paris em um nota conjunta.

Kabuga, de 84 anos, é acusado de ter criado as milícias Interahamwe, o principal braço armado do genocídio de 1994 que causou 800.000 mortes, segundo a ONU.

Vivia nos arredores da capital francesa com uma identidade falsa e estava foragido há cerca de 25 anos.

Kabuga é alvo de um mandado de prisão por parte do Mecanismo para Tribunais Penais Internacionais (MTPI), a estrutura encarregada de concluir os trabalhos do Tribunal Penal Internacional para Ruanda (TPIR).

Ele era um dos principais acusados ainda foragido, junto com Protais Mpiranya, que dirigia a guarda do então presidente ruandês, Juvénal Habyarimana, e o ex-ministro da Defesa Augustin Bizimana.

É acusado de "genocídio", "incitação direta e pública a cometer genocídio" e "crimes contra a humanidade" (perseguições e extermínio).

Segundo o comunicado das autoridades francesas, estava entre os "fugitivos mais procurados do mundo".

Sua detenção mostra que "os responsáveis pelo genocídio podem ser responsabilizados, mesmo 26 anos após seus crimes", disse o promotor do MTPI, Serge Brammertz, em um comunicado.

Depois de ser entregue às autoridades judiciais, Kabuga foi preso preventivamente e passará por um processo de extradição diante de uma câmara do Tribunal de Apelações de Paris. Este órgão decidirá sua entrega ao MTPI em Haia para julgamento.

"A captura deles é muito bem-vinda e um ato louvável. Os sobreviventes do genocídio de 1994 contra os tutsis comemoram", afirmou o presidente da associação Ibuka ("Recorde", em tradução livre do ruandês para o português), Jean-Pierre Dusingizemungu, à AFP.

Ele disse esperar que Kabuga "seja extraditado e julgado em Ruanda, onde cometeu os crimes".

Já o secretário-geral da Luta contra o Genocídio, Jean-Damascène Bizimana, afirmou que a prisão de Kabuga "honrou a memória das vítimas".

- Círculo do poder -

Em 1994, Félicien Kabuga fazia parte do círculo próximo ao presidente ruandês, cujo assassinato em 6 de abril de 1994 provocaria o genocídio. Uma das filhas de Kabuga era casada com um filho de Habyarimana.

Kabuga presidiu a Rádio Televisão Free Thousand Hills (RTLM), que transmitia chamadas para assassinar os tutsis, e o Fundo de Defesa Nacional (FDN), que coletava "fundos" para financiar a logística e as armas dos milicianos hutus Interahamwe, de acordo com a ata de acusação do TPIR.

Ele também é acusado de ter "ordenado aos funcionários de sua sociedade (...) que importassem um número impressionante de facões para Ruanda em 1993", antes de distribuí-los em abril de 1994 para o Interahamwe.

Kabuga foi preso neste sábado às 6h30, em um prédio residencial em Asnières, perto da capital. Estava com um de seus filhos, que não foi preso.

"Ele era um homem velho que tinha problemas para caminhar. Viveu lá por três ou quatro anos, era muito discreto. Ele não falava. Balbuciava quando alguém o cumprimentava", contou à AFP o presidente da comunidade do edifício, Olivier Olsen.

Refugiado na Suíça em julho de 1994 e depois expulso deste país, Kabuga se instalou temporariamente em Kinshasa. Depois, foi visto em julho de 1997 em Nairóbi, onde escapou de uma operação para detê-lo, e depois de outra em 2003, segundo a ONG especializada TRIAL.

De acordo com o comunicado das autoridades francesas, ele também teria morado na Alemanha e na Bélgica. Os Estados Unidos prometeram uma recompensa de até US$ 5 milhões por sua captura.